A cineasta britânica-ganense Amma Asante se deparou, por acaso, com uma fotografia antiga, tirada na Alemanha nazista, de uma garota negra vestindo uniforme escolar. Diferentemente das colegas brancas que encaram a câmera, ela desvia o olhar.

A foto despertou a curiosidade de Asante, que quis saber mais sobre a garota.

A imagem a levou a escrever e dirigir o longa Where Hands Touch (Onde Mãos Tocam, em tradução livre), estrelado por Amandla Stenberg (Mentes Sombrias) e George MacKay (Capitão Fantástico), que está chegando aos cinemas na Europa.

O filme é um relato imaginário do relacionamento secreto de uma adolescente mestiça com um membro da Juventude Hitlerista, mas é baseado em registros históricos.

Durante o regime nazista, de 1933 a 1945, o número de alemães com origem africana vivendo no país chegou à casa dos milhares.

Ao longo do tempo, eles foram proibidos de se relacionar com pessoas brancas e impedidos de ter acesso a educação e a alguns tipos de trabalho. Alguns chegaram a ser esterilizados; outros foram levados a campos de concentração.

‘Descrença e desconsideração’

A história desses alemães negros ou mestiços ainda é pouco conhecida. Asante levou quase 12 anos trabalhando no filme.

“Há uma espécie de descrença, de desconfiança e questionamento, uma tendência a dar pouca importância às vidas difíceis que essas pessoas levaram”, disse ela à BBC, ao comentar a reação que observou de algumas pessoas quando falava sobre sua pesquisa para o filme.

Amandla Stenberg
A atriz Amandla Stenberg interpreta Leyna no filme 'Where Hands Touch' créditos: Spirit Entertainment

A comunidade africana-alemã tem suas origens no curto período do Império Colonial Alemão que, entre 1883 e 1919, administrou territórios em diferentes continentes. Marinheiros, funcionários, estudantes ou pessoas do mundo do entretenimento de regiões que hoje constituem países como Camarões, Togo, Tanzânia, Ruanda, Burundi e Namíbia foram parar na Alemanha.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou em 1914, essa população que antes era transitória se assentou na Alemanha, segundo o historiador Robbie Aitken. E alguns soldados africanos que lutaram pela Alemanha na guerra também se instalaram no país europeu.

Mas foi um segundo grupo cuja presença acabou alimentando o temor dos nazistas relacionado à miscigenação.

Como parte do tratado assinado depois da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, as tropas francesas ocuparam a Renânia, no oeste da Alemanha. Para policiar essa área, a França usou pelo menos 20 mil soldados do seu império na África, principalmente do norte e oeste do continente africano. Alguns deles acabaram tendo relacionamentos com mulheres alemãs.

Caricaturas racistas

O termo pejorativo “bastardos da Renânia” foi cunhado na década de 1920 para se referir às cerca de 800 crianças mestiças, filhas de alemãs com os soldados de origem africana.

O termo estava diretamente ligado ao temor que muitos tinham da miscigenação, de por em risco a “pureza” da raça alemã. Histórias inventadas e caricaturas racistas de soldados africanos como predadores sexuais circulavam na época, alimentando o medo e o ódio ao “estranho”.

recorte do jornal
Manchete do jornal Frankfurter Volksblatt em 1936: "600 bastardos" créditos: Robbie Aitken

Enquanto o antissemitismo ocupava um lugar de destaque no coração da ideologia nazista, o livro Mein Kampf, ou “Minha Luta”, do líder do Partido Nazista Adolf Hitler, trazia uma linha ligando judeus a negros.

“Foram e são os judeus que estão trazendo os negros à Renânia sempre com os mesmos pensamentos secretos e objetivo claro de arruinar a odiada raça branca pela resultante ‘bastardização'”, escreveu Hitler na obra publicada em 1925 com suas ideias e crenças.

Uma vez no poder, a obsessão nazista com os judeus e a purificação da raça levou, gradualmente, ao Holocausto e ao extermínio de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, além do extermínio de ciganos, de pessoas com deficiências e de algumas etnias eslavas.

O historiador Robbie Aitken, que pesquisa a vida dos alemães negros, diz que esse grupo também foi perseguido, ainda que não da mesma forma sistemática dedicada à perseguição de judeus, por exemplo.

Aitken diz que os negros acabaram sendo assimilados pela “radicalização da política racial” dos nazistas.

‘Me senti meio-humano’

Em 1935, foram aprovadas as Leis de Nuremberg (legislação antissemita promulgada pelo regime nazista) que proibiam, por exemplo, casamento entre alemães e judeus. Emendas estenderam a proibição, colocando negros e ciganos na mesma categoria dos judeus.

O medo da miscigenação persistiu e, em 1937, crianças mestiças da Renânia foram submetidas à esterilização forçada.

Heinrich Himmler
Em 1943, Heinrich Himmler queria um censo para contabilizar quantos negros e mestiços moravam na Alemanha créditos: Getty Images

Estima-se que pelo menos 385 pessoas foram esterilizadas. Hans Hauck, filho de um soldado argelino e de uma alemã branca, é um deles. Ele deu um depoimento ao documentário Hitler’s Forgotten Victims (As Vítimas Esquecidas de Hitler) de 1997.

Ele contou como foi levado, em segredo, para fazer uma vasectomia. Ganhou um certificado de esterilização que o permitia trabalhar. Hauck precisou também assinar um acordo declarando que não se casaria ou teria relações com pessoas “de sangue alemão”.

“Era deprimente e opressivo”, disse aos documentaristas. “Me sentia meio-humano”, completou.

Outra vítima, Thomas Holzhauser, também declarou no documentário: “Às vezes, fico feliz por não ter tido filhos. Pelo menos os poupei da vergonha de viverem comigo”.

Foram muito poucas as pessoas que falaram sobre sua experiência enquanto estavam vivas e “não houve muita tentativa de revelar o que eventualmente aconteceu com a maioria delas”, diz o historiador, que é um dos poucos acadêmicos que se dedicaram ao tema.

“Vale a pena lembrar de que os nazistas também destruíram, de propósito, muitos documentos pertencentes aos campos e relacionados à esterilização, dificultando reconstruir o que aconteceu com grupos e indivíduos”, explica Robbie Aitken.

Acredita-se que o homem à direita nesta foto do campo de concentração de Dachau seja Jean Voste, nascido no Congo, que foi o único prisioneiro negro no campo. Cortesia de Frank Manucci.
Jean Voste (direita), teria nascido na colônia belga no Congo e seria o único prisioneiro negro do campo de concentração de Dachau créditos: Museu do Holocausto dos EUA

A cineasta Amma Asante, que também escreveu e dirigiu Belle (2013) e A United Kingdom (2016, lançado no Brasil sob o título Um Reino Unido), diz que muitas dessas pessoas sofreram crises de identidade. Eles tinham mães alemãs, se viam como alemães, mas foram isolados, jamais abraçados de forma plena pela sociedade alemã.

“As crianças estavam habitando dois lugares ao mesmo tempo. Dentro e fora”, disse Asante.

Ainda que submetidos a experiências diferentes, negros e mestiços foram perseguidos na Alemanha comandada pelos nazistas.

A Alemanha da era colonial, especialmente a tentativa de genocídio dos povos herero e nama na Namíbia, já tinha reforçado uma visão negativa dos africanos na Alemanha.

Depois que Hitler assumiu o poder, negros passaram a ser assediados, humilhados em público, impedidos de trabalhar em certos empregos e de estudar.

Houve, contudo, alguma resistência. O mestiço Hilarius Gilges era um agitador comunista e antinazista. Ele foi sequestrado e assassinado em 1933.

Quando a Segunda Guerra começou, em 1939, negros e mestiços passaram a se precaver mais porque poderiam ser levados à esterilização ou prisão, ou até ser assassinados.

Tentando ser invisível

Era isso o que temia Theodor Wonja Michael. Filho de um camaronês e de uma alemã, ele nasceu em Berlim em 1925. Numa entrevista à rede alemã Deutsche Welle, em 1997, ele contou que cresceu aparecendo em exibições etnográficas itinerantes .

“Com grandes saias, bateria, dança e música – a ideia era que as pessoas se apresentassem como atrações de um mundo distante exótico”, disse ele. “Basicamente, era apenas um grande show.”

Quando os nazistas assumiram o poder, Wonja Michael sabia que tinha que ser “invisível”, passar o mais despercebido possível, especialmente quando era adolescente. “Claro que com um rosto como o meu jamais poderia desaparecer completamente, mas tentei”.

Ele conta que evitava qualquer tipo de contato com mulheres brancas. “Teria sido horrível, teria sido esterilizado e também poderia ter sido acusado de contaminação racial”, disse Wonja Michael à Deutsche Welle.

Amma Asante
A cineasta britânica Amma Asante, de 49 anos, tem origem ganesa, e demorou 12 anos para levar aos cinemas a história dos negros na Alemanha nazista créditos: PA

Em 1942, Heinrich Himmler, considerado um dos arquitetos do Holocausto, determinou que fosse feito um estudo estatístico dos negros vivendo na Alemanha. Isso poderia indicar o início de um possível plano de extermínio – que nunca foi executado.

Há indício de que cerca de 20 negros alemães foram parar em campos de concentração na Alemanha.

“Pessoas simplesmente desapareceriam e não se sabe o que aconteceu com elas”, afirmou Elizabeth Morton no documentário Hitler’s Forgotten Victims. Os pais dela comandavam um grupo de entretenimento africano.

No filme Where Hands Touch, a cineasta britânica tenta jogar luz nessas histórias. Amma Asante, de 49 anos, tem origem ganense e diz sentir que o papel e a presença de pessoas da diáspora africana na Europa são sempre deixados de fora da história.

Ela afirma que o filme dela fará com que seja difícil negar que negros sofreram nas mãos dos nazistas. “Acho que tem muita ignorância e atualmente se subestima muito o que essas pessoas passaram”, diz Asante.

Where Hands Touch está sendo exibido nos cinemas no Reino Unido e também pode ser visto em serviços de streaming.


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Escrito por: Damian Zane - BBC News

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