"A Renamo entende que a prisão do ex-ministro [das Finanças Manuel] Chang e dos ex-banqueiros do Credit Suisse acusados de ilícitos financeiros no processo das dívidas ocultas é a confirmação das confirmações de que houve prática criminal por parte dos dirigentes da Frelimo [partido no poder] envolvidos no processo que devem ser responsabilizados", le-se numa nota enviada esta tarde à Lusa.

Assim, continua a nota da bancada parlamentar, "as dívidas não devem ser pagas pelo povo moçambicano e todo o processo de restruturação das dívidas deve ser imediatamente suspenso pelo Ministério de Economia e Finanças".

Com duras críticas à atuação do Governo e dos dirigentes da Frelimo, a quem acusam de "roubalheira", a nota da bancada parlamentar do maior partido da oposição moçambicano continua considerando que "as dívidas ocultas foram contraídas de forma inconstitucional e ilegal, como ficou provado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e pela auditoria independente da Kroll".

Na nota, a Renamo diz que "esteve sempre evidente que a inércia da PGR [Procuradoria-Geral da República] e demais instituições da justiça moçambicana visam o encobrimento da roubalheira cometida contra o povo moçambicano, por dirigentes da Frelimo, claramente identificados no relatório da Kroll" e termina exigindo que o Governo se pronuncie.

"A Renamo exige um pronunciamento do Presidente da República, do Conselho Constitucional, da Procuradoria-Geral da República e da presidente da Assembleia da República, que não deve continuar calada diante da prisão, no estrangeiro, de um dos membros do Parlamento moçambicano tido como peça fundamental da mega-fraude que desgraçou o povo moçambicano", refere ainda a Renamo.

Em causa está a detenção, na quinta-feira, em Londres, de três antigos banqueiros do Credit Suisse, que se junta à detenção de Jean Boustani, um intermediário da Privinvest, na quarta-feira, em Nova Iorque, e do antigo ministro das Finanças de Moçambique Manuel Chang, em Joanesburgo, no sábado.

De acordo com os procuradores da Justiça em Nova Iorque, a investigação abarca a atuação de três antigos banqueiros que intermediaram empréstimos a empresas públicas moçambicanas realizados à margem das contas, no valor de mais de 2.000 milhões de dólares.

Andrew Pearse, um antigo diretor do banco Credit Suisse; Surjan Singh, diretor no Credit Suisse Global Financing Group; e Detelina Subeva, vice-presidente deste grupo, foram detidos em Londres e enfrentam um pedido de extradição para os Estados Unidos, onde a Justiça investiga se os investidores foram deliberadamente enganados nos empréstimos.

No âmbito desta investigação, o antigo ministro das Finanças de Moçambique Manuel Chang foi detido na África do Sul no dia 29 de dezembro, quando tentava embarcar para o Dubai, na sequência de um pedido de extradição das autoridades norte-americanas.

A comunicação social moçambicana e estrangeira refere que o antigo governante, que é atualmente deputado da Assembleia da República, é acusado de conspiração para fraude eletrónica, conspiração para fraude com valores mobiliários e lavagem de dinheiro.

Manuel Chang foi ministro das Finanças de Moçambique durante o Governo do Presidente Armando Guebuza, entre fevereiro de 2005 e dezembro de 2014.

Então com o pelouro das Finanças, foi Manuel Chang que avalizou dívidas de mais de 2.000 milhões de dólares (1.760 milhões de euros) secretamente contraídas a favor da Ematum, da Proindicus e da MAM, empresas públicas ligadas à segurança marítima e pescas, entre 2013 e 2014.

A mobilização dos empréstimos foi organizada pelos bancos Credit Suisse e VTB.

Uma auditoria internacional deu conta da falta de justificativos de mais de 500 milhões de dólares (440 milhões de euros) dos referidos empréstimos, sobrefaturação no fornecimento de bens e inviabilidade financeira das empresas beneficiárias do dinheiro.