"Já era muito tarde para uma cirurgia", conta Edwin Lusichi, chefe da equipa de guardas do orfanato para elefantes do Fundo Sheldrick para a Fauna Selvagem (SWT) de Nairobi, no Quénia, onde Luggard encontrou refúgio e está a recuperar das suas feridas.

A cria de elefante, que atualmente tem três anos, ainda coxeia devido à deficiência na sua pata direita, mas isso não a impede de correr com entusiasmo todas as manhãs, com outros vinte companheiros órfãos, quando chega a hora de ir comer.

Os pequenos elefantes apressam-se para os biberons gigantes, os quais contém uma mistura de leite em pó para humanos, água e vitaminas, uma receita desenvolvida pelo centro para substituir o leite materno.

Cada um dos elefantes do orfanato tem uma história única. "Quando os acolhemos, alguns tinham apenas alguns dias de vida", conta Kirsty Smith, administradora do SWT.

Larro, de 10 meses, é a elefanta mais jovem do centro. Quando a encontraram deambulava sozinha pela reserva de Masai Mara, aparentemente após um violento confronto entre a sua família e moradores da região.

"Às vezes, os elefantes entram nas propriedades, nas herdades. As pessoas batem neles para espantá-los e, durante o confronto, [os bebés] acabam separados das suas famílias", explica Lusichi.

O problema é que os filhotes de elefante não podem sobreviver sem as suas mães. O desmame acontece entre os 5 e os 10 anos, e só se tornam adultos aos 18.

Enkesha ia ficando sem trompa. Uma sentença de morte

Em média, um elefante pode viver até os 70 anos, mais muitos morrem de forma prematura. Segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a cada ano, em África, cerca de 20 mil elefantes são mortos, principalmente por caçadores que ambicionam as suas valiosas presas em marfim.

Yasuyoshi CHIBA / AFP

O comércio ilegal de marfim é dinamizado pela procura que vem da Ásia e Médio Oriente, onde ainda é usado na chamada ‘medicina tradicional’ e para ornamentação estética.

"Matam um elefante apenas pelas suas presas!", indigna-se Lusichi, ao contar a história de Enkesha, de dois anos. "Veja a sua trompa... Estava presa numa armadilha", explica, indicando que a cria quase perdeu esse membro, essencial para que possam comunicar, respirar e levar comida e água à boca.

Agora, após uma longa reeducação, a jovem paquiderme já consegue usar a sua trompa, que tem uma impressionante cicatriz, quase normalmente

Os elefantes podem ficar até aos três anos no orfanato, onde são alimentados a cada três horas e dormem em cercas individuais, cada um acompanhado por um guarda. "É como passar a noite no quarto com um bebé humano", explica um dos guardas, Julius Shivegha, de 43 anos. "Devemos garantir que estão vem cobertos", finaliza.

Durante o dia, cabe a eles acompanhar os jovens elefantes em passeios pela savana e preparar um banho de lama. E sim, estes pequenos elefante qual adoram fazer bolhas com suas trompas nestes banhos.

Mimos e futebol

"Às vezes brincamos ao futebol com eles", adianta Shivegha. "Por vezes fazemos-lhes um mimo. Alguns tentam sempre pegar nas nossas mãos ou usar os nossos dedos como chupeta. Tudo isso nos aproxima muito deles [...] somos como as suas mães".

Yasuyoshi CHIBA / AFP

Ao sair do orfanato, a maioria dos elefantes vai para um dos três centros de reintegração situados no parque nacional de Tsavo (sudeste do Quénia), onde passam vários anos a habituar-se a viver sem depender dos humanos, até serem capazes de se juntar a uma manada.

Para os elefantes com uma deficiência, como Luggard, o DSWT criou um santuário na floresta de Kibwezi, perto do parque de Tsavo, longe de residências humanas e onde a água e os alimentos são abundantes durante todo o ano.

Em 42 anos de existência, o SWT recebeu 230 elefantes, sendo que mais de 120 vivem agora em liberdade e já tiveram cerca de 30 filhotes, garante Kirsty Smith, a administradora do SWT.

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