"A Andarko representava uma oportunidade fantástica para a Chevron, mas não era crucial para o seu portefólio", disse Greig Aitken, numa nota enviada aos clientes, e a que a Lusa teve acesso.

"A Chevron tinha margem para aumentar a sua proposta sem destruir valor, e no setor do petróleo e gás, isso já é um feito para qualquer comprador, mas parece que a petrolífera não estava contente com a redução dos proveitos; a guerra de licitação em que se viu envolvida foi inesperada, e evaporou a oportunidade de criação de valor, que motivou a oferta inicial", acrescentou o analista.

Assim, concluiu, "a desistência envia uma forte mensagem, muito positiva, sobre a disciplina financeira" por parte da Chevron, que "já tem um perfil de crescimento invejável entre as principais companhias petrolíferas".

Sobre a Occidental, que irá comprar uma posição dominante na Anadarko e vender os ativos africanos, incluindo a exploração de gás em Moçambique, à francesa Total, o negócio pode levar a "um período de introspeção" devido à pressão financeira que o acordo traz.

"O facto de o acordo ser demasiado caro para a Chevron pode levantar algumas preocupações sobre a capacidade da Occidental para criar valor", disse Greig Aitken, salientando que "ninguém quer um comprador com remorsos num negócio de 55 mil milhões de dólares", dos quais 38 mil milhões são pagos em dinheiro.

Por isso, concluiu, é possível "que haja críticas durante a Assembleia Geral por parte de alguns investidores", já que "a pressão sobre as contas e o financiamento caro é agora uma realidade para a Occidental, que terá de avançar rapidamente no plano de desinvestimento e integrar o negócio da Anadarko".

Na quinta-feira, a Chevron anunciou que desistiu de comprar a Anadarko, o que deixou o caminho aberto para a Occidental ver a sua proposta de 38 mil milhões de dólares (33,7 mil milhões de euros) ser aceite pelos acionistas da Anadarko, que verão a sua empresa duplicar a produção diária de barris, para 1,3 milhões, a par de países como Angola ou a Líbia.

Desde o início do 'leilão' entre a Occidental e a Chevron pelo controlo da Anadarko que a Occidental, liderada por Vicky Hollub, era vista como a empresa mais frágil, nomeadamente em termos de robustez financeira.

A entrada de Warren Buffett em cena, aportando 10 mil milhões de dólares (8,8 mil milhões de euros) à petrolífera, e o anúncio do acordo com a Total para a venda de todos os ativos da Andarko em África, para além do aumento da remuneração dos acionistas, aumentando a entrega em dinheiro de 50% para 78% do total do acordo, terão sido decisivos para o recuo da Chevron, no seguimento das declarações da direção da Anadarko a favor da Occidental.

O consórcio vai produzir GNL na Área 1 da Bacia do Rovuma dentro de cinco anos, naquele que será o primeiro projeto de GNL 'onshore' em Moçambique, disse o presidente da Anadarko esta semana, na qual anunciou também que a transferência dos ativos para a Total vai acontecer no segundo semestre.

O grupo de empresas vai explorar o gás natural encontrado nas profundezas da crosta terrestre, sob o fundo do mar, a 16 quilómetros ao largo da província de Cabo Delgado.

Depois de extraído, através de furos, o gás será encaminhado por tubagens para a zona industrial a construir em terra, na península de Afungi, onde será transformado em líquido e conduzido para navios cargueiros com contentores especiais para exportação.

O plano prevê duas linhas de liquefação, instaladas em terra, e com capacidade anual de produção de 12 milhões de toneladas por ano de gás natural líquido.

Além da Anadarko, que lidera o consórcio com 26,5%, o grupo que explora a Área 1 é constituído pela japonesa Mitsui (20%), a indiana ONGC (16%), a petrolífera estatal moçambicana ENH (15%), cabendo participações menores a outras duas companhias indianas, Oil India Limited (4%) e Bharat Petro Resources (10%), e à tailandesa PTTEP (8,5%).

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