A primeira fase do projeto de cooperação estava prevista para abril passado, quando foi adiada, a pedido das autoridades do Hospital Central de Maputo, saturado com as consequências do devastador ciclone Idai.

Esta missão inicial luso-uruguaia passará por definir as necessidades do hospital, o alcance da qualificação e a transferência do conhecimento uruguaio aos profissionais moçambicanos, num processo de formação que deve levar três anos.

"No Hospital de Maputo, teremos um diálogo horizontal com os responsáveis para definirmos o cronograma pelos próximos anos. Ver quem são as pessoas a serem qualificadas e de qual tipo de formação vão precisar", explicou à Lusa Andrea Vignolo, diretora executiva da Agência Uruguaia de Cooperação Internacional (AUCI).

A cooperação triangular entre Portugal e Uruguai em Moçambique centra-se na "Citometria de Fluxo", tecnologia no diagnóstico do cancro. O objetivo aponta à deteção e ao tratamento de doenças oncológicas hematológicas. Para isso, será necessário identificar áreas e modalidades de trabalho num projeto que permita a profissionais e técnicos moçambicanos terem formação para usarem o equipamento e lerem o diagnóstico.

A cooperação insere-se no projeto de "Melhoria do diagnóstico e do tratamento das doenças oncológicas em Moçambique", da Fundação Calouste Gulbenkian, que, para esta parceria luso-uruguaia, envolve transferência de conhecimentos do Centro Hospitalar de São João no Porto e do Hospital Maciel de Montevidéu ao Hospital Central de Maputo.

Antes de as autoridades de Portugal e Uruguai embarcarem juntas para Maputo, terão dois dias em Portugal para afinarem a cooperação com Moçambique.

"Vamos conversar durante dois dias em Portugal sobre as questões técnicas da cooperação e depois, juntos, embarcaremos a Moçambique", disse Andrea Vignolo.

"O Uruguai vem a Portugal e depois vai a Moçambique para ver no terreno o que existe em Portugal e o que nós já fizemos em Moçambique para poder perceber o que pode contribuir com mais-valia", acrescentou à Lusa o vice-presidente do Instituto Camões, Gonçalo Teles Gomes.

Na segunda-feira, a avaliação no Centro Hospitalar de São João, no Porto, será sobre a experiência em formação e em assistência técnica dessa instituição portuguesa com Moçambique.

A preparação decorre na terça-feira no Instituto Camões, em Lisboa, de onde a equipa parte à noite para uma avaliação no terreno, durante três dias, em Maputo.

Pelo lado do Uruguai, além da diretora da AUCI, Andrea Vignolo, estará o diretor de Hematologia do Hospital Maciel de Montevidéu, Raúl Gabús. Pelo lado português, integram a equipa o vice-presidente do Instituto Camões, Gonçalo Teles Gomes, e o gestor sénior de programa da Fundação Gulbenkian, João de Almeida Pedro.

Juntos, estarão em Moçambique com o diretor-geral do Hospital Central de Maputo, Mouzinho Saíde, e com o diretor do serviço de patologia, Félix Pinto, responsável pela coordenação técnica do projeto no hospital. Também participam os representantes dos serviços de Hematologia, Onco-Hematologia, Genética Médica e Análises Clínicas.

"Temos um projeto há muitos anos no Hospital Central de Maputo para o apoio integrado ao doente oncológico. Vamos entrar numa segunda fase para alargar esse projeto a outras províncias de Moçambique. Nesse âmbito, nós convidámos o Uruguai que tem uma boa capacidade sobre a matéria", conta Gonçalo Teles, que esteve em Montevidéu no início de outubro para conhecer o Hospital Maciel.

"A realidade do Hospital Maciel é muito mais parecida com a de Maputo do que a de um hospital público em Portugal. Então, as necessidades, as vicissitudes e as estratégias da equipa médica do Maciel estão bem mais próximas daquelas que se veem diariamente no hospital de Maputo", compara Andrea Vignolo.

O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, é um médico oncologista no seu segundo mandato (2015-2020). Durante o primeiro mandato (2005-2010), Vázquez enfatizou o combate às doenças cardiovasculares, às neurodegenerativas e ao cancro, três das doenças que mais afetam o Uruguai, um país de população envelhecida.

Em agosto passado, o presidente oncologista anunciou que sofre de um cancro no pulmão.

"Percebemos que o conhecimento do Uruguai podia ser transferido a outros países de igual ou de menor desenvolvimento porque disso se trata: o desenvolvimento não é só para um país. Tem de ser inclusivo", defende a diretora da AUCI, Andrea Vignolo. "Todos temos alguma coisa para dar e todos temos alguma coisa para aprender", conclui.

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