Desde Alan Shepard, em 1961, todos os astronautas da Nasa receberam um café da manhã meticulosamente preparado antes da decolagem para o espaço.

Todas as refeições anteriores ao voo nas missões Apollo (1961-1972) eram especialmente montadas visando a nutrição, as calorias e, crucialmente, o que os médicos chamam de “baixo resíduo”. Em outras palavras, são dizer refeições com baixo teor de fibras, para que os astronautas não precisassem do banheiro por um bom tempo após a decolagem.

As primeiras missões também limitaram a ingestão de café antes do lançamento, devido às suas propriedades diuréticas. Pilotando o Mercury no primeiro voo de um americano ao espaço, Shepard, por exemplo, sofreu com atrasos na contagem regressiva do lançamento. É que, como a duração de voo planejada era de 15 minutos, os médicos avaliaram que o astronauta conseguiria evitar urinar até voltar à Terra.

“Colocaram Alan Shepard no foguete sem uma maneira de dar vazão (à urina)”, lembra o repórter Jay Barbree, que comentou na época sobre a missão – a primeira vez que um astronauta americano foi enviado ao espaço – no canal televisivo NBC. “Depois de duas horas, ele começou a reclamar e desesperadamente pediu permissão para molhar sua vestimenta – o que finalmente foi concedido.”

Depois, astronautas da missão Apollo passaram a usar dispositivos pessoais de coleta de urina, um pouco parecidos com camisinhas, conectados a um sistema de descarte que ejetava os resíduos a partir da lateral da espaçonave.

Resíduos sólidos por sua vez envolviam o uso de sacos de plástico, e a maioria dos astronautas tentava evitar ir ao banheiro pelo maior tempo possível.

O primeiro a “não aguentar” em uma missão Apollo foi Walt Cunningham, astronauta da Apollo 7, em 1967.

“Foi bem difícil fazer tudo funcionar direito”, ele me contou uma vez. “Você até consegue coletar tudo, mas depois disso você gastava um bom tempo misturando pílulas (germicidas) com o que estava dentro do saco – não era um trabalho prazeiroso.”

As “pílulas” citadas por Cunningham se referem a um germicida que era misturado aos resíduos fecais para evitar que bactérias presentes nestes produzissem gás, que poderia romper os sacos.

Os sacos plásticos fecais tinham bordas adesivas para ajudar na coleta da evacuação. Os papéis sanitários também eram introduzidos no mesmo saco, junto com o germicida. O saco depois era colocado em um compartimento especial para dejetos.

Tripulação da Apollo 11 sentada à mesa, antes de lançamento
A tripulação da Apollo 11 comeu uma refeição com 'baixo teor de resíduos' antes do lançamento créditos: Getty Images

Alimentos em tubos

O primeiro americano a comer uma refeição no espaço foi John Glenn. Durante seu vôo de cinco horas na missão Mercury -Atlas 6, em fevereiro de 1962 (o primeiro voo tripulado na órbita terrestre da Nasa), ele testou um tubo – semelhante a um tubo de pasta de dente – com purê de maçã, provando que as pessoas podiam engolir e digerir os alimentos na ausência de gravidade.

Nas missões Gemini, de tripulações de duas pessoas na década de 60, os astronautas recebiam 2,5 mil calorias por dia. Elas vinham em embalagens plásticas de alimentos liofilizados produzidos pela empresa Whirlpool Corporation. A liofilização envolvia cozinhar os alimentos, congelá-los rapidamente e, em seguida, aquecendo-os lentamente em uma câmara de vácuo para remover os cristais de gelo formados pelo processo de congelamento.

Os astronautas injetavam água através de um bico para reidratar os alimentos e consumiam a espécie de pasta que resultava do processo. As refeições eram mais saborosas do que a comida em tubo provada pelas missões Mercury, e incluíam delícias como carne e molho, mas a água era fria – o que tornava os pratos frequentemente menos apetitosos.

Contrabando de comida para a nave

Na primeira missão Gemini, a Gemini 3 em 1965, John Young criou um pequeno escândalo – e a única mancha em sua carreira exemplar de astronauta – ao contrabandear um sanduíche de carne enlatada a bordo. O que começou como uma piada ameaçou causar um problema sério para a espaçonave, pois havia o temor de que as migalhas interferissem em seus circuitos.

Durante as missões Apollo, quando os astronautas podiam fazer alguns exercícios limitados na cápsula e mover-se na Lua, os nutricionistas da Nasa aumentaram a ingestão diária de calorias para 2,8 mil.

Não só os alimentos eram mais saborosos, como já havia água quente disponível na nave. As refeições não precisavam mais ser sugadas por um canudo, os astronautas podiam até comer algumas delas com uma colher.

Alimentos embalados em plástico
A comida nas missões Apollo era nutritiva - mas não muito apetitosa créditos: Getty Images

As dispensas das espaçonaves ficaram cada vez mais repletas de lanches, apesar das porções serem contadas. Havia, por exemplo, bolachas de queijo, bolos de chocolate e abacaxi e até pacotes de chiclete.

Um jantar típico na Apollo 17 consistia em um prato principal de frango e arroz, seguido por pudim de caramelo e biscoitos.

Para beber, havia café instantâneo, chá, chocolate em pó e limonada.

As missões a partir da Apollo 15 também incluíam as menos atraentes “barras alimentícias categorizadas por nutrientes”. Precursoras das barrinhas nutricionais de hoje, estas eram posicionadas dentro dos capacetes, ao lado da válvula que dispensava água, para que pudessem ser “mordidas” pelos astronautas durante caminhadas na Lua. Isso permitia-lhes ingerir água e comida durantes as suas longas expedições na superfície lunar.

Apesar da variedade e do aumento das calorias na dieta dos astronautas, muitos deles perderam peso durante as missões. Neil Armstrong perdeu 4 kg na Apollo 11; o comandante Jim Lovell perdeu 6 kg na Apollo 13, em parte devido à desidratação decorrente do racionamento de água.

Conforme as décadas foram passando, o cardápio melhorava. Os astronautas de hoje comem uma dieta quase normal, apesar da ausência de frutas e legumes frescos – iguarias que só chegam quando naves de suprimento atracam.

Astronauta finca bandeira dos EUA na Lua
A Nasa calculou que astronautas envolvidos na exploração lunar precisariam de 2.800 calorias por dia créditos: NASA

Ceia de Natal

No Natal de 1968, a tripulação da Apollo 8 cumpria a missão de orbitar a Lua. Na data, os astronautas abriram um pacote surpresa do chefe de operações Deke Slayton. O presente trazia uma ceia completa que nem precisava ser reidratada – com peru, molho de carne e molho de cranberry.

“Era um novo tipo de embalagem de alimentos que não tínhamos experimentado antes”, diz o comandante da missão, Frank Borman. “Tivemos a nossa melhor refeição no voo no dia de Natal – fiquei muito feliz por comer o peru, os molhos e todo o resto”.

Mas Slayton também havia embalado outra surpresa.

“Ele também contrabandeou para nós três doses de conhaque”, diz Borman. “Mas nós não bebemos.”

“Se algo tivesse dado errado, seria culpa do conhaque, então trouxemos para casa”, diz ele. “Não sei o que aconteceu com o meu – provavelmente vale muito dinheiro agora.”

Álcool já foi consumido no espaço – principalmente em pequenas quantidades por cosmonautas russos em suas primeiras estações espaciais. Na Estação Espacial Internacional, entretanto, é proibido. Mesmo uma pequena quantidade pode quebrar o complexo sistema de recuperação de água da estação, que é alimentado com água do suor e da urina dos astronautas.

Astronauta manipula embalagem dentro da nave
Sem acesso a um fogão, água tinha que ser adicionada aos alimentos créditos: NASA/Getty Images

A origem espacial dos micro-ondas

Na longa lista de benefícios para a humanidade que vieram de programas espaciais, os alimentos liofilizados provavelmente teriam pouco destaque. Mas sem a Apollo, os micro-ondas que muitos de nós temos em nossas cozinhas ou as refeições prontas que milhões consomem todos os dias poderiam nunca ter sido desenvolvidos.

É isso mesmo: as missões Apollo contribuíram para a epidemia global de obesidade.

Quando Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins retornaram da Lua e foram resgatados do mar pelo porta-aviões USS Hornet, eles passaram seus primeiros dias em uma unidade especial de quarentena para proteger o mundo de possíveis micróbios lunares. Embora o MQF fosse equipado com cadeiras confortáveis, beliches, um banheiro e chuveiro, o espaço para cozinhar era limitado.

Sem espaço para um forno convencional e para minimizar os perigos do fogo, a Nasa buscou uma solução inovadora.

“Este é o forno de micro-ondas de bancada original, desenvolvido para o programa Apollo”, diz Bob Fish, apontando para o item, preservado em um museu na Califórnia.

“A Nasa foi até a Litton Industries, que desenvolvia fornos de micro-ondas gigantescos, e pediu que eles reduzissem o produto para que coubesse em um lugar como este”, diz Fish. “Então, eles reduziram, mas a primeira vez em que usaram, colocaram ovos, que explodiram. A empresa reduziu o tamanho, mas não tinha reduzido a potência dos aparelhos.”

Após as dificuldades iniciais, o micro-ondas provou ser um grande sucesso, permitindo que os astronautas aquecessem três refeições congeladas por dia. Estas incluíam café da manhã completo, costelas de carne e até mesmo lagosta. Entre os doces, tortas de pecan e de cereja.

Assim que os astronautas foram transportados para Houston e transferidos – mas ainda em quarentena – para o Laboratório de Recepção Lunar, mais comida chegou. Ela estava fresca e foi servida em mesas cobertas com toalhas brancas.


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Escrito por: Richard Hollingham - para a BBC

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