Rui Pinto é astrónomo, trabalha actualmente no Laboratoire Dynamique des Etoiles do Commissariat à l’énergie atomique et aux énergies alternatives, em França. Ele tem trabalhado na missão da Solar Orbiter e durante a sua preparação esteve no Institut de Recherche en Astrophysique et Planétologie, em Toulouse.

A missão Solar Orbiter é “apoiada por uma equipa verdadeiramente internacional”, com participações de quase todos os países europeus, incluindo Portugal.

“É uma missão que é fantástica, que levou imenso tempo a preparar e cujo objectivo é tentar perceber a origem de todos os efeitos que o Sol tem na Terra e no ambiente que circunda a Terra. O Sol é uma estrela que tem uma atmosfera muito densa e que gera o que a gente chama de vento solar (…) Esse vento acelerado nas proximidades do sol a gente sabe mais ou menos porquê mas não exactamente. O objectivo desta missão é tentar perceber as ligações físicas entre o que se passa mesmo à beira do Sol e o que se passa aqui longe onde nós estamos”, começa por descrever Rui Pinto.

A sonda, que se vai aproximar bastante do Sol – cerca de um terço da distância entre a Terra e o Sol – conta com um escudo térmico e dez instrumentos científicos, “metade serve para observar o Sol à distância e uma série de outros instrumentos fazem medidas ao longo da órbita do satélite”.

“O objectivo principal científico é tentar perceber a origem de perturbações que acontecem nas proximidades do Sol, como é que elas se propagam e, ‘in fine’, como é que eles se propagam até à vizinhança da Terra. Do ponto de vista mais pragmático, trata-se de começar a tentar encontrar o caminho para fazer o que a gente chama hoje em dia de Meteorologia do Espaço. A meteorologia do espaço tem a ver com ser capaz de prever tudo o que acontece no espaço à volta da Terra e que tem um efeito sobre a vida aqui no nosso planeta”, explica.

Entre os efeitos, há, por exemplo, perturbações em satélites de posicionamento, em comunicações de rádio, mas também já houve “blackouts de energia”.

A missão vai permitir, ainda, observar as chamadas zonas polares do sol, que nunca tinham sido observadas directamente, “e o que se passa nessas zonas influencia de forma muito importante a evolução do campo magnético e da estrutura da atmosfera solar ao longo do tempo”. “É um conhecimento que nos falta absolutamente e que esta sonda nos vai ajudar a perceber.”

A sonda foi lançada a 10 de Fevereiro, mas cerca de um mês depois vários países europeus entraram em confinamento devido à pandemia de covid-19. Como as fases iniciais das missões são essenciais para testar e calibrar tudo, os cientistas ficaram sem acesso aos centros de controlo da ESA e, inicialmente, “foi um pouco assustador”. Porém, o atraso inicial foi ultrapassado, com todos os técnicos, engenheiros e cientistas a trabalharem a partir de casa.

“Foi complicado, mas conseguimos apanhar o tempo perdido e, neste momento, está tudo a funcionar à altura certa já. Neste momento estamos numa fase de cruzeiro em que a órbita se vai ajustando até à sua órbita principal”, comenta.

“Para mim é uma verdadeira revolução, claramente. Uma revolução naquilo que a gente chama hoje em dia de relações Sol-Terra”, conclui.


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