A solução mais eficaz, frisa a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (a FAO), passa por direccionar o investimento para as zonas rurais e criar políticas que apoiem os pequenos agricultores aí situados, com o objectivo de fazer crescer a actividade agrícola, transformar as comunidades que dela dependem e criar postos de trabalho.

Para a ONU, esta mudança é fundamental para que se cumpra a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada em 2015 pelos líderes mundiais durante uma das suas cimeiras, e que pretende colocar um ponto final na fome e na pobreza.

Contudo, frisa o relatório «O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo», da FAO, os pequenos produtores de alimentos têm pouco ou nenhum acesso aos mercados e a cadeias de produção rentáveis, as quais são dominadas por produtores que operam em larga escala e pelos grandes comerciantes.

Há um bom e urgente motivo para que o paradigma mude, ou seja, para que as regiões rurais adoptem um papel de peso no desenvolvimento económico dos países e na criação de emprego, sem estar sempre a sobrecarregar as zonas urbanas.

Antes de mais, é preciso frisar que desde a década de 1990, e a crer nos dados existentes, “milhões de pessoas saíram da pobreza ao mesmo tempo que permaneciam nas zonas rurais”, menciona o documento da FAO. Em concreto, estima-se que 1,6 mil milhões de habitantes, em todo o mundo e nas últimas décadas, tenham ultrapassado o limiar moderado de pobreza devido ao desenvolvimento económico, com destaque para a transformação das economias assentes na agricultura, na indústria e nos serviços. Deste bolo total, “750 milhões são população rural que continua a viver em zonas rurais”.

Em suma: “O desenvolvimento rural foi e continua a ser chave para acabar com a fome e a pobreza”.

Rega de plantações

Aumento da população jovem desempregada é uma bomba-relógio

Embora as perspectivas de colocar as comunidades rurais acima do limiar da pobreza sejam boas, a verdade é que o rápido crescimento populacional, nomeadamente em África e na Ásia, constitui uma barreira de monta a qualquer mudança estrutural.

A isto junta-se o facto de “as dinâmicas do desenvolvimento industrial na África subsariana e na Ásia Meridional terem sido, no passado, mais lentas do que noutras regiões”, surge mencionado.

Ainda de acordo com o relatório, entre 2015 e 2030 está previsto um enorme aumento populacional da população conjunta de África e Ásia, dos 5,6 mil milhões para os mais de 6,6 mil milhões. Para a África Subsaariana, estima-se que o número de pessoas com idades entre os 15 e os 24 vai crescer mais 90 milhões em 2030, com maior incidência nas áreas rurais.

Isto significa que, nos anos vindouros, este enorme aumento da população jovem vai criar enormes desafios aos Estados, numa luta para fazer baixar a taxa de desemprego. O problema é que, de momento, regista-se um baixo nível de produtividade nos sectores industriais e agrícolas, o que significa que os novos candidatos a um emprego terão dificuldade em encontrar um trabalho.

Consequentemente, explica a FAO, os que migram de zonas rurais para as cidades irão provavelmente contribuir para o aumento da percentagem da população urbana em situação de pobreza. “Depois de deixar as suas pequenas parcelas e colheitas em busca de uma vida melhor na cidade, acabam, com frequência, em trabalhos informais e mal pagos. Não se espera que as suas vidas melhorem significativamente, porque os recursos nas cidades, já sobrepovoadas, sofrem uma pressão ainda maior.”

Plantação

O que fazer?

No entanto, estes países podem empreender uma transformação rural sustentável se mobilizarem os seus sistemas de produção alimentar para dar resposta à crescente procura de alimentos nas áreas urbanas. Esta opção faz sentido à luz dos dias de hoje, onde tudo aponta para que a crescente procura de alimentos nas cidades venha a ser um dos principais propulsores por detrás destas mudanças.

“Esta procura, que está em crescimento, pode impulsionar actividades não agrícolas e relacionas com a agricultura (agro-indústria) e proporcionar novos empregos, particularmente aos jovens”, é apontado. Assim sendo, e para o conseguir, os países africanos têm de diversificar os seus sistemas de produção alimentar e criar novas oportunidades económicas a partir das actividades relacionadas com a exploração agrícola, como as trocas, processamento, embalamento, distribuição e armazenamento de produtos alimentares.

Com estas transformações, espera-se que os pequenos agricultores rurais passem a ganhar mais rendimentos, ao mesmo tempo que surgem novos postos de trabalho, por via da expansão das diferentes actividades que existem ao longo da cadeia de abastecimento alimentar.

Pequenos agricultores têm de ser mais apoiados pelos governos

Contudo, para garantir que os pequenos agricultores conseguem dar resposta à crescente procura de alimentos, tanto nas áreas urbanas como rurais, é necessário introduzir políticas, a nível governamental, que reduzam as barreiras que limitam a entrada destes nos mercados e cadeias de produção.

Além do mais, aponta o texto da FAO, é igualmente importante que as novas políticas “promovam a adopção de abordagens e tecnologias ambientalmente sustentáveis, aumentem o acesso ao crédito e aos mercados, facilitem a mecanização agrícola, revitalizem os sistemas assistidos para desenvolvimento agrícola, fortaleçam os direitos de propriedade, garantam a equidade nos contratos de fornecimento e fortaleçam as organizações de pequenos produtores”.

Assim sendo, "os pequenos agricultores podem necessitar de apoio, de forma a poderem beneficiar em pleno das oportunidades emergentes”, acrescenta a organização ligada à ONU. “A falta de acesso a financiamento, mercados e transporte, bem como as barreiras criadas pelos padrões de qualidade, origem e certificação, dificultam muitas vezes a sua participação em cadeias de produção integradas”.

Agricultores

Cidades e áreas rurais devem estar interligadas, como um só organismo

Entre todos os avisos e recomendações da FAO, salienta-se um outro: “Em muitos países, a presente fragmentação das terras agrícolas pode prejudicar ainda mais a capacidade dos pequenos agricultores em adoptarem novas tecnologias”.

Deste modo, insta-se que seja dado um maior apoio ao “fortalecimento de cooperativas e organizações de agricultores”, ao mesmo tempo que se fomenta o seu acesso a “tecnologias modernas que lhes permitam ampliar o seu alcance e melhorar a sua competitividade”.

Apesar de tudo, e à medida que a crescente procura urbana de alimentos cria uma “oportunidade de ouro" para a agricultura no mundo rural, surgem novos desafios com que os pequenos agricultores devem lidar.

Por exemplo, a conversão de pequenos terrenos agrícolas em propriedades comerciais maiores pode impedir milhões de pequenos agricultores de tirar partido das oportunidades emergentes.

Para garantir que esta transformação beneficia todos, especialmente os mais vulneráveis, os governos e os dirigentes políticos precisam de compreender a necessidade de existir uma interligação socioeconómica entre cidades, vilas e áreas rurais, anuncia a FAO.

“Os sectores urbanos e rurais não são diferentes, antes formando um contínuo desde a capital, e outras grandes cidades, até aos centros regionais maiores, a populações e mercados mais pequenos e, por fim, aos espaços rurais.”

Dito de outra forma, é preciso ver os grandes e pequenos centros urbanos, com as suas zonas rurais circundantes, como um todo, e não de forma compartimentada.

A ênfase não pode estar, somente, nas capitais e grandes cidades, portanto. À medida que a urbanização continua a progredir por todo o continente africano, as áreas rurais e as pequenas cidades surgem como um elemento chave para o crescimento económico. Esta é a ideia principal que os decisores políticos devem ter em mente, para trazerem as mudanças que os habitantes das áreas rurais tanto precisam.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.