Ele descreve mesquitas como “bases inimigas” e se refere a muçulmanos como “cães loucos”. Também acusa os adeptos do Islã de “roubar e estuprar mulheres birmanesas” e de “se reproduzirem muito rápido”.

Durante anos, as autoridades de Mianmar deram proteção e apoio ao monge budista mais polêmico do mundo, Ashin Wirathu, o que lhe permitiu seguir adiante com suas pregações extremas.

Mas depois de seu ataque à chefe de governo Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, as autoridades do país parecem ter concluído que o monge foi longe demais. Agora ele pode ser preso sob acusação de perturbação da ordem pública.

Mas quem é esse monge controverso, conhecido como “Bin Laden budista”?

Fumaça do que se acredita ser uma aldeia em chamas no estado de Rakhine, em Mianmar, enquanto membros da minoria muçulmana Rohingya se abrigam eentre Bangladesh e Mianmar, em Ukhia, perto da fronteira, em 4 de setembro de 2017
Centenas de milhares de muçulmanos Rohingya fugiram de Mianmar devido à violência em 2017 créditos: AFP/Getty Images

Primeiros anos

Em 2001, Wirathu chamou atenção ao liderar uma campanha para boicotar empresas que pertenciam a muçulmanos.

Ele foi preso e sentenciado a 25 anos de prisão em 2003, mas solto em 2010, após uma anistia geral. Mas o encarceramento não parece ter reduzido seu fervor ativista contra as minorias muçulmanas do país.

Em seus discursos, ele mistura parábolas budistas com fortes doses de nacionalismo.

Ele fala com calma e clareza durante as entrevistas à imprensa, mas se inflama em reuniões públicas. Suas palavras semeiam o ódio – e a islamofobia existente no país.

Wirathu também fez campanhas pela a aprovação de uma lei que proíbe homens muçulmanos de se casarem com mulheres budistas.

“Você não pode subestimar uma cobra porque ela é pequena. Os muçulmanos são assim”, disse ele, certa vez.

Wirathu costumava passar horas atualizando sua página de mídia social de seu mosteiro em Mandalay
Wirathu usou as mídias sociais, assim como ferramentas convencionais, como livros e CDs, para divulgar sua mensagem de ódio ao Islã créditos: Getty Images

Banido das redes sociais

Nos últimos anos, o monge passou a divulgar nas redes sociais a mensagem de que a cultura budista do país seria esmagada por uma crescente população muçulmana.

Eventualmente, o Facebook bloqueou sua conta em janeiro de 2018, citando suas mensagens de ódio contra a minoria muçulmana rohingya do país.

Wirathu afirmou que procuraria outras plataformas para divulgar suas ideias.

“Quando o Facebook me baniu, passei a confiar no YouTube. Mas o YouTube não é abrangente o suficiente, então vou usar o Twitter para continuar o trabalho nacionalista”, disse ele.

Ele também compartilha seus vídeos pelo VK, uma espécie de Facebook russo.

Mas não foi apenas o Facebook a bani-lo. Em abril deste ano, ele foi impedido de fazer um sermão na vizinha Tailândia, que também tem maioria budista.

Um manifestante segura uma faixa que diz 'A Face do Terror Budista' com a imagem de Wirathu durante uma manifestação em Jacarta
Wirathu é considerado o monge antimuçulmano mais influente em Mianmar, mas ele diz que está apenas protegendo sua religião e cultura créditos: Getty Images

Incompreendido

A popularidade de Wirathu reflete a difícil situação dos muçulmanos de Mianmar, onde formam apenas cerca de cinco por cento da população.

Em julho de 2013, a revista Time publicou uma foto do monge na capa com a legenda “O rosto do terror budista”.

“Estou sendo mal interpretado e atacado. Acho que há um grupo pagando à mídia para me difamar. Certamente a mídia online é controlada por muçulmanos”, disse ele à BBC em 2013.

Ele foi descrito como “Bin Laden budista” em um documentário lançado em 2015 – apelido rapidamente adotado por alguns veículos de mídia. Porém, Wirathu rejeita a comparação.

Ele diz que abomina a violência. “Eu nem gosto de responder com grosseria”, disse.

Wirathu called the UN special envoy Yanghee Lee a bitch and a whore
A enviada da ONU Yanghee Lee ganhou a ira de Wirathu depois que seu relatório disse que a violência contra a minoria Rohingya tem "as marcas do genocídio" créditos: Getty Images

Críticas à ONU

O budista de 51 anos tem um vasto histórico de controvérsias.

Em 2015, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou uma agente especial para investigar a situação da minoria muçulmana em Mianmar, Wirathu chamou a enviada, a diplomata sul-coreana Yanghee Lee, de “cadela” e “prostituta”.

Um relatório da ONU divulgado no ano passado disse que os chefes de militares de Mianmar deveriam ser investigados por genocídio no Estado de Rakhine – depois disso, o Tribunal Penal Internacional abriu uma análise preliminar do caso.

O governo de Mianmar rejeitou o relatório e o monge liderou uma ofensiva contra a ONU.

Os seguidores de Wirathu foram amplamente responsabilizados por tumultos antimuçulmanos no Estado de Rakhine, que começaram em 2012 e culminaram no êxodo de mais de 700 mil pessoas para o país vizinho Bangladesh.

Os nacionalistas do país costumam se referir aos muçulmanos rohingya como “bengalis” (como são chamados os nascidos em Bangladesh) – querendo imputar-lhes uma condição de forasteiros.

Em uma entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian em 2017, Wirathu acusou o partido do governo, a Liga Nacional pela Democracia, de apoiar secretamente uma agenda muçulmana.

Um refugiado Rohingya tentando atravessar o rio Nad. o ponto de passagem entre a fronteira Myanmar-Bangladesh em Palong Khali, perto do Bazar de Cox.
A violenta campanha militar forçou mais de 700 mil muçulmanos Rohingya a se abrigar em Bangladesh créditos: Reuters

Budismo

Mianmar não tem religião oficial definida pelo governo, mas a sociedade é fortemente influenciada pelo budismo – cerca de 90% da população se diz adepta da religião.

Os monastérios desfrutaram de patrocínio estatal há séculos – a ajuda só terminou no século 19, durante o período colonial britânico.

Magníficos templos budistas enfeitam a paisagem de Myanmar, nutridos pelas águas do Irrawaddy e outros rios. Os mosteiros são donos de grandes faixas de terras aráveis.

O país, com população de 54 milhões, tem uma longa história de ditadura militar e mantém um Exército permanente de mais de 400 mil soldados. Estima-se que o número de monges budistas seja ainda maior, de 500 mil – eles desfrutam de status social elevado e são amplamente reverenciados pela população.

Os antigos templos na planície de Bagan
O budismo tem raízes profundas em Myanmar e influencia profundamente a sociedade créditos: BBC

Ma Ba Tha

Wirathu foi inicialmente associado a uma organização chamada 969. Os defensores do grupo dizem que o primeiro número 9 representa os atributos especiais do Buda, o 6 denota as características especiais dos ensinamentos budistas e o último 9 significa as qualidades da Sangha – a congregação de monges.

Mas o grupo 969 era mais conhecido por seu ativismo antimuçulmano.

O grupo recebeu apoio do governo e, em 2013, o então presidente de Mianmar Thein Sein se manifestou abertamente em apoio tanto ao movimento quanto a seu mais proeminente líder, descrevendo Wirathu como “filho de Buda”.

Wirathu posteriormente se tornou líder de outra organização chamada Ma Ba Tha – ou a Associação Patriótica da Birmânia (nome antigo de Mianmar), criada em 2014. Ela cresceu rapidamente em todo o país, antes de ser proibida em 2017.

Mas ele continuou espalhando sua mensagem de ódio aos muçulmanos do tranquilo mosteiro Ma Soe Yein em Mandalay – onde ergueu uma exposição permanente de fotos que, segundo ele, mostram as vítimas da “violência muçulmana”.

Em uma longa entrevista concedida à BBC em 2013, o monge, vestido com a tradicional túnica de cor laranja, não se arrependeu de suas provocações. “Os muçulmanos só se comportam bem quando são fracos. Quando se tornam fortes, eles são como um lobo ou um chacal; em grandes grupos, eles caçam outros animais”, disse ele.

“Eles (muçulmanos) não reconhecem outros grupos como humanos. Eles atacam cristãos e hindus também. Na verdade, eles atacam a todos. Se você não acredita nisso, dê sua tecnologia nuclear ao Talebã. Prometo a você, seu país em breve desaparecerá “, acrescentou.

O monge budista linha-dura Wirathu está no palco, onde mais de mil budistas se reuniram para a cúpula anual de seu grupo ultranacionalista, Ma Ba Tha, em 2016.
Devido à liderança carismática de Wirathu, o movimento Ma Ba Tha rapidamente se tornou muito popular no país créditos: AFP

Ampla influência

Wirathu viaja frequentemente e até estabeleceu laços estreitos com o grupo Bodu Bala Sena ou o BBS, organização anti-Islã do Sri Lanka, também mantida por monges que seguem o ramo teravada do budismo.

“Hoje, o budismo está em perigo. Precisamos que as mãos sejam firmemente mantidas unidas se ouvirmos o alarme”, disse Wirathu em uma reunião em 2014.

Porém, o aumento de sua popularidade não foi bem vista por mosteiros tradicionais. O Conselho de Sanga, apoiado pelo governo, proibiu Wirathu de realizar sermões por um ano, em 2017.

Um jovem novato budista olha para um painel cheio de imagens mostrando atrocidades supostamente cometidas por muçulmanos contra budistas.
Wirathu colocou uma exibição permanente de fotos que, segundo ele, mostram as vítimas da violência muçulmana créditos: Getty Images

Ataque a líder política

Mas os problemas para o monge realmente começaram quando ele atacou a figura mais popular do país, a ativista e líder política Aung San Suu Kyi.

“Ela se veste como uma fashionista, usa maquiagem e anda por aí em elegantes sapatos de salto alto, sacudindo a bunda para estrangeiros”, disse ele a uma multidão em abril deste ano.

Em um discurso proferido em maio, Wirathu a acusou de “dormir com um estrangeiro”.

Suu Kyi foi casada com o acadêmico britânico Michael Aris, que morreu de câncer em 1999, enquanto ela estava sob prisão domiciliar imposta pelo regime militar.

“Wirathu é um monge muito popular e comanda um grande número de seguidores. Essa massa fica feliz quando ele ataca os muçulmanos. Mas quando ele atinge Aung San Suu Kyi, sua popularidade leva uma pancada e despenca”, diz Myat Thu, co-fundador do centro de estudos Escola de Ciência Política de Yangun.

Aung San Suu Kyi durante sua visita à BBC em 2012
Aung San Suu Kyi continua imensamente popluar em Myanmar créditos: BBC

Educada em Oxford, Aung San Suu Kyi é conhecida como “A Dama” e é tida como líder de fato do país. Seu cargo oficial é o de conselheira do Estado. O presidente, Win Myint, é um aliado próximo.

A Constituição de Myanmar a proíbe de se tornar presidente do país por ter filhos com nacionalidade estrangeira – eles têm dupla cidadania birmanesa e britânica.

O governo civil agora quer mudar termo da Constituição que proíbe Aung San Suu Kyi de assumir o cargo máximo no Executivo do país. Wirathu se opõe às mudanças constitucionais propostas.

“As pessoas têm grande respeito por Aung San Suu Kyi. Mesmo muitos monges linha dura, e que estão com Wirathu, agora podem achar mais difícil apoiar sua diatribe contra Suu Kyi”, acrescenta Myat Thu.

“Se Wirathu tivesse sido crítico apenas às mudanças constitucionais, teria sido difícil para o governo tomar medidas contra ele. Mas ele recorreu a ataques pessoais contra Suu Kyi, o que não caiu bem com o público”, diz Myat.

“Ele tornou mais fáceis ações do governo contra ele”.

Mas Wirathu mantém sua postura desafiadora. “Se eles quiserem me prender, podem fazê-lo”, disse ele ao portal Irrawaddy, recentemente.


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Escrito por: Swaminathan Natarajan - Do BBC World Service

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