“Nós continuamos a afastar-nos, mas este está quase” a ser destruído pelas ondas, diz, apontando para o recinto da associação de pescadores locais, onde o avanço do mar se mede em linhas de armazéns que vão sendo derrubados como peças de dominó.

Daviro ainda se lembra de ter um armazém no local onde agora é o mar, para lá de uma barra de proteção costeira.

Hoje, quando a maré enche com maior vigor, o mar entra nas casas e armazéns que estão na primeira linha da Praia Nova, o bairro de lata que todos os dias desafia os efeitos das mudanças climáticas.

A zona é classificada pelas autoridades como uma zona de risco, ali não existem apoios à reconstrução e há oferta de terrenos noutros locais para quem queira sair dali - e muitos fizeram-no depois do ciclone Idai.

Ter a casa inundada “já tinha acontecido mais vezes, era normal, mas daquela vez (com o Idai) foi tudo muito terrível”, descreve Joaquim Tom, 32 anos.

Tão terrível e diferente que aceitou a oferta das autoridades e hoje mora com a mulher e seis filhos a 55 quilómetros da Beira, no meio rural, no reassentamento de Mutua.

Mas outros fazem negócio com os terrenos oferecidos e depois voltam à Praia Nova, conta Daviro, testemunha de uma degradação sem fim, que continua um ano após o ciclone Idai.

A Praia Nova é uma zona degrada onde se sente um permanente cheiro nauseabundo, sem condições de salubridade, mas onde continua a haver ruas pejadas de vida: bancas de comércio informal, barracas de restauração, salões de televisão e habitações de família.

Daviro diz que só continua ali pelos armazéns de peixe: ao fim do dia vai para casa, noutro ponto da cidade, mas tem 24 pescadores que dormem nas construções precárias de chapa remendada da Praia Nova.

Apesar de comparar o ciclone Idai “a uma guerra”, Alberto Machava, 78 anos, um dos dirigentes do bairro, argumenta que os pescadores “não querem estar longe do mar”.

E assim parece que não vai ser fácil concretizar o sonho de Daviz Simango, presidente do município da Beira. O autarca quer demolir todo o bairro da Praia Nova e transformá-lo numa zona ribeirinha com qualidade ambiental para permitir o usufruto limpo da paisagem entre a foz do rio Chiveve e o oceano Índico.

“Os moradores vão sair” dali para outras paragens, diz o autarca, que reafirma a ideia de construir 25 mil casas no bairro da Maraza e, assim, pouco a pouco, “descongestionar as zonas informais”, uma missão que gostaria de realizar antes de concluir o seu último mandato (por força da lei) como presidente do município.

Para já, Gina Maurício vai continuar a tirar a água de dentro de casa, todas as vezes em que a maré sobe com mais força, dizendo que ainda aguarda por apoios para poder trocar aquela casa por um local alto e seguro.

“Tenho medo, sim. A maré, quando enche, chega até aqui, entra em casa”, refere, com a filha ao colo.

Maria Sudão, dois meses, cresce na primeira linha de embate com as mudanças climáticas, pelo menos enquanto o mar quiser.

Daviz Simango esclarece que “há cerca de 65 milhões de euros disponíveis”, através de doadores internacionais, para a obra de reposição da proteção costeira em frente à Praia Nova arrancar a meio deste ano.

O período chuvoso de 2018/2019 foi dos mais severos de que há memória em Moçambique: 714 pessoas morreram, incluindo 648 vítimas de dois ciclones (Idai e Kenneth) que se abateram sobre Moçambique.

O ciclone Idai atingiu o cento de Moçambique em março, provocou 603 mortos e a cidade da Beira, uma das principais do país, foi severamente afetada.

O ciclone Kenneth, que se abateu sobre o norte do país em abril, matou 45 pessoas.

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