Manifestando “muitas dúvidas” sobre quem está, de facto, envolvido nos ataques, o investigador da Queen’s University de Belfast (Irlanda) considerou que o problema é sobretudo local.

“Parte dos insurgentes poderão ter uma agenda religiosa, mas não é semelhante ligadoaao Al-Shabab [grupo terrorista islâmico que atua sobretudo no sul da Somália] ou ao Estado Islâmico. Ninguém sabe ao certo se há ligações com um ‘jihadismo’ que vem da costa do norte de África ou de outro lado ou se é um levantamento popular. O próprio governo tem declarações contraditórias sobre o assunto e referiu que estamos que estamos a assistir a problemas de criminalidade. Os atacantes também não fazem declarações públicas”, comentou o académico.

Para Eric Morier-Genoud poderá estar em causa um movimento de revolta popular que ganhou “dinâmica” após o ataque inicial de uma “seita” islâmica radical a Mocímboa da Praia, em outubro de 2017, em que morreram dois polícias e 14 atacantes.

“Sabemos o que aconteceu em Mocímboa da Praia, uma seita foi reprimida e atacou a cidade. Este foi o primeiro ato publico com uma agenda religiosa, mas a seguir a situação evoluiu, é muito possível que essa seita tenha começado um movimento associado a outras dinâmicas”, declarou o especialista em História de África e mundo lusófono, à margem da conferência Missionação e Poder Colonial em Angola e Moçambique no século XX que decorre hoje em Lisboa.

Descrevendo os ataques como “uma estratégia típica de guerrilha”, Eric Morier-Genoud considerou que o governo deve desenvolver uma “estratégia anti-guerrilha” para combater os insurgentes, ao contrário da resposta “puramente policial e militar” que deu, enviando “tropas insuficientemente preparadas” que já suscitaram denúncias de abusos por parte de Organizações Não Governamentais.

O investigador apontou a “insatisfação” da população como uma das causas do desenvolvimento da insurreição, assim como problemas de terras e tensões sociais na zona.

Em Cabo Delgado, “a população vive na pobreza, sobretudo nas áreas rurais, e esta pobreza cresceu nos últimos anos”, em simultâneo com a desilusão face às expectativas de desenvolvimento económico criadas pelo Governo devido à exploração de gás natural no território.

A onda de violência no norte do país ganhou projeção mediática após o ataque de Mocímboa da Praia e desde então foram noticiados dezenas de ataques que provocaram a morte a cerca de 100 pessoas, de acordo com números oficiais.