Para os católicos, eles são exemplos de vida e, na hora da oração, muitas vezes caminhos para que as preces cheguem a Deus. Com imagens, folhetinhos, promessas, rezas específicas e romarias, os santos são uma das facetas mais populares daIgreja Católica.

Contudo, o processo para reconhecer um novo santo – ou seja, canonizar alguém – é complexo e longo. E, atualmente, muito rigoroso.

“A santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo: é redescobrir-se em comunhão com Deus, na plenitude da sua vida e do seu amor”, afirmou o papa Francisco em audiência geral ocorrida em 2014. “Então, compreende-se que a santidade não é uma prerrogativa só de alguns: é um dom oferecido a todos, sem excluir ninguém e por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão.”

O Brasil demorou para ganhar um santo de casa. A primeira foi Santa Paulina – cujo nome de batismo era Amabile Lucia Visintainer (1865-1942).

Ela nasceu na Itália, mas ficou conhecida no Brasil, onde viveu em Santa Catarina e São Paulo. Foi canonizada pelo papa João Paulo 2º (1920-2005) em 2002. Cinco anos mais tarde, Bento 16 canonizou o frade franciscano Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), conhecido como Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil.

Imagem de Frei Galvão
Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil, foi canonizado por Bento 16 créditos: Mosteiro da Luz de São Paulo

Papa Francisco declarou santos o jesuíta José de Anchieta (1534-1597), nascido nas Ilhas Canárias e considerado um dos fundadores da cidade de São Paulo; Roque Gonzáles (1576-1628), Alfonso Rodriguez (1598-1628) e Juan de Castillo (1595-1628), os mártires do Rio Grande do Sul; e André de Soveral (1572-1645) e 29 companheiros, considerados os protomártires do Brasil.

Na última quarta-feira, dia 14, o Vaticano anunciou que será declarada santa a religiosa baiana Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992), mais conhecida como Irmã Dulce – ela será, assim, a 37ª santa brasileira.

Processo ficou mais rigoroso

Ao longo da história, a Igreja Católica aprimorou o processo de reconhecimento de um santo. Em 1180, o papa Alexandre 3º (1100-1181), disse que não era permitido “venerar ninguém como santo, sem a expressa autorização da Igreja de Roma”.

“No primeiro milênio, não era tão rigoroso quanto hoje. A canonização tornou-se reservada ao papa apenas em 1234, com Gregório 9º [(1145-1241)]”, conta à BBC News Brasil o frade Reginaldo Roberto Luiz, padre que trabalha com causas de canonização em Roma. “Antes bispos também canonizavam.”

A normativa atual para a canonização data de 1983 e foi decretada por João Paulo 2º. Salvo raras exceções, ela exige a comprovação de dois milagres para que alguém seja reconhecido oficialmente como santo.

No caso da Irmã Dulce, por exemplo, o segundo milagre teria sido a cura de um homem cego, cuja identidade ainda não foi divulgada pelo Vaticano.

Irmã Dulce
Nascida em Salvador, irmã Dulce foi beatificada em 2011 e será proclamada santa pelo Vaticano créditos: Osid

“O milagre foi completo, duradouro e imediato, sem sequela nenhuma, porque Deus não faz pela metade. E é algo que não pode ser explicado pela ciência”, explica Luiz.

“No caso dela, quando o caso chegou a Roma, foi analisado por uma banca de sete médicos e nove teólogos. Posteriormente, foi submetido a uma sessão de cardeais e bispos.”

O sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que todos “os batizados fazem parte do ‘povo santo’, pois santo (sagrado) é aquele que pertence a Deus”.

“Todos os que morrem em estado de graça – isso é, que não têm grandes pecados – entram na comunhão dos santos. A canonização é um processo no qual é reconhecido que uma pessoa, mediante feitos reconhecidos, pertence a essa comunhão”, explica Ribeiro Neto.

Imagem de Santo Antônio no Sri Lanka
Santo Antônio de Pádua foi canonizado menos de um ano depois de sua morte créditos: AFP/Getty

“Ainda que as obras em vida sejam analisadas para que a pessoa entre num processo de canonização, são seus feitos ‘após a morte’ – os milagres que acontecem por sua intercessão – que fazem com que seja reconhecido como santo”, prossegue o sociólogo.

“A lógica é simples: se está perto de Deus, tem mais condições de interceder junto a Ele do que aqueles que estão afastados.”

Grande estudioso das canonizações, o religioso gaúcho Antônio Cecchin (1927-2016) deixou diversos escritos sobre o tema.

“A Igreja Católica, desde as suas origens, sensível aos desejos e iniciativas do povo fiel, eleva à honra a dos altares (processo de canonização), pessoas que se distinguiram em vida pela heroicidade de suas virtudes, particularmente a caridade, ou então pessoas que, num ato de amor supremo a Cristo e a seus irmãos, sofreram voluntariamente o martírio”, definiu ele.

Como se ‘faz’ um santo

Cecchin afirmou que a canonização é um processo importante para os vivos – e não para os santos.

“O objetivo final da canonização não são os servos de Deus falecidos, mas somente os fiéis, isto é os vivos. São estes os destinatários e os beneficiários dela. Os santos não têm necessidade de ser declarados tais, aliás a canonização, para eles, não acrescenta absolutamente nada. São os fiéis, os necessitados de que a Igreja continue propondo continuamente novos modelos de santidade, capazes de ajudá-los a interpretar, em qualquer condição de vida, a mensagem evangélica”, escreveu ele, em texto revisto e ampliado pelo teólogo Fernando Altemeyer Júnior, chefe do departamento de Ciência da Religião da PUC-SP.

“Os santos não têm somente a função de servir de incentivo, de estímulo para os fiéis; contribuem também para fortalecer e acrescentar a união existente entre a Igreja dos falecidos (chamada de triunfante) e a Igreja peregrinante deste mundo. São uma expressão dessa mística união, uma manifestação viva da vitalidade da Igreja, um sinal da ação santificadora do Espírito.”

Atualmente, quem cuida do processo é um órgão do Vaticano chamado de Congregação para a Causa dos Santos.

Basílica de São Pedro, no Vaticano, onde está o túmulo de São Pedro
A Congregação para a Causa dos Santos do Vaticano cuida do processo créditos: Edison Veiga

“Qualquer pessoa, confraria, associação, diocese ou comunidade pode requerer a abertura de um processo de beatificação. Porém para encaminhar corretamente esse requerimento, deve recorrer a um mandatário, normalmente um eclesiástico, que não faça parte da Congregação para a Causa dos Santos”, pontuou Cecchin.

“Esse mandatário, que leva o nome de postulador, é a peça-chave da beatificação. Deve possuir, além de talentos espirituais e intelectuais, três qualidades práticas: um profundo conhecimento da Cúria romana, a arte de reunir fundos, uma extrema tenacidade. Na falta disso, o processo arrisca dormir pelas gavetas num torpor de difícil despertar.”

Três requisitos são necessários para a homologação da candidatura: a fama de santidade, o exercício das virtudes cristãs e a ausência de obstáculos insuperáveis contra a canonização.

O aval apara o início do processo de reconhecimento da santidade vem do Vaticano. “Quando alguém morre com fama de santidade ou de milagre, faz-se um estudo inicial em torno da vida dessa pessoa. Geralmente são figuras que têm o túmulo muito visitado e acabam veneradas informalmente pelas pessoas”, comenta o canonista Reginaldo Roberto Luiz. “Para começar a causa o bispo local remete ao Vaticano um documento de cerca de duas páginas.”

Trata-se de uma breve apresentação do candidato e um pedido de abertura do processo. “Então, depoimentos e investigações começam. No caso da Irmã Dulce, um tribunal ouviu 40 depoimentos, entre leigos e religiosos”, completa. “Enquanto isso, uma comissão histórica se encarrega de recolher todos os documentos relativos à vida dessa pessoa.”

Papa Francisco no Vaticano
Papa Francisco: 'A santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo' créditos: EPA

Um dos processos brasileiros “abertos” no Vaticano é o do jesuíta João Batista Reus (1868-1947). Conforme escreveu Cecchin, para atestar sua “fama de santidade”, foram ouvidas 70 pessoas “das mais diversas categorias sociais”.

“Uma única dessas pessoas foi interrogada pelo tribunal durante mais de 15 horas”, registrou o estudioso.

Os candidatos a santo também têm todos os seus escritos analisados. “O tribunal deve reunir, revisar e estudar (…) tudo o que saiu de sua caneta, lápis ou máquina de escrever, escrito, impresso, publicado ou inédito, incluídas [anotações] particulares e principalmente as cartas, os jornais íntimos, as notas pessoais, agendas…”, enumerou Cecchin. Ele exemplificou com o caso do padre francês Charles de Foucauld (1858-1916), hoje reconhecido como beato pela Igreja.

“[Dele] foram recolhidos três metros cúbicos de papéis diversos: o eremita escrevia, sem parar, durante horas, com tinta violeta, menos cara que a preta, para assim poder dar mais esmolas.”

Terminada essa etapa, se o bispo julgar que o caso merece seguir adiante, todo o processo é encaminhado a Roma com o pedido de beatificação.

Santa Rosa do Viterbo, em Viterbo, Itália
Santa Rosa (1233-1251), cujo corpo mumificado fica exposto em igreja na cidade italiana de Viterbo, não teve o processo de canonização concluído créditos: Mariana Veiga

“A Congregação Romana para a Causa dos Santos, de posse de todos esses dossiês, não raro compostos de várias caixas, dará prosseguimento imediato? Não é bem assim. Se há um lugar em que ‘pressa é sinônimo de imperfeição’ é bem na cúria romana”, analisou Cecchin.

Dois religiosos – que juram segredo e não se conhecem entre si – são nomeados para ler todo o dossiê e darem seu parecer. Se suas conclusões forem discrepantes, um terceiro leitor é nomeado.

O processo ou é arquivado ou segue adiante – no caso, se os pareceres forem favoráveis.

O Vaticano nomeia cinco sacerdotes para seguir adiante nos trabalhos. “Este tribunal será assistido por um notário e, para o exame dos milagres, de um ou de vários peritos locais, médicos ou cirurgiões, designados especialmente para isso”, afirmou o estudioso. “Finalmente, o tribunal será provido de um ministério público, sob a forma de dois promotores-adjuntos e devidamente munidos de interrogatórios aos quais deverão submeter as testemunhas.”

O processo costuma ser longo. “É rigorosíssimo, passa por diversas comissões – que produzem relatórios que costumam passar de 2 mil páginas”, afirma Luiz. Quando o primeiro milagre é reconhecido pela Igreja, a personalidade passa a ser reconhecida como beata – ou bem-aventurada. Sua veneração passa a ser permitida. Só com o segundo milagre, a canonização ocorre.

Os casos que fogem da regra

Mas há casos que fogem da regra, seja em tempos antigos, seja em tempos atuais. Santo Antônio de Pádua (1195-1231), por exemplo, foi canonizado menos de um ano depois de sua morte – um recorde jamais superado.

Mesmo assim, o processo de sua canonização analisou 53 milagres a ele atribuídos. “Coisa admirável!”, pontuou o religioso Hugo Röwer (1877-1958), conhecido como Frei Basílio, no livro ‘Santo Antônio: Vida, Milagres, Culto’. “Não sabemos se já se viu coisa igual de outro santo em tão pouco tempo depois da morte.”

José de Anchieta, por sua vez, parece ser a materialização da crença popular de que “santo de casa não faz milagre”. Depois de o processo de sua canonização estar há mais de três décadas esperando a ocorrência de um milagre, o papa Francisco decidiu reconhecer sua santidade “por decreto” – dispensando a formalidade. Assim, o jesuíta tornou-se santo em 2014.

Igreja no Sri Lanka depois de ataques
'Santidade não é sinônimo de perfeição', diz o sociólogo Ribeiro Neto créditos: EPA

Figuras controversas também já foram canonizadas pela Igreja. Em 1297, o papa Bonifácio 8º (1235-1303) canonizou Luís 9º (1214-1270), rei da França. O monarca, tido como católico fervoroso, perseguiu e discriminou judeus e foi tão intolerante nas regras dos ditos bons costumes, que até o papa Clemente 4º (1190-1268) afirmou que era melhor atenuá-las. Combateu nas Cruzadas.

“Santidade não é sinônimo de perfeição. Assim, muitos santos realizaram atos em vida que hoje não seriam considerados bons em nossa cultura, como incentivar as Cruzadas”, comenta o sociólogo Ribeiro Neto.

“Em parte, isso se deve à distância histórica, que nos faz olhar a conjuntura do passado com outros olhos. Em parte, isso se deve a uma ideia de coerência moral que, na verdade, não é cristã. O santo não é santo porque é bom. O santo é bom porque é santo. Não é a coerência moral que o faz santo, mas sim a intimidade com Deus. Depois, se supõe que os íntimos a Deus terão uma conduta melhor do que os demais, mas isso não acontecerá em todos os momentos da vida. Poderemos sempre encontrar erros e pecados na biografia dos santos. O importante é que esses erros e pecados não representam a última palavra.”

E há também os santos que não tiveram o processo de canonização concluído. Como Santa Rosa (1233-1251), cujo corpo mumificado fica exposto em igreja na cidade de Viterbo, a 80 km de Roma.

É um caso de canonização equipolente, ou seja, reconhecido pela Igreja sem que todo o protocolo formal tenha sido seguido.

No caso dela, os trâmites se iniciaram no ano seguinte à sua morte, pelo papa Inocência 4ª (1195-1254). Entre idas e vindas, o processo foi analisado durante os pontificados de Alexandre 4º (1199-1261), Eugênio 4º (1383-1431) e Calisto 3º (1378-1458). Este último teria deferido os documentos mas morreu antes de promulgar o decreto de canonização – e tal oficialização acabou nunca sendo feita.

Até mesmo São Pedro (1 a.C. – 67 d.C.), considerado o primeiro papa do catolicismo, nunca foi canonizado.

“O culto aos santos nasceu espontaneamente já no começo da Igreja, na época das perseguições. Quando um cristão acabava de ser supliciado, os irmãos se esforçavam para ter ao alcance das mãos os restos mortais. Davam-lhe sepultura condigna e – sobre esta sepultura, erguiam um oratório em que vinham pedir a intercessão do mártir e onde os sacerdotes celebravam. O mais célebre desses oratórios é a Confissão de São Pedro, no Vaticano”, contextualizou Cecchi.

“Nem se preocupavam em conseguir a aprovação para tal culto. Os bispos, testemunhas diretas do martírio, eram os primeiros a participar.”


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Escrito por: Edison Veiga - De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

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