Quando Albert Gilmour precisou de sua certidão de nascimento para se casar, sua mãe pereceu relutante em entregá-la. Uma vez em suas mãos, o documento revelou um segredo de família.

Em 1965, aos 21 anos, ele descobriu que sua irmã mais velha era na verdade sua mãe. “Foi algo difícil de digerir”, lembra ele.

Chocado por perceber que fora criado por seus avós, Albert exigiu respostas de Ruby Gilmour, a “irmã” que era sua mãe biológica. Ele perguntou sobre seu pai, cujo nome estava faltando na certidão e ficou ainda mais surpreso com o que ela lhe disse.

Albert recebeu o nome de seu pai, Albert Carlow, um dos 300 mil soldados americanos baseados na Irlanda do Norte durante a Segunda Guerra Mundial.

Certidão de nascimento de Albert Gilmour
Quando Albert precisou de sua certidão de nascimento para se casar, ficou chocado ao ver que seu pai não era identificado créditos: BBC

Ruby tinha 17 anos quando conheceu o jovem militar enquanto ele estava morando perto de sua casa em Eglinton, no Condado de Londonderry.

Eles se separaram em 1944, quando o soldado foi enviado para as praias da Normandia para os desembarques do Dia D. Quando Ruby deu à luz em novembro daquele ano, batizou seu bebê em homenagem a seu pai, que ela acreditava ter morrido em combate.

Após a revelação, Gilmour disse que “deixou essas coisas de lado” por respeito aos seus avós e à sua mãe. Mas, quase 35 anos depois, no final dos anos 1990, sua filha, Karen Cooke, decidiu pesquisar a história de seu pai para fazer uma surpresa para ele.

‘Tudo em você é do seu pai’

Retratos de Albert Carlow e Ruby Gilmour
Albert Carlow e Ruby Gilmour se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial créditos: Albert Gilmour

Desde pequena, Karen sabia que seu avô havia sido um soldado americano. Ela conseguiu encontrar uma das tias de Gilmour usando um endereço que sua avó Ruby havia memorizado 50 anos antes — Carlow o havia escrito na parte de trás de um maço de cigarros e entregue a ela durante a guerra.

“O melhor presente que poderia dar ao meu pai seria conhecer seus outros parentes. Era um pedaço dele que sempre soube que ele tinha, seu lado americano”, diz Karen. Gilmour afirma que foi esta determinação de sua filha que levou a algo que mudaria sua vida.

Retrato de Albert Gilmour
Albert Gilmour descobriu seu passado quando tinha 21 anos créditos: Albert Gilmour

Em um telefonema tarde da noite para sua tia, ele recebeu a notícia de que seu pai havia morrido 20 anos antes. Mas ficou feliz ao saber que sua avó estava viva e que ele tinha dois meio-irmãos.

A tia de Albert se ofereceu para enviar por fax uma fotografia de seu pai. Enquanto a imagem era impressa lentamente na máquina de fax, ele não conseguia acreditar na semelhança entre eles.

Gilmour e Karen foram para os Estados Unidos para conhecer a família. Ele diz ter sido “um sonho que se tornou realidade”. “Simplesmente não parecia real. Eles falavam: ‘Sabemos só de olhar quem você é, tudo em você é do seu pai'”, diz.

Retratos de Albert Carlow e Albert Gilmour
A família de Albert Carlow (esq.) ficou chocada com sua semelhança com Albert Gilmour (dir.) créditos: Albert Gilmour

“Não tive de explicar nada, não tive de provar nada. Todo mundo sabia quem eu era. Eu me senti mais em casa lá do que aqui [na Irlanda do Norte].”

Gilmour teve um encontro bastante emotivo com sua avó antes de viajar para ver o túmulo de seu pai. “Havia neve na lápide, e tive de limpá-la para ver seu nome. Apenas senti como se um peso tivesse sido tirado de mim. Não faltava mais nada. Não precisava mais me preocupar com quem eu era”, conta ele.

‘Tirei parte da sua vida’

Quando voltou para casa, mostrou a Ruby uma fotografia de seu pai. “Ela chorou bastante, foi difícil. Ela me disse que ele era um homem educado e decente, que eles se deram muito bem. Ele ficou com o coração partido por deixá-la, assim como ela. Eles perderam o contato.”

Albert Gilmour com sua avó
Albert conheceu avó Belle Carlow quando ela tinha 90 anos créditos: Albert Gilmour

Gilmour explicou que seu pai não havia retornado como prometido porque havia sido enviado da França para a África, antes de ser levado diretamente para casa no final da guerra. Mas ele havia guardado moedas da Irlanda do Norte por toda a vida.

Albert disse que teve outra conversa emotiva com sua mãe dias antes de ela morrer. “Ela pegou minha mão e disse: ‘Me desculpe, eu sei que tirei parte da sua vida’. Eu disse: ‘Você não tem por que se desculpar’.”

Conforme seu aniversário de 75 anos se aproxima, Gilmour diz que quer contar sua história para outras pessoas. Ele acredita que existem muitos mais “bebês” que foram frutos da guerra como ele.

“Tudo foi mantido em segredo. Ninguém me contou nada. Se você tivesse nascido fora de um casamento, era como se você não existisse. Alguns morreram sem nunca ter a mesma chance que eu [de descobrir seu passado]. Espero que essas histórias não se percam.”


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Escrito por: Ciara Colhoun - Da BBC News na Irlanda do Norte

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