"Deixamos a América com a sensação de missão cumprida. Avanços importantes alcançados na área económica, da segurança e política externa, bem como a consolidação de um novo caminho de forte amizade entre Brasil e Estados Unidos. Vamos cooperar para o bem dos nossos povos", escreveu no Twitter Bolsonaro, antes de regressar a Brasília.

Este entusiasmo é perfilhado, nas redes sociais, pelo professor e especialista em relações internacionais Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Brasil.

"É o maior pacote de concessões já dado por um presidente americano a um colega brasileiro nos últimos trinta anos de democracia. Vitória enorme para Bolsonaro. E cheia de repercussões para as relações do Brasil com a China e com o resto da América do Sul", escreveu no Twitter.

Quando questionado, por um outro utilizador do Twitter, sobre quais as concessões, Spektor esclareceu: "OCDE, principal aliado extra-NATO, [base de lançamento de satélites de] Alcântara, Projeção de uma identidade comum (fé, família e nação)".

Para outros especialistas, no entanto, o Brasil cedeu em aspetos concretos e, em troca, recebeu meras promessas, além de comprar possíveis e desnecessárias inimizades diplomáticas.

Uma aliança diplomática de alto-risco para o Brasil

O Brasil, que já é um dos países que mais pressiona o regime socialista venezuelano, pode tornar-se um "aliado prioritário [dos Estados Unidos] fora da NATO", refere um comunicado de imprensa emitido em conjunto pelos dois países, no final da visita.

Pelo meio, os Estados Unidos também se ofereceram para apoiar a candidatura do Brasil à OCDE, o chamado ‘clube dos países ricos’, mas sob a condição de que renuncie ao estatuto de país emergente nas negociações que decorrem na Organização Mundial do Comércio (OMC).

E é aqui que podem surgir duas consequências de alto-risco, salienta o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Ricupero. Ser um "aliado prioritário" de Washington, diz o diplomata, significa "comprar a agenda de segurança dos Estados Unidos: contenção da China, hostilidade à Rússia, hostilidade ao Irão e combate permanente contra o terrorismo fundamentalista islâmico".

Pontos que "pouco ou nada tem a ver com os interesses do Brasil" e que poderão resultar numa  séria limitação da sua política externa", diz Ricupero, que também foi secretário-geral do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

A renúncia a um tratamento diferenciado no seio da OMC pode ser, por sua vez, "um desastre, pois teria efeitos muito negativos em termos de tarifas [aduaneiras] e afastaria o Brasil dos países em desenvolvimento, com os quais sempre conduzimos uma política comum", alerta.

O Brasil também anunciou, durante a visita, a eliminação da exigência de vistos para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália, mas sem reciprocidade.

Em suma: o governo de Bolsonaro ficou-se por meras concessões e "só recebeu algumas promessas", afirma David Fleischer, politólogo norte-americano da Universidade de Brasília (UnB). Segundo o mesmo, estas promessas dificilmente serão cumpridas, porque Washington tem uma política externa muito independente", definida por Trump como "primeiro os Estados Unidos".

Peregrinação à extrema-direita

Bolsonaro colocou uma forte ênfase na agenda ultraconservadora que perfilha com Trump, baseada em valores familiares e religiosos. Para Ruben Ricupero, foi "mais uma peregrinação religiosa às fontes da extrema-direita americana" do que de uma visita oficial.

Por sua vez, Rubens Figueiredo, cientista político da Universidade de São Paulo (USP), considera que a ida a Washington "foi um ponto de inflexão nas relações de Brasil com os Estados Unidos, depois dos governos do PT”, diz. “O Brasil está a abrir a sua economia a um importante parceiro comercial", destaca.

"Foi uma visita positiva, mas não ideal” remata. “Por exemplo, os Estados Unidos não retiraram os vistos para os cidadãos brasileiros […] mas agora teremos acesso a nova tecnologia", acrescentou, referindo-se ao acordo da base de Alcântara, um importante centro de testes para o lançamento de foguetões espaciais, esperando-se, de futuro, que comecem mesmo a ser enviados para o espaço a partir daí.

Memes e mitos

Outros anúncios: o Brasil comprará, todos os anos, 750 mil toneladas de trigo dos EUA, isentas de tarifas aduaneiras, enquanto os Estados Unidos farão uma visita técnica para uma eventual retoma da importação de carne brasileira, suspensa desde 2017. Mais: os dois países apoiaram a criação de um fundo de 100 milhões de dólares para atrair "investimentos sustentáveis na região amazónica".

As redes sociais agitaram-se com comentários e memes, com uma ‘guerra’ a ser travada entre os que denunciaram uma atitude supostamente servil do líder brasileiro, em relação a Donald Trump, e os seus ferverosos partidários.

Um meme, com a hashtag #BolsonaroEnvergonhaOBrasil, chega mesmo a mostrar Bolsonaro sob a forma de uma pequeno cão de Trump, nos jardins da Casa Branca, enquanto que outro, com a hashtag #BolsonaroOrgulhodoBrasil, ilustra o encontro com um abraço entre dois heróis de um videojogo.

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