Dálio S. Massingue mudou-se da província de Inhambane, em Moçambique, para Blida, na Argélia, há cinco anos. Foi com uma bolsa do governo moçambicano que concluiu a licenciatura em Língua Francesa. E o primeiro ano de mestrado tem sido atípico.

O estudante vive no terceiro país africano mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, o segundo com o maior número de mortes. Nesta quinta-feira, a Argélia registava 7.542 casos e 568 mortes. À frente está apenas a África do Sul, com 18.003 infetados, e o Egito com 14.229 casos registados.

Os dados são do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana e é precisamente a preocupação com os números difundidos pelos meios de comunicação que tem trazido algum "trauma" aos estudantes da região.

Massingue sabe do que fala. É Presidente da Comunidade dos Estudantes Estrangeiros Africanos de Blida (CEEAB), responsável por cerca de 500 estudantes.

"Eu digo trauma porque cada vez que nós ficamos isolados nos quartos e vendo a televisão, ou seja noticiário nesse caso, e pelas redes sociais, que a Argélia teve mais 100 casos, mais 90 casos. Isso, de certa forma, cria-nos aquele medo," relata.

Proibidos de sair das residências

O medo entra em combustão com o isolamento. Há quase dois meses que Dálio S. Massingue está confinado à residência onde vive.

"No dia 12 de março, as aulas foram interrompidas em todo o país. Duas semanas mais tarde, proibiram a saída das residências universitárias", para evitar a contaminação pela COVID-19, conta.

Nas entradas das residências, onde diz estarem "todos os estudantes estrangeiros", há agentes de segurança da escola a controlar as passagens.

85 dos estudantes da CEEAB são lusófonos. 37 de Moçambique, 32 de Angola, 14 da Guiné-Bissau e dois de Cabo Verde. Massingue admite que há alguns estudantes que têm tido o desejo de voltar para casa, mas acredita estar seguro na Argélia. Frisa que "nenhum estudante estrangeiro da cidade de Blida" foi contaminado pelo novo coronavírus.

"Ter que pegar um voo para Moçambique, ter contacto com outras pessoas, chegar no aeroporto, também pegar contacto com outras pessoas, pode ser um risco. É difícil sim, porque estamos longe da família. Mas acho que estamos seguros aqui," avalia.

Como presidente da CEEAB, Massingue tem recebido contactos da direção provincial dos assuntos universitários e de diversas embaixadas que pretendem saber a situação dos estudantes e o que podem fazer para melhorar.

"A Embaixada de Moçambique deixou claro que não tem, por enquanto, nenhum plano de repatriamento de estudantes moçambicanos para Moçambique", revela.

Epicentro da pandemia

Blida é o epicentro da infeção na Argélia, o segundo país a registar a existência da Covid-19 no continente africano, e é por isso que as restrições são tão rígidas.

Há recolher obrigatório em todo o território, mas os horários são mais alargados na região de Blida.

Noutras cidades da Argélia, os estudantes podem sair das residências e estão livres para circular, não em Blida. A circulação de transportes públicos continua suspensa, por exemplo.

Mas Massingue não se queixa. Dentro das circunstâncias diz que "estamos a ter tudo o que nós queremos".

Explica que os estudantes estrangeiros estão em cerca de seis das pouco mais de doze residências existentes na cidade.

"Em cada residência onde tem estudantes estrangeiros tem uma viatura para se por acaso precisar sair para comprar material higiénico, para pagar internet, eles disponibilizam a viatura para poder se deslocar à cidade, o que já é muito bom para nós", considera.

As compras de todos os que precisam são feitas por um ou dois estudantes, acompanhados por um motoristas e um agente de segurança. Mas o processo é burocrático explica Yuran Santos, responsável pela comunidade estrangeira de uma das residências.

"Tem um processo todo e agora a circulação já está um pouco à vontade. Mas antes, nas semanas passadas, havia polícias e militares por todas as ruas e sempre precisavas de uma autorização. E essa autorização algumas vezes era fornecida pela administração que fazia o documento. Então, tudo isso levava algum tempo," descreve.

Natural da cidade do Mindelo na ilha de São Vicente em Cabo Verde, Santos está há cinco anos em Blida a tentar cumprir o "sonho" de ser médico. Quando acabou o secundário, a Argélia foi a "primeira porta que se abriu". Fez um primeiro ano na cidade de Annaba, onde estudou a língua francesa de forma intensiva. No ano seguinte, começou a estudar medicina em Blida.

Diz que os médicos "têm feito muito" relativamente às medidas preventivas à Covid-19 e que a sua residência tem um médico.

"Vem frequentemente procurar saber como está a higiene na residência e outros detalhes. E, ao mesmo tempo, os diretores das residências têm feito de tudo para nos fornecer alimentos de base e produtos de higiene, fazendo com que não tenhamos falta de nada realmente", garante.

Cesta básica

Neste período de confinamento, o governo argelino tem garantido uma cesta básica nas residências universitárias. Semanalmente, trazem frutas e legumes e a cada 15 dias trazem produtos não perecíveis - como arroz, batata, ovos, atum, tomate industrializado, sal e açúcar. O objetivo é que os estudantes cozinhem nos quartos, visto que os funcionários das cozinhas dos restaurantes das residências foram dispensados.

"Tem sido o suficiente para comer, não temos do que reclamar. Podem não dar aquela comida que nós desejamos por causa de serem culturas diferentes, entende-se. Porém, eles fazem o esforço necessário para podermos nos sustentar", conta Massingue.

Na África do Sul, por exemplo, há relatos de desvio de ajudas alimentares em tempos de coronavírus. Esse problema não assola a mente destes estudantes.

O presidente da CEEAB conta que este não é caso único de Blida. "Em quase todas as cidades, o Governo tem dado sustento aos estudantes universitários que estão confinados nas residências universitárias", diz Massingue.

No entanto, o ramadão alterou um pouco este procedimento, relata o cabo-verdiano Yuran Santos. "Durante o ramadão, pararam de nos fornecer os alimentos crus, começaram a cozinhar para todas as residências. Começaram a cozinhar numa única residência e depois fizeram a distribuição. Penso que logo depois do ramadão farão a mesma coisa. Vão começar a nos dar provisões", pondera.

À DW, Dálio S. Massingue, enaltece a ajuda do governo argelino e também das associações que fazem "o que podem". No entanto, alerta que os estudantes têm falta de dinheiro porque não existe permissão total para frequentar bancos.

"Muitos dos estudantes estrangeiros aqui recebem o seu dinheiro em divisa. O que quer dizer que têm que ir ao banco levantar dinheiro e procurar onde trocar. Tendo em conta que o país está em confinamento, é um pouco complicado achar o local para poder trocar o dinheiro em moeda local e poder usá-lo," relata.

Aulas retomam em setembro

Yuran Santos tem tido aulas online numa plataforma desenvolvida pelo Governo, como a "maior parte dos estudantes", indica. Teve informação de que as aulas presenciais serão retomadas em setembro e o novo ano letivo em novembro, apesar de os professores continuarem com os programas online.

"Então, teremos a partir de agora mais três ou quatro meses para ficar em casa sem fazer nada na residência. Não sabemos se as portas da residência serão abertas brevemente," desabafa.

Santos diz que a situação "é delicada porque estamos trancados, mas sabemos que é para o nosso bem. E temos tentado praticar desporto para tentar ocupar o tempo" e gastar o excesso de energia.

"Hoje em dia, só se acorda e o dia não tem um plano", conclui.

Autor: Marta Cardoso

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