Uma das estratégias mais bem-sucedidas da seleção de futebol feminino dos EUA para vencer a Copa do Mundo de 2019, em julho passado, foi além dos gramados e do treinamento tradicional: a equipe técnica monitorou os ciclos mentruais das jogadoras, adaptando a eles a carga de treino, a dieta e o controle de sintomas.

“Acho que foi uma das iniciativas que nos ajudaram a ganhar”, afirmou a técnica Dawn Scott ao programa de TV americano Good Morning America.

Para muitos, já era tempo para que essa estratégia ganhasse força no esporte feminino.

Diversas atletas de ponta já se queixaram sobre o impacto da menstruação em seus treinos e sua performance.

A tenista britânica Heather Watson, por exemplo, atribuiu sua derrota na primeira rodada do Aberto da Austrália de 2015 a sintomas de seu ciclo menstrual, incluindo tontura e náuseas. A corredora olímpica Eilish McColgan também afirmou, no ano passado, que o mal-estar causado pela menstruação contribuiu para que ela acabasse lesionando seu tendão.

Para atletas olímpicas brasileiras, foi criada na Olimpíada de Londres, em 2012, uma iniciativa que as ajudava a controlar os sintomas da tensão pré-menstrual e da menstruação, como cólicas, dores e sangramento excessivo, com acompanhamento médico e técnicas que incluíam o controle hormonal. Essa assistência ginecológica prosseguiu em 2016.

Pesquisas de 2016 apontam que mais da metade das atletas mulheres de elite dizem que flutuações hormonais durante o ciclo menstrual atrapalham seu desempenho.

Heather Watson
Heather Watson atribuiu sua derrota no Aberto da Austrália em 2015 a dificuldades relacionadas ao ciclo menstrual créditos: Reuters

Aplicativos

Ainda assim, muitas mulheres ainda têm dificuldades ou vergonha em falar sobre o assunto com suas equipes técnicas.

Agora, há aplicativos que as ajudam a contornar essas dificuldades coletando dados privados das mulheres.

A empresa FitBit, por exemplo, lançou no ano passado um “monitor de saúde feminina” (disponível em português), no qual usuárias anotam as datas da menstruação e os sintomas. “Ao colocar todas as suas informações de saúde e preparo físico em um único espaço e analisar suas tendências de ciclo (hormonal) ao longo do tempo, é possível entender melhor as conexões entre atividade física, sono e sintomas ligados à menstruação”, afirma Jennifer Mellor, engenheira da FitBit.

“Todo mundo é diferente no que diz respeito a rendimento físico. Os níveis de energia podem variar durante o ciclo feminino ou podem se manter altos ao longo de todo o mês. Com um monitoramento, usuárias conseguem notar sinais mais claros e personalizados (que as ajudem a) aumentar ou diminuir a intensidade (dos exercícios).”

Outro aplicativo, Clue (disponível em português), também permite o acompanhamento de exercícios e níveis de energia ao longo de seus ciclos.

“Ao colocar seus dados de modo consistente no app, usuárias conseguem entender melhor como seu treinamento pode variar em diferentes momentos do ciclo e se ajustar”, explica Ida Tin, responsável pelo Clue. “Por exemplo, elas podem perceber que alguns dias de altos níveis de energia são melhores para treino de força; e que em outros, em que seu nível de energia está menor que o normal, é melhor se alongar e fazer atividades mais leves.”

O aplicativo FitrWoman vai além ao disponibilizar informações de atletas de elite. Ele foi criado pela corredora e pesquisadora Georgie Bruinvels e pela desenvolvedora de produtos Grainne Conefrey.

O aplicativo também monitora a menstruação, sintomas e atividades físicas, com informações sobre nutrição e fisiologia durante cada fase do ciclo e explicações sobre eventuais mudanças no corpo.

O aplicativo é usado por atletas de elite, e a própria Bruinvels trabalhou com equipes femininas como as de futebol e natação dos EUA.

FitR Woman app
FitrWoman usa informações de atletas de elite para ajudar demais mulheres créditos: Fitr Woman

“Há tempos que o ciclo menstrual é visto como uma barreira ao treino e à performance”, diz Richard Burden, médico fisiologista do Instituto Inglês de Esporte (EIS, na sigla em inglês), que atualmente promove uma campanha voltada à saúde de atletas femininas.

“Mas se você usar isso a seu favor, há potencial para que as flutuações homonais sirvam para treinamentos mais específicos e precisos, em vez de simplesmente deixar de treinar.”

As flutuações causadas pelo ciclo hormonal podem afetar diversas funções fisiológicas e psicológicas, desde a forma como mulheres se movem e se adaptam ao treinamento, até o modo como elas pensam e se sentem. Assim, o entendimento desses processos em cada atleta ajuda técnicos a otimizar as cargas de treino.

O técnico Jamie Main, que treina uma equipe de natação na Inglaterra, usa há cinco meses um app voltado para treinadores, da desenvolvedora Orreco. O aplicativo compartilha o perfil de atletas (com a permissão delas) para que Main monitore a saúde delas e planeje seu treinamento.

“Logo de cara, o aplicativo normalizou as conversas que eu tenho com as atletas”, diz ele. “Isso rompeu um falso tabu em torno do assunto. Pudemos ser mais proativos em adaptar sessões de alta intensidade que não se encaixassem no ciclo de cada uma. Há também momentos em um ciclo em que há chances maiores de lesões – ter mais conhecimento disso nos ajudou a intensificar o trabalho de recuperação e de aquecimento.”

Mia Slevin com o técnico Jamie Main
Mia Slevin com o técnico Jamie Main; informações coletadas os ajudam a melhorar a eficiência nos treinos créditos: Jamie Main

O app mostra ainda os momentos do ciclo em que o treinamento das atletas pode ser intensificado.

Para a nadadora britânica Mia Slevin, o aplicativo “me diz quais alimentos são importantes de comer em determinados momentos. Se eu não monitorasse meu ciclo, não saberia disso”.

Por exemplo, há momentos no ciclo em que os níveis de açúcar no sangue da atleta podem estar mais instáveis. O FitrWoman vai, então, recomendar que a atleta inclua proteínas em sua alimentação e faça lanches que incluam carboidratos complexos.

A corredora de média e longa distâncias britânica Emelia Górecka diz que o aplicativo a ajudou a monitorar ciclos de alta perda sanguínea e a adaptar sua carga de treinos a eles.

Emelia Gorecka
Emelia Górecka explica que entender seu ciclo a ajudou a contornar problemas de sono créditos: Getty Images

“Depois de alguns meses, comecei a notar padrões e a relacionar meus sintomas a diferentes aspectos do meu treinamento. O aplicativo me dá dicas e informações sobre as quatro fases do meu ciclo. Por exemplo, meu sono se torna muito tumultuado na quarta fase do meu ciclo, então é algo a que eu tenho que prestar atenção.” Para driblar isso, ela passou a comer alimentos ricos em melatonina – como banana – antes de ir dormir.

Embora seja necessário realizar mais pesquisas científicas sobre o tema, o impacto sobre essa tecnologia em mulheres que se exercitam já é notado.

“A tecnologia vai ter um grande papel em nos permitir customizar o treinamento para cada indivíduo e para se chegar à diferença de 0,5% a 1% na performance, que é a diferença entre conseguir ou não a medalha de ouro”, diz o médico Richard Burden.


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Escrito por: Nicola K. Smith - Da BBC News

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