“Disse que um familiar dele mora lá e pediu para comprar a cloroquina aqui em Moçambique, porque a malária é uma doença de África”, contou à Lusa um técnico farmacêutico que optou pelo anonimato.

Mas o pedido deste cliente por aquele antipalúdico em desuso não é caso único, numa altura em que Moçambique regista três casos oficiais de infeção pelo novo coronavírus.

Só na terça-feira, o mesmo técnico disse ter recebido pelo menos três pedidos similares e no dia anterior tinham sido dez.

A súbita procura pelo fármaco está associada às recomendações do Presidente norte-americano, Donald Trump, e do chefe de Estado brasileiro, Jair Bolsonaro para utilização da cloroquina para tratamento da infeção provocada pelo novo coronavírus, dizem.

Há vídeos que se tornaram virais nas redes sociais a promover a substância, o que está a provocar um aumento de procura em vários países, mesmo sem prescrição médica - sendo que na Nigéria já foram reportados casos de sobredosagem.

A Lusa passou por uma dezena de farmácias da cidade de Maputo e todos os responsáveis foram unânimes em dizer que a cloroquina é uma medicação em desuso e que não está disponível em Moçambique.

“As pessoas só a começaram a procurar depois de verem informação no Whatsapp. Ninguém vinha procurar cloroquina até ao surgimento dessa informação”, disse um outro técnico da farmácia que pediu anonimato.

Ele próprio explica a quem procura que não há informação oficial de que a cloroquina sirva para tratar covid-19.

Mas quem pensa que está em causa a sua própria saúde, nem sempre recebe as indicações de forma pacífica: uma terceira técnica de farmácia do centro da cidade diz enfrentar clientes que “chegam a berrar”, de tanta certeza que têm.

Noutros casos, as pessoas apresentam fotos nos respetivos telemóveis, à procura de derivados da cloroquina.

Outra razão com que muitos se justificam é a de constituir 'stock', só para o caso de a covid-19 se alastrar em maiores proporções em Moçambique.

A substância é procurada dentro do mesmo conjunto de prevenção, como as máscaras e gel alcoólico desinfetante.

No início da semana, a mesma técnica disse ter assistido a uma conversa em que um cliente recomendava a outro que se dirigisse a uma farmácia na baixa da cidade, que supostamente venderia cloroquina.

“Se eu soubesse que outra farmácia tem, teria de questionar, mas sei que não há", acrescenta, baseada em informação dos canais de fornecimento.

"E se for oficial o uso [para travar a covid-19] é preciso saber a dose. Se eu tivesse, não vendia, sem prescrição médica”, disse uma outra técnica.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 400 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram cerca de 18.000.

O continente africano registou 58 mortes devido ao novo coronavírus, aproximando-se dos 2.000 casos em 45 países e territórios, segundo as estatísticas mais recentes.

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