Daqui a muitas décadas, os historiadores poderão olhar para o ano que está agora a acabar e identificá-lo como o momento em que se anunciou uma nova era de mudança, um período de charneira onde a velha ordem começou a ruir para dar origem a algo diferente. A questão é que, neste momento, é quase impossível prever o que aí vem. Dos escombros de 2016 só sobrou, para 2017, um enorme clima de incerteza.

(Para ler a primeira parte do balanço que fazemos a 2016, clique aqui)

Uma das maiores tragédias no país. É assim que é tratada a explosão de um camião-cisterna em Caphiridzange, na província de Tete, o qual transportava combustível da Beira para o Maláui. Após uma tentativa de desviar e vender ilegalmente a carga, um incêndio acabou por deflagrar, provocando 104 vítimas.

Enquanto alguns tentam disfarçar e negar a existência de alterações climáticas provocadas pelas actividades humanas, países como Moçambique continuam a sofre na pele. Dados do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) em Gaza, a província mais afectada pela seca no país, referem que mais de 199 mil pessoas sofrem os seus efeitos. Em todo o território, estima-se que 1,4 milhões de moçambicanos vivam em situação de insegurança alimentar, número que poderá aumentar para 2,3 milhões entre Janeiro e Março do próximo ano.

Do outro lado do Atlântico, na América do Sul, houve um Nobel da Paz, Juan Manuel Santos, o presidente da Colômbia, devido aos esforços para acabar com a guerra civil que perdura no país há quase meio-século. Não obstante, acabou por ser uma vitória agridoce, pois um referendo popular acabou por rejeitar um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que se opõem ao Governo.

No Brasil, um golpe duro para a esquerda. A presidente Dilma Roussef foi legalmente destituída do lugar, muito por culpa de escândalos de corrupção que afectaram o partido ao qual está ligada (o Partido dos Trabalhadores - PT). Contudo, o novo Governo, liderado por Michel Temer, e muitas das forças políticas que o ajudaram a alcançar o poder, estão igualmente envolvidos em graves suspeitas de corrupção, razão pela qual a esquerda fala de todo o processo de destituição como um “golpe” político.

Apesar de tudo, foi o falecimento do antigo líder revolucionário cubano Fidel Castro, aos 90 anos, que marcou o ano nesta parte do globo. Fidel, goste-se ou não daquilo que representa, foi um dos ícones maiores da história do século XX.

Outros nomes famosos que nos abandonaram em 2016: David Bowie, Prince e Leonard Cohen, três gigantes da música internacional, foram perdas irreparáveis. A eles, mas no desporto, junta-se Cassius Marcellus Clay Jr., mais conhecido por… Muhammad Ali. Uma das maiores figuras de sempre do boxe e do desporto, Ali foi ainda um feroz lutador contra o racismo.

As grandes surpresas do ano… além da eleição de Trump? Comecemos pelo Nobel da Literatura entregue a Bob Dylan. Tão inesperado que nem a própria Academia Sueca conseguiu entrar em contacto com Dylan, nas semanas seguintes, para o avisar pessoalmente. Caricato, no mínimo, quanto mais não seja porque o cantor, durante longo tempo, absteve-se de comentar a atribuição do galardão. Tal e qual como se nunca tivesse acontecido.

Mas há mais, desta vez no reino do futebol. Portugal sagrou-se campeã da Europa em futebol. Inesperado porque, ainda na fase de grupos, empatou todos os três jogos (em 1982, a Itália sagrou-se campeã do mundo após o mesmo registo antes da fase a eliminar). Inesperado porque em sete jogos disputados só ganhou um nos 90 minutos. Inesperado porque venceu na final a anfitriã e favorita França, e porque, apesar de ter visto o seu melhor jogador (Cristiano Ronaldo, pois claro) ficar fora de combate logo no início do jogo decisivo, conseguiu levar para casa o “caneco” graças a um golo de Éder, o patinho feio da equipa, no prolongamento. E voltando a Cristiano Ronaldo, de referir que ainda foi a tempo de ser escolhido, pela quarta vez, como o melhor jogador do mundo pela FIFA.

A vitória do incrível também aconteceu em terras de Sua Majestade, com o mais do que modesto Leicester City a sagrar-se campeão inglês. O dinheiro não ganha tudo. O dinheiro, não, mas o talento, quando abunda, quase sempre. Que o digam o velocista jamaicano Usain Bolt e o nadador norte-americano Michael Phelps, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O primeiro ganhou nove medalhas de ouro nas últimas três olimpíadas, todas elas nas três provas de velocidade. Inigualável. Phelps, por sua vez, é o mais medalhado atleta olímpico de sempre, com um total de 28 medalhas, 23 delas de ouro. No Rio arrecadou seis, incluindo cinco de ouro. Um peixe que não precisa de guelras ou barbatanas.

Duas tragédias, já no fim de 2016, vieram assombrar o ano desportivo. O primeiro foi a queda do avião a bordo do qual vinha a equipa brasileira de futebol Chapecoense, quando se preparava para disputar na Colômbia o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana. Morreram 71 pessoas, incluindo jogadores, dirigentes, equipa técnica, jornalistas e a tripulação do avião, gerando uma onda de comoção e solidariedade a nível internacional.

Estranhamente, o mesmo não aconteceu algumas semanas depois, já no final de Dezembro, quando o barco que transportava uma equipa de futebol da aldeia de Kaweibanda, no Uganda, naufragou no lago Albert, matando 30 pessoas, incluindo apoiantes do clube. Sobreviveram 15 pessoas. Um acidente que, a exemplo de outras tragédias que ocorrem em solo africano, acabou esquecida pela esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social ocidentais.

O anúncio da descoberta de ondas gravitacionais, algo que até há pouco tempo era apenas uma hipótese teórica, foi um dos grandes momentos do ano no campo da ciência. Basicamente, o que se encontrou, graças ao Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferómetro Laser (LIGO), um projecto norte-americano, são ondas (ou pregas) no tecido do espaço-tempo causadas por um colossal evento cataclísmico: a fusão de dois buracos-negros. Albert Einstein, para não variar, provou ter razão.

Afinal, as altas taxas de desemprego que actualmente se registam podem dever-se à crescente automatização de muitos dos ofícios que antes eram feitos por humanos. É o que dizem diversos estudos e muita literatura publicada ao longo de 2016. E a tendência é para agudizar, sem que os políticos sejam capazes de entender o problema e de lhe dar uma resposta. O medo não é novo, tratando-se de uma preocupação que já vem dos tempos da Revolução Industrial. Não obstante, a disseminação da Internet (quase tudo está ligado em rede) e do digital, assim como os avanços nas áreas da informática e da robótica, têm vindo a afectar quase todas as profissões que conhecemos: não é só o sector industrial. Restringir o uso da tecnologia existente, responsável por uma capacidade produtiva sem paralelo na história humana, não é, de todo, a solução.

E o que dizer do astronauta da NASA Scott Kelly, que passou um ano inteiro no espaço, a bordo da Estação Espacial Internacional, para ver como se adaptava o seu corpo a um ambiente fora da Terra? Um marco importante, especialmente para preparar as próximas missões espaciais, nomeadamente o envio de seres humanos a Marte.

Uma criança gerada a partir do ADN de três pessoas, os seus pais e um dador saudável, para impedir que herdasse uma grave doença genética. Não é ficção científica, é mesmo possível. A equipa norte-americana que o conseguiu garante que o rapaz de origem jordana é saudável, embora nada impeça que desenvolva a doença quando for mais velho. O êxito levou a que no Reino Unido, desde Dezembro, já haja autorização para levar a cabo este tipo de procedimentos, esperando-se mais nascimentos onde se apliquem terapias deste género.

Após 366 dias (2016 foi um ano bissexto), qual é, de momento, o tema quente que todos falam? O impacto das notícias falsas e o papel que as redes sociais, como o Facebook ou o Twitter, têm na sua disseminação, domina as atenções. Donald Trump faz questão, numa base quase diária, de transmitir dados incorrectos via Twitter a quem o segue, muito provavelmente de propósito e com fins propagandísticos. No Facebook, proliferam rumores, boatos, teorias da conspiração e notícias falsas, com muitos utilizadores a revelarem-se incapazes de distinguir a verdade da mentira. O pior é quando as vítimas são os próprios políticos, criando graves incidentes diplomáticos.

No final deste mês, o ministro da Defesa do Paquistão ameaçou Israel com o uso de armas nucleares após ler uma notícia, totalmente falsa, que surgia num website muito propenso a conteúdos pouco ou nada credíveis. O artigo dizia que Israel tinha ameaçado o Governo de Islamabad com uma “retaliação nuclear”, devido ao papel do país na Síria, onde supostamente apoiaria o Estado Islâmico.

SAPO | João Lobato