Salomão Elias, 64 anos, faz a travessia entre Maputo e Katembe há mais de uma década para vender temperos alimentares produzidos na sua horta, única base de sustento para a família de cinco pessoas.

O seu destino é sempre o mercado central, na capital moçambicana, ponto de encontro com a clientela.

Destino que era difícil de alcançar: a travessia sempre foi um calvário, através do 'ferryboat', que não partia sem estar cheio, chegando a levar duas horas num percurso de 1,2 quilómetros.

O pequeno agricultor recorda-se que chegava a acordar às 05:00 e só conseguia chegar ao centro de Maputo pelas 09:00.

Hoje, com a nova ponte, Salomão Elias só precisa de 10 minutos para fazer a travessia.

A via terrestre “é muito mais segura” quando comparada com a marítima, em que, por vezes, os passageiros partilhavam o mesmo espaço com viaturas e outro de tipos de mercadoria.

Não muito longe da horta de Elias Salomão, Rosita José, estudante do 10º ano, de escolaridade, prepara-se, “sem muita pressa”, para ir renovar a matrícula na Escola Josina Machel.

O tempo agora não é motivo de preocupação porque sabe que “a travessia é muito mais flexível”.

“A ponte foi um bom desenvolvimento para nós. O ‘ferryboat’ saía-nos mais caro e, por vezes, não podíamos atravessar, porque havia mau tempo”, observa a estudante.

Rosita chegava a perder as últimas aulas do curso nocturno, porque o ‘ferryboat’ já não circulava depois das 22:00.

“Muita gente pode agora fazer o seu trabalho sem problemas”, acrescentou a estudante.

Se, para a maioria, a ponte é motivo de alegria, há quem a veja como um problema.

No terminal da travessia marítima, do lado de Maputo, João Mafunga, fiscal de uma das empresas que tem pequenas embarcações que fazem a travessia, fala da crise causada pela nova ponte sobre a baía de Maputo.

Agora, é muito curta a fila que tem pela frente para lhe comprar bilhete e que se mantém fiel ao transporte marítimo.

“O ‘ferry’, por exemplo, acabou parando. Nós [pequenas empresas com embarcações que fazem a travessia] estamos a tentar continuar, mas o fluxo do pessoal está muito em baixo”, lamenta o fiscal.

João Mafunga acrescenta que a direcção da empresa, que opera três embarcações, admite demitir pessoal devido à falta de passageiros.

“Está a ser uma batalha”, acrescenta.

Quem também se sente lesado é o vendedor ambulante Carlos Salvador, que entende que a infraestrutura deveria ser acompanhada por mercados, como forma de albergar os que faziam os seus negócios junto aos passageiros - mas que hoje não se podem aproximar da ponte, com acesso interdito a peões.

“A ponte é bem-vinda, mas já não há negócio para nós. Não há praças nem mercados. Agora as pessoas apenas passam por aqui e, porque o transporte está fácil, vão comprar na cidade”, disse o comerciante, que vendia no terminal do ‘ferryboat’ do lado de Maputo - e que agora se mudou para Katembe.

A ponte trouxe uma esperança no desenvolvimento da margem sul.

“A ponte trouxe-nos maior prestígio. Katembe, hoje, está a virar uma cidade. Para nós, que conhecemos este lugar há anos, podemos ver com clareza a mudança”, observa o pequeno agricultor, que viveu a vida toda na margem sul da baía.

A China não fez a coisa por menos: entre Maputo e Katembe ergue-se a maior ponte suspensa de África, a infraestrutura estatal mais cara depois da independência de Moçambique - uma forma de afirmação do investimento chinês no país, que a financiou e construiu como um empreendimento "chave na mão".

Com um vão de 700 metros e duas rampas com pouco mais de dois quilómetros cada, a construção envolveu 3.800 operários locais e 450 trabalhadores chineses, bem como 50 engenheiros e consultores de países como Alemanha, Inglaterra, Rússia e Grécia.

O financiamento de 785 milhões de dólares (cerca de 687 milhões de euros) que a China aplicou confirma o papel central do gigante asiático como o maior financiador de infraestruturas em Moçambique após a independência, no seguimento de outros empreendimentos de grande envergadura no país africano.

Com dinheiro chinês, o país passou a contar com novas sedes da Assembleia da República, Procuradoria-Geral da República, Tribunal Administrativo, ministérios, Estádio Nacional do Zimpeto, entre outros empreendimentos.

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