A Wikipedia alterou os hábitos de pesquisa dos estudantes portugueses, "embora nem sempre pelas boas razões". António Dias de Figueiredo, professor catedrático aposentado e investigador, sustenta que a plataforma online potencia trabalhos académicos "fraudulentos" mas também pode encorajar "uma participação mais produtiva e interveniente na construção do saber".

"Inicialmente, vi-a com cepticismo", conta o português António Dias de Figueiredo ao SAPO Notícias ao recordar o surgimento da Wikipedia, há dez anos.

"As primeiras contribuições estavam longe de ser rigorosas e o modelo de construção de conhecimento em que assentava suscitava-me dúvidas. Apercebi-me rapidamente, contudo, de que estava a melhorar muito depressa, e a partir de certa altura passei a encará-lo com grande interesse. Hoje, considero a Wikipedia como o exemplo mais bem sucedido e inspirador do potencial das dinâmicas das multidões", defende o investigador da Universidade de Coimbra licenciado em Engenharia Electrotécnica na Universidade do Porto e doutorado em "Computer Science" pela Universidade de Manchester.

A rápida mudança de opinião não o impede, ainda assim, de reconhecer que o recurso à Wikipedia nem sempre é o mais correcto, pelo menos por parte dos estudantes portugueses. "A improvisação de trabalhos académicos por cópia-e-colagem mecânica, não reflexiva e por vezes fraudulenta, afigura-se-me negativa", constata.

Mas o investigador de "TIC na Aprendizagem e na Educação" e proponente, em 1985, do Projecto MINERVA, que introduziu recursos informáticos na educação não superior em Portugal, não considera que essa situação seja regra. "Fico contente quando me apercebo de que alguns jovens enriquecem os seus saberes e a sua percepção do mundo iniciando na Wikipedia pesquisas que depois aprofundam autonomamente em outras fontes e interiorizam e reconstroem à luz da sua própria experiência", esclarece.

Ao fim de dez anos, o caminho ainda é longo

O colaborador de "The Encyclopedia of E-Collaboration" (2008) aponta ainda que "é possível melhorar muito a presença portuguesa na Wikipedia. Uma possibilidade era incentivar os estudantes universitários e os seus professores a contribuírem". E aqui António Dias de Figueiredo realça não a componente de recolha de informação, a mais habitual, mas "a participação mais produtiva, interveniente e dirigida para a construção do saber individual e colectivo".

"Vários dos trabalhos de pesquisa que os alunos fazem hoje nas universidades, no âmbito de tarefas académicas pelas quais são avaliados, podiam ser configurados como contribuições para a Wikipedia. Bastava que fossem definidos à partida como tal para que deixassem de ser meros trabalhos destinados a ser esquecidos depois de avaliados", sugere.

Se práticas como esta ainda não são frequentes (embora os wikis sejam um recurso de alguns cursos), parte das razões derivam da "falta de visão das dinâmicas das tecnologias do Ministério da Educação, que se tem limitado a lançar grandes compras de equipamento", salienta o detentor do "Prémio Personalidade do Ano da Sociedade de Informação, 2005" da APDSI (Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade de Informação).

"Sem estas limitações, a Wikipedia, tal como outras grandes oportunidades proporcionadas pelas tecnologias na educação, poderiam estar a ser muito mais exploradas", conclui.

SAPO

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