Novas medidas de prevenção ao novo coronavírus entram em vigor em Portugal a partir desta terça-feira (15.09), ao abrigo do plano de contingência para conter a propagação do novo coronavírus. Lisboa e Vale do Tejo registam maior aumento de infetados.

Em declarações à agência de notícias Lusa na semana passada, o Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, disse que o primeiro-ministro português, António Costa, estava preocupado com as movimentações de cidadãos guineenses pela Europa a contribuir para a importação da doença de outros países. Mas guineenses ouvidos pela DW África contestam estas declarações.

Uso de máscaras

Quem passeia por lugares públicos nas redondezas do Centro Comercial Babilónia, na Amadora, ou visita o centro de Lisboa, perto do Teatro Nacional Dona Maria II, certamente encontra sentados agrupamentos de cidadãos guineenses - na sua maioria sem máscaras.

É com silêncio que muitos reagem quando questionados por que não usam este elemento de proteção e de prevenção contra o coronavírus. Há quem justifique o comportamento com o modo de ser e de estar de cada povo.

"Os países, as pessoas e as culturas são diferentes", diz à DW África um cidadão guineense residente no concelho de Odivelas, que não quis se identificar. Mas ele confirma que, na sua área de residência, não se tem registado casos de incumprimento das regras de distanciamento e de uso das máscaras.

"Respeita-se mais ou menos, até então. O respeito [às regras] a 100% a gente não consegue fazer. Pelo que eu vejo em Odivelas, para mim está normal. Não vejo pessoas a desrespeitarem as leis de saúde. Por isso é que nesse local não há aquele fluxo de contaminação. Ouvi dizer que na Linha de Sintra há quem não respeite. E aí há mais contaminação", conta.

Declarações do Presidente

Na semana passada, de acordo com a agência de notícias portuguesa Lusa, o Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, disse ser "uma vergonha" o comportamento de "alguns guineenses" na Europa, nomeadamente em Portugal, devido à Covid-19.

Em declarações no aeroporto de Bissau, o chefe de Estado fez alusão ao pedido do primeiro-ministro português, António Costa, para que falasse com a comunidade guineense "que estaria a importar o coronavírus".

Guineenses abordados pela DW África, entre os quais o cidadão que pediu anonimato, não quiseram comentar as afirmações de Umaro Sissoco Embaló: "Não me posso debruçar sobre isso, porque na política, em todas as partes do mundo, há disso".

No entanto, os guineenses do Vale de Chicharros, mais conhecido por Bairro da Jamaika, não se reveem nas afirmações do Presidente guineense.

"Estão a cumprir as regras"

Salimo Mendes, que integra a estrutura da futura Associação de Solidariedade Guineense do concelho do Seixal, assegura que as pessoas, no geral, estão a cumprir as regras.

"Acho que aqui na zona sul nós não temos esse problema. Desde 13 de março, até hoje, a população de Jamaika está a seguir as regras. Isso não é tão preocupante aqui. Muitos cafés estão a respeitar as regras. Nos dias normais de trabalho havia aglomeração de pessoas. Mas, neste momento, isso já não se regista. E acho que é muito importante para nós, porque a saúde é essencial", explica.

Braima Sanu, residente no bairro do Vale da Amoreira - também na margem sul do Tejo, onde vive uma importante comunidade guineense - diz que as pessoas, em casa e na rua, têm seguido as orientações do Ministério da Saúde.

Ele também desvaloriza as declarações do Presidente da Guiné-Bissau. "Para mim, não corresponde à verdade. Os [guineenses] na Europa estão a seguir os conselhos. Os que estão a vir de lá para cá não sei. Se estão a vir, não somos culpados. É o próprio Estado de Portugal que lhes deixam entrar", diz.

Nuno Miguel Cavaco, presidente da Junta de Freguesia da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira, no concelho da Moita, também na Margem Sul do rio Tejo, louva o comportamento da população local, incluindo a africana.

"Há comportamentos de risco em algumas comunidade e [são] pontuais. Mas a ideia que eu tenho, do que me é dado a conhecer, é que é muito difícil pessoas perderem a sua cultura. E é complicado para um africano não estar com outras pessoas", explica.

"É assim que é a cultura africana, [assim] como os alentejanos. Todos cumprem e os guineenses também. Nós temos muitos casos de pessoas que apanham [coronavírus] a trabalhar, não em festas", acrescenta.

O primeiro-ministro português, António Costa, avisou há dias, já antes da apresentação de tais medidas de prevenção, que se todos cumprirem as regras será possível controlar o aumento exponencial da pandemia.

"Isso é fundamental para que não haja sobrecarga dos serviços de saúde e para que esses continuem a responder às necessidades", defendeu Costa.

por: João Carlos (Lisboa)

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.