Se o ciclone Kenneth tivesse uma cara, seria a da destruição da ilha do Ibo.

O roncar do vento ficou gravado nas chapas retorcidas, palmeiras e casas tombadas que se veem às centenas para quem se aproxima de avião da antiga capital de Cabo Delgado.

Do ar, vê-se que o perímetro de cada aldeia da costa Norte de Moçambique está decalcado, mas sem nada lá dentro, só uma amálgama de pedras, paus, lama, chapas de zinco que brilham ao sol e palmeiras estateladas, tudo pulverizado.

"Perdi a casa, perdi tudo, por isso fiz uma barraca de chapas", dois painéis retorcidos encostados um no outro, são a única coisa garantida de Moaba Abdala e da família, no Ibo.

Com 72 anos, conheceu duas grandes tempestades, mas nunca pensou vir a conhecer a mãe delas: "Essa era ela, muito forte, muito pior. Partiu-me a casa toda".

Moaba Abdala, a vizinha dele, o jovem casal que mora ao lado, os pescadores e todos à volta, perderam as casa de estacas e ‘matope' (barro).

Aliás, nem cimento e alicerces escaparam, como se vê na casa da diretora de serviços públicos, nalguns hotéis, no hospital e na polícia, num roteiro de prejuízos que tocou a todos.

É impossível dar um passo no Ibo sem ver estragos, há 15.000 mil pessoas afetadas e duas pessoas morreram quando as casas desabaram.

A fortaleza de São João Baptista do Ibo, construída por portugueses no século XVIII, escapou incólume e serve agora de centro de acolhimento para 131 desalojados, famílias inteiras, muitas crianças.

Outros dois centros funcionam na ilha e no total devem acolher cerca de 400 pessoas.

As crianças são as únicas que se vê comer fora do horário da refeição e o que têm para matar a fome são papas de farinha de milho.

Cândido Mapute, representante do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), refere que a alimentação está a ser providenciada, depois de as organizações humanitárias terem enfrentado dificuldades por falta de acessos terrestres até ao cais (sete vias foram destruídas pelo ciclone) e por causa de mau tempo para voar.

Uma semana depois, este é primeiro dia em que o sol brilha durante a maior parte do dia, e junto à pista de aterragem do Ibo estão dezenas de caixas de biscoitos energéticos do Programa Alimentar Mundial (PAM), ajuda alimentar para providenciar vitaminas e nutrientes a quem tem passado fome.

Mas há queixas, como refere Emílio Ivo, 49 anos: "A comida é pouca", mas a fome é relativa para quem dá graças por estar vivo.

"O ciclone atirou-me a parede de casa para cima da perna" e aponta para o joelho, que vai levar tempo para sarar.

Da mesma forma, "vai levar tempo a reconstruir o Ibo", refere Cândido Mapute.

Muitos desalojados vão todos os dias às respetivas casas e ‘machambas’ (hortas), olham, remexem nos escombros, tentam encontrar um ponto de partida, mas voltam todos à fortaleza na hora das refeições e para dormir.

Além da alimentação, o tratamento da água é uma prioridade, porque a maioria dos poços do Ibo ficou inquinada, explica Cândido Mapute, enquanto ajuda a montar algumas tendas.

"Estamos a tentar libertar as divisões no interior da fortaleza, em que há muita gente junta", numa altura em que distribuir abrigos também faz parte das prioridades da assistência humanitária.

Nádia Saide, 32 anos, não quer recordar o que se passou, recusa-se a falar da quarta-feira do ciclone, há uma semana.

"Epá, nós estamos mal", diz, e pega em duas peças de roupa.

Há muito trabalho para fazer na fortaleza: parte do pátio está pintado com roupa estendida a secar ao sol, enquanto as crianças varrem do outro lado.

"Não há escola. Saiu a chapa", ou seja, as salas de aula não têm telhado, explicam.

O ciclone Kenneth foi o primeiro a atingir o norte de Moçambique e foi classificado com um grau de destruição de categoria quatro (numa escala de um a cinco, o mais forte).

A tempestade matou 41 pessoas, segundo o levantamento provisório das autoridades, e afetou cerca de 166.000 pessoas.

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