Aisec Biquilosse tem uma "suite" no tronco de um embondeiro, onde passa as noites em Bunga, interior de Guro, centro de Moçambique, e de onde, durante o dia, arranca da copa minúsculas folhas e frutos para usar no caril.

No "mbhaco", nome tradicional dado a uma espécie de caverna artificial para abrigo durante os 16 anos da guerra civil em Moçambique, Aisec Biquilosse, 46 anos, sete filhos e quatro esposas, tem hoje um "indispensável refúgio", com a re-edição do conflito, mais de vinte anos depois.

Do largo tronco da árvore, saem as cordas para amarrar a casa, capoeira, curral e celeiro. As cinzas das cordas queimadas empregam-se como soda e, da copa, aproveitam-se as folhas, que cozidas ganham o formato de quiabo, e frutos secos (malambe, em língua local Nhúnguè), cuja farinha serve para fazer papas, e do caroço se extrai uma amêndoa usada no caril.

"No tempo da guerra, essa árvore foi o salvador, e hoje tiro cordas para amarrar a casa, capoeira e outras coisas, além das frutas para nos alimentar", resume à Lusa Aisec Biquilosse, lembrando que os poderes do gigante sagrado foram cruciais para salvar a sua família da morte, em 1977, no raiar da guerra civil.

Cientificamente, o "malambe" é reconhecido com poder curativo, sobretudo em pacientes com diabetes, além de ser afrodisíaco. Actualmente, da fruta produz-se sumos, sorvetes e sobremesas, servidos em importantes banquetes.

Contudo, adverte Aisec Biquilosse, "com a corda do embondeiro não se pode amarrar um cadáver", pois os deuses podem revoltar-se com tribulações e pragas contra a comunidade, que, com adereços e oferendas na base da árvore, no chão, procuram protecção das entidades sobrenaturais.

"O embondeiro é uma árvore sagrada. Tem uma importância insubstituível para a medicina tradicional e curandeiros locais. Não tem árvore igual venerada pelos curandeiros, a não ser o embondeiro", diz à Lusa Vidélia Taimo, uma curandeira da região.

Da árvore, disse, os curandeiros têm um intermediário forte com as entidades sobrenaturais, além de ser vistas como uma salvação para crianças que nascem sub-nutridas, pois "devolve o peso e altura através da papa confecionada para este propósito".

Em declarações à Lusa, Dindichoque Charles, um antigo combatente da guerra civil, lembra que os embondeiros de Bunga "salvaram a maior parte da população", que se refugiou da guerra nas suas ‘cavernas’.

"Entrávamos em cavernas de embondeiros e assim protegíamo-nos da guerra. Os embondeiros eram importantes por causa das cavernas, e ainda por terem frutas e folhas comestíveis, e assim dava para ficarmos longos períodos escondidos", diz Dindichoque Charles.

A re-edição da guerra no centro do país, entre as forças governamentais e homens armados da Renamo, principal partido da oposição, complica a equação de se recorrer de novo às cavernas, pois muitos dos embondeiros caíram de velhos nos últimos anos, segundo Dindichoque Charles.

SAPO com Lusa