Adjé Mané, professor da escola Bengala Branca, que acolhe crianças de toda a Guiné-Bissau, com problemas visuais e de audição, explicou que com o início da pandemia da COVID-19, “a situação dos dois lares piorou”.

A Agrice, associação guineense de reabilitação e integração dos cegos, conta com um lar de crianças cegas no bairro de Cuntum Madina, onde acolhe 66 crianças, e outro em Bissaguel, onde dá abrigo a 23 crianças, todas em regime de internato.

Nos dois lares estão crianças dos seis meses aos 14 anos, de ambos os sexos e maioritariamente oriundas das comunidades do interior da Guiné-Bissau, onde são ostracizadas por serem portadoras de deficiências visuais e de audição.

O professor Mané referiu que as crianças precisam de alimentação, medicamentos e vestuário, porque com a pandemia provocada pelo novo coronavírus as entidades que apoiavam a Agrice deixaram de o fazer.

“Recebíamos apoios da cooperação portuguesa, mas há já algum tempo que não recebemos nada, também compreendemos que esta situação do coronavírus afetou a toda a gente”, afirmou Adjé Mané.

Algumas crianças até já pediram para serem devolvidas aos familiares, gesto que o professor considerou ser improcedente porque as dificuldades dos pais, nas comunidades, “são ainda maiores ou até piores”.

“Os familiares das crianças não aparecem aqui. Mas também tirar uma criança invisual da sua comunidade para Bissau, isso é um alívio, nunca mais a família quererá saber dessa criança que é um fardo”, frisou Adjé Mané.

Para superar as dificuldades nos dois lares, os monitores das crianças recorrem aos pedidos de favores “aqui e ali”, às vezes arranja-se algo para o pequeno-almoço, às vezes já não se consegue nada para o almoço ou jantar, contou o professor.

Os medicamentos para as crianças eram levantados, fiado, numa farmácia, mas há já algum tempo que o proprietário cancelou o procedimento, alegando dificuldades no negócio, e para piorar a situação Manuel Rodrigues, presidente e benemérito da associação, adoeceu.

“Ele é que é o pilar da nossa instituição e até tirava do próprio bolso, às vezes recorria às pessoas conhecidas”, disse Adjé Mané, que lançou um “grito de socorro às pessoas de boa vontade”.

Além dos dois lares, a Agrice tem a escola Bengala Branca que é frequentada por 566 alunos, que está atualmente parada por ordens do Governo, no âmbito do estado de emergência em vigor no país desde finais de março.

A Guiné-Bissau regista mais de 1.000 casos de infeção pelo novo coronavírus, incluindo seis vítimas mortais e 42 recuperados.

No âmbito do combate à pandemia, o Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, decretou o estado de emergência, até 26 de maio, e o recolher obrigatório entre as 20:00 e as 06:00 no país.

Além daquelas medidas, as pessoas só podem circular entre as 07:00 e as 14:00 locais.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de COVID-19 já provocou mais de 328 mil mortos e infetou mais de cinco milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de 1,8 milhões de doentes foram considerados curados.

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