Exército de Terracota
O Exército de Terracota é um dos achados arqueológicos mais importantes da China créditos: BBC

O julgamento do americano acusado de roubar o dedo de um dos guerreiros de Terracota terminou sem punição. A decisão provocou revolta na China, que viu usuários de suas redes sociais vociferarem contra o resultado e autoridades anunciarem que pretendem apurar quem pode ser responsabilizado pelo dano.

Michael Rohana, de 24 anos, confessou ter levado um pedaço de uma das esculturas de terracota que representam os exércitos do imperador chinês Qin Shi Huang e estavam expostas na Filadélfia, em 2017.

O Exército de Terracota foi descoberto na década de 1970 por um grupo de agricultores chineses e é um dos achados arqueológicos mais importantes da China.

Além do valor histórico e cultural, o acervo é valioso. A estátua de 2 mil anos que perdeu o polegar vale cerca de US$ 4,5 milhões (R$ 22,5 milhões) e foi uma das dez emprestadas durante a exposição no Instituto Franklin, de setembro de 2017 a março de 2018, nos EUA, e alvo da ação do americano.

Mas o advogado de Michael Rohana alega que o americano foi indiciado pelo crime errado. Usaram contra ele leis normalmente aplicadas para roubos em grandes museus. Mas, segundo a defesa, ele deveria ter sido acusado de “vandalismo juvenil”.

O julgamento terminou nesta semana com um júri dividido que, por sete votos a cinco, decidiu em favor de cancelar o julgamento contra Michael Rohana por falta de um veredicto.

O que aconteceu no museu?

Em dezembro de 2017, Rohana participava da “festa do suéter feio” no Instituto Franklin quando foi até a exposição dos guerreiros de terracota, que já estava fechada para visitação.

Imagens das câmeras de segurança o flagraram fazendo palhaçadas e tirando selfies com as esculturas, antes de aparecer quebrando algo de uma delas.

Os funcionários do museu só perceberam a ausência do dedo em janeiro e entraram em contato com o FBI, a polícia federal americana. Os policiais conseguiram identificar e rastrear Rohana, que admitiu guardar o polegar da escultura na gaveta de sua escrivaninha.

Ele foi indiciado por dois crimes federais: furto e ocultação de um item classificado como patrimônio cultural.

O julgamento

O julgamento na corte federal na Filadélfia durou cinco dias e, diante do júri, o americano afirmou ter cometido um erro.

“Toda vez que vejo as imagens tento entender o que estava passando pela minha cabeça, no que eu estava pensando”, afirmou. Ele disse que não planejou danificar a escultura. “Não sei porque quebrei o dedo. Nunca foi um pensamento do tipo: devo quebrar isso”.

A defesa de Rohana argumentou que as acusações contra o americano eram muito pesadas. A advogada Catherine Henry disse à corte: “Essas acusações foram feitas para ladrões de arte, algo como o filme Onze Homens e um Segredo ou Missão: Impossível”.

Ela disse ainda que o americano “não estava vestindo roupas de ninja para entrar secretamente no museu”. “Era um garoto bêbado vestindo um suéter de Natal verde e feio”.

Os membros do júri não conseguiram chegar a um veredicto sobre as duas acusações. Até maio, procuradores vão decidir se recorrem para Michael Rohana ser julgado novamente.

A reação da China

Autoridades chinesas querem que Rohana receba uma “punição severa”.

Representantes do centro de intercâmbio das Relíquias Culturais Provinciais de Shaanxi disseram que, em mais de 260 exposições culturais em quatro décadas, nunca havia visto um “incidente tão grave”. Os chineses querem responsabilizar departamentos dos EUA por não terem prevenido o dano.

Chen Lusheng, ex-membro do Museu Nacional da China, disse ser “emocionalmente difícil aceitar tal decisão”. Afirmou ainda que a China estaria investigando a responsabilidade do Instituto Franklin em relação ao acordo para a exposição.

The Franklin Institute with banners for the Terracotta Warriors show
China condenou o vandalismo e autoridades dizem que pretendem investigar quem pode ser responsabilizado pelo dano créditos: Pear Video

Desde a divulgação do resultado do julgamento, milhares de pessoas na China expressaram indignação no microblog chinês Sina Weibo.

“Já que ele não é culpado, eu também posso pegar a tocha da Estátua da Liberdade?”, disse um usuário. Outro foi mais agressivo: “Esses sete jurados são idiotas?” Um outro usuário classificou o episódio de “piada internacional”.

“Esse cachorro americano não se importa, nem compreende as relíquias culturais chinesas”, comentou outro. “Então é assim que se parece a chamada democracia?”, provocou mais um.

Casos de artefatos históricos vandalizados

– Em 2009, a icônica placa Arbeit Macht Frei (o trabalho liberta) exposta sobre um dos portões principais do campo de extermínio nazista de Auschwitz foi roubada por três homens que, mais tarde, foram condenados à prisão. A placa foi recuperada vários dias depois, mas havia sido cortado em três pedaços.

– A Ilha de Páscoa foi alvo de vandalismo em 2008, quando um turista finlandês cortou a orelha de uma das estátuas famosas do local, que é tombado como patrimônio mundial. O alvoroço levou o prefeito da Ilha de Páscoa a dizer na rádio que desejava que o turista também tivesse a própria orelha cortada.

– Um adolescente chinês vandalizou uma obra de arte egípcia no templo de Luxor em 2013, escrevendo “Ding Jinhao esteve aqui”.


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Escrito por: Kerry Allen - BBC News

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