Uma experiência imersiva destinada a mostrar aos cidadãos do Reino Unido “as imagens, sons e cheiros de um país em desenvolvimento” se tornou alvo de críticas, rotulada por alguns como um “safári da pobreza”.

Como uma africana que cresceu na
Europa
, a pobreza que eu conheço é principalmente a do tipo ocidental: abrigos, moradores de rua, alcoolismo e problemas com drogas.

Eu estava curiosa para explorar a iniciativa – então, fui para a segunda cidade mais populosa do Reino Unido, Birmingham, onde um caminhão estava estacionado em frente ao Conselho Municipal, envolto em uma faixa dizendo: “Experimente outro mundo sem deixar o seu”.

A faixa estampava a imagem de uma mãe africana com dois filhos sentados em frente ao que parecia um barraco de favela.

Jane Sheikh, funcionário da Compassion UK, instituição de caridade responsável pela iniciativa, me cumprimentou e explicou que havia duas exposições a serem visitadas.

Uma porta abria-se sobre a vida de Shamim, uma jovem de Uganda que contraiu malária e perdeu a audição. O segundo caminho levava a Sameson, um menino que cresceu na pobreza da capital da Etiópia, Addis Ababa, “uma cidade muito difícil de se viver”.

Patrocinadores de bom coração, em seguida, chegam para auxiliar ambos. Shamim, surda e rejeitada pela mãe, consegue ir para a escola. Sameson agora comanda sua própria oficina de marcenaria.

As exposições são experimentadas por meio de um iPhone e fones de ouvido. Atores infantis narram as histórias enquanto você caminha por pequenos espaços representando suas casas, salas de aula e até mesmo um hospital.

Caminhão da Compassion Experience
Exposição é apresentada em caminhão de instituição de caridade créditos: BBC

As histórias eram tocantes. Vi-me especialmente comovida pela de Shamim: ser uma criança surda em qualquer lugar é difícil, mas especialmente em um pequeno vilarejo.

Fiquei feliz que ela tenha sido capaz de continuar seus estudos e, ainda, fundar sua própria organização para ajudar outras
crianças
surdas.

Ambas as jornadas terminam com pequenos vídeos mostrando Shamim e Sameson falando hoje sobre como a caridade mudou suas vidas.

Um texto aparece na tela do iPhone: “Por favor, encontre o seu Shamim/Sameson agora mesmo”.

Ao sair da última sala da exposição, você entra em uma pequena sala cheia de catálogos de crianças pobres procurando por um apoiador.

Parecia uma loja de museu improvisada. Em vez de comprar livros de mesa e camisetas caras, você poderia passar o tempo folheando os perfis de crianças na África, na América do Sul e na Ásia. Cada criança tinha uma vida difícil e uma história trágica para contar.

Isso me fez pensar sobre a nossa obsessão com histórias tristes e também sobre uma crença coletiva quase silenciosa de que o recebedor de ajuda deve estar em uma situação verdadeiramente terrível para ser digno de auxílio.

Estantes com fotos de crianças exibidas
No final da exibição, visitantes podem escolher uma criança a ser patrocinada créditos: AFP

‘Superioridade disfarçada de altruísmo’

Para Ciku Kimeria, uma autora queniana com dez anos de experiência em políticas de desenvolvimento, estes personagens são como caricaturas africanas.

“A adolescente grávida, a criança pobre, a mãe sofredora… É para o consumo das pessoas brancas”, ela me disse.

“É assim que você constrói a compaixão, objetificando as pessoas?”

Seu temor é que esse tipo de trabalho de caridade seja uma “superioridade disfarçada de altruísmo”.

Uma parte da exposição simula a casa de Shamim
Uma parte da exposição simula a casa de Shamim créditos: BBC

Pessoas com boas intenções podem às vezes causar mais mal do que bem, acrescenta. Ela aponta ainda que os guardiões de crianças cujas imagens são usadas em campanhas tendem a assinar contratos sem entender que a história dela criança será “constantemente contada e revirada” por anos.

“Além de contar a história destes indivíduos, a narrativa facilmente passa a ser tratada como a história de todos os africanos.”

‘Pessoas da vida real’

Mas Caroline Cameron, chefe da Compassion Experience, defende o projeto. Ela diz não se tratar de perpetuar a miséria ou os estereótipos negativos da África.

“Para nós, o mais importante são as histórias de esperança e as oportunidades para crianças reais. Tanto Shamim quanto Sameson são pessoas da vida real e desenvolveram suas histórias conosco. Fazemos isso com eles em suas comunidades.”

Quarto de hospital reproduzido em exposição
Visitantes circulam entre espaços que reproduzem casas e hospitais créditos: BBC

Sheikh, que se juntou a nós em meio a xícaras de café caras, concorda. “Não é para se concentrar em uma região ou estereótipo – é compartilhar suas histórias.”

Eles dizem estar atentos às reações das pessoas – naquele dia mesmo, disseram a um visitante que a história de Sameson não era representativa de toda a Etiópia.

“Tanto Shamim quanto Sameson estão de volta em suas comunidades e não ficaram pobres. Isso por si só diz que nem todos [na África] são pobres”, acrescenta Cameron.

A Compassion Experience foi lançada no Reino Unido há dois anos e, de acordo com a instituição de caridade, seu caminhão visitou 31 igrejas e centros urbanos em todo o Reino Unido. Mais de 19 mil pessoas visitaram a exposição, incluindo cerca de 4 mil crianças em idade escolar.

Ainda segundo a instituição, mais de 2 milhões de crianças em todo o mundo são patrocinadas pela caridade.

Sheikh diz ter sido uma delas. “Cresci em um conjunto de favelas na Índia. Para cerca de 10 mil pessoas, havia dois banheiros e ninguém frequentava a escola porque não havia uma.”

Encontrar um patrocinador mudou sua vida, acrescenta.

Mas para Kimeria, o que é realmente necessário está no investimento, e não na caridade.

“Investir na África será o que fará com que a África alcance outro patamar, embora isso pareça incomodar as pessoas. Por alguma razão, os ocidentais estão dispostos a construir uma escola, mas não a investir em uma empresa africana.”

É um debate complicado e que não será resolvido em uma tarde em Birmingham – uma experiência esclarecedora, embora desconfortável, embora talvez não pelas razões pretendidas.


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Escrito por: Naima Mohamud - BBC News

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