"Os portugueses falam muito dos moçambicanos e os moçambicanos falam muito dos portugueses, mas aquele diálogo [mais próximo] entre os dois, nem sempre existe", ao trabalharem juntos em solo moçambicano, referiu Lisa Åkesson, professora catedrática em Antropologia na Universidade de Gotemburgo, Suécia.

Lisa Åkesson e Inês Macamo Raimundo, professora em Geografia Humana na Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, estão a desenvolver uma investigação intitulada "Migrantes portugueses em Moçambique - pós-colonialismo e troca de conhecimentos", com o apoio do Conselho de Pesquisa da Suécia (Swedish Research Council, agência governamental).

As investigadoras apresentaram hoje, numa conferência organizada pela Associação Portuguesa (AP) de Moçambique, os resultados preliminares de 66 entrevistas em contexto laboral feitas desde 2018, 36 com moçambicanos e 29 com portugueses, e que fazem parte do trabalho mais vasto que ainda vai decorrer até 2021.

"Há uma certa familiaridade entre portugueses e moçambicanos, diferente das relações com outros estrangeiros", mas cada qual tem "muitas reclamações sobre o outro", notaram as duas professoras, acrescentando que "alguns dos moçambicanos têm medo de falar".

Como conclusão preliminar, realçam que "ambas as partes criam imagens estereotipadas uma da outra - mas é importante lembrar que os portugueses são geralmente mais poderosos nos locais de trabalho", na qualidade de patrões.

Nas entrevistas, as investigadoras detetaram que os moçambicanos se queixam de várias formas de desrespeito por parte dos portugueses, desde a falta de reconhecimento de aptidões até ao desprezo por momentos de luto ou doença - além de criticarem uma linguagem ríspida e com recurso a calão.

Há ainda queixas de desigualdade salarial e desrespeito pelas leis de trabalho, cenário que "varia de empresa para empresa, sendo que nas grandes firmas estes casos foram menos reportados", refere-se na apresentação preliminar.

Ou seja, "há um sofrimento" do moçambicano, nota Lisa Åkesson, considerando que "ambas as partes deviam falar de uma maneira mais íntima, mais profunda, mais aberta, sem preconceitos uma da outra".

As investigadoras notam que "algumas das queixas podiam ter sido semelhantes se falassem sobre um chefe moçambicano" e que alguns resultados "provavelmente seriam os mesmos se fossem incluídos outros estrangeiros em vez de portugueses".

Do lado dos entrevistados portugueses, as investigadoras sintetizam as principais queixas que ouviram numa ideia: os moçambicanos "não sabem trabalhar".

De acordo com a síntese preliminar, hoje apresentada no evento organizado pela AP na Escola Portuguesa de Maputo, metade dos entrevistados exercem actividade nos sectores da construção e hotelaria.

Por norma, as queixas abordadas não são discutidas com abertura entre os dois lados.

Uns comentam, outros ouvem, "as pessoas vão falando", sobretudo "quando há um desentendimento", mas pouco mais, referem as autoras que consideram que o debate e diálogo serão formas de melhorar as relações laborais.

"Há muita incompreensão e é preciso que se faça alguma coisa: só o facto de estarmos aqui a apresentar o trabalho e estarmos a fazer um estudo desta natureza já é um passo", referiu Inês Macamo Raimundo.

Um estudo que pode trazer "paz".

"Com paz já não haverá aquele momento de crispação, é o que um trabalho como este pode permitir", concluiu.

O trabalho de investigação de ambas - que se conheceram em Lisboa em 2015 - vai continuar até final de 2021, dando origem a artigos científicos, mas também com a ambição de resultar num livro, acessível ao grande público.

A Associação Portuguesa de Moçambique, fundada oficialmente em 10 de Junho de 1989, em Maputo, apresenta-se como a primeira associação de estrangeiros "a ser reconhecida pelo Estado moçambicano" e aquela que continua a ser "a única instituição não governamental representativa da comunidade portuguesa" no território.

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