Além do novíssimo aeroporto, esta localidade desenhada a regra e esquadro, feita de raiz em dois anos, é a primeira obra acabada pelo megaprojeto de gás na península de Afungi, Cabo Delgado, em claro contraste com a crise humanitária provocada por ataques armados no resto da região.

Na nova Quitunda já habitam 186 famílias (cerca de 1.200 pessoas), transferidas de povoados dos terrenos de implantação do projeto e novas fases de expansão estão previstas para o total a acolher chegar a 556 famílias.

"Eu vivia numa casa de matope", mistura de barro e madeira, "e nunca esperei vir a ter uma como esta", de construção permanente, em alvenaria, diz em língua suaíli Fumassane Sumaile, 60 anos, chefe tradicional.

No lugar de uma povoação rural de construções precárias, agora há uma vila com infraestruturas (água, eletricidade, saneamento, acesso) como não existe em mais lado nenhum da província.

Os sorrisos repetem-se nas conversas mantidas a passo de corrida, porque o tempo é curto: o recinto de Afungi foi um dos principais focos de covid-19 em abril, em Moçambique, e só no final de maio foi declarado novamente seguro.

Na primeira visita aberta a jornalistas depois da quase paralisação da área por causa do novo coronavírus, os protocolos são restritivos quanto a contactos, visitas e permanência.

Quando observadas de avião, as obras de construção do complexo industrial de liquefação de gás natural em Cabo Delgado erguem-se como uma ilha no meio de um manto esverdeado de terras virgens do norte de Moçambique.

Território onde grassa terrorismo associado a grupos 'jihadistas', mas no meio do qual o recinto do maior investimento privado em África tem permanecido fora da mira dos grupos.

"A situação de insegurança não está diretamente ligada ao projeto de gás", que continua a avançar para iniciar exploração em 2024, refere Ronan Bescond, diretor-geral da petrolífera Total em Moçambique, empresa que lidera o consórcio da Área 1.

"Há um ambiente seguro que prevalece" no recinto de construção e em redor, mas, ainda assim, "o Governo colocou recursos de forma a mitigar a situação e proteger a população", porque nos últimos dois anos e meio já houve confrontos a poucos quilómetros.

No recinto de construção são visíveis várias áreas vedadas com arame farpado e torres onde vigias controlam o que se passa em redor - e também acenam a quem passa.

Manter a segurança "é um valor absolutamente primordial" para o projeto, destaca Bescond, detalhando que há "um protocolo com o Ministério do Interior e o Ministério da Defesa que será ajustado, dependendo do avanço das atividades".

Esta colaboração tem sido alvo de críticas da sociedade civil, que questionam: será que os investimentos privados estão acima das populações?

Ronan Bescond refere que o protocolo abrange "um plano de base comunitária. O projeto assume a responsabilidade de associar estas forças de segurança na área para proteger as comunidades locais e regionais".

Mas o cenário no resto de Cabo Delgado tem se degradado, com um aumento dos ataques de rebeldes armados (cuja origem continua em debate), maior ocupação de vilas e mais confrontos com as forças de defesa e segurança moçambicanas - que têm também anunciado progressivos contra-ataques.

A gravidade da situação fez com que as Nações Unidas, em coordenação com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), tenham feito um apelo 35 milhões de dólares (30 milhões de euros) à comunidade internacional para um Plano de Resposta Rápida, de maio a dezembro.

A fuga da população aumentou rapidamente à medida que a violência cresceu desde início do ano, refere a ONU, estimando que haja agora 211.485 pessoas que largaram tudo e procuraram refúgio seguro noutras povoações - num conflito que já matou, pelo menos, 700 pessoas.

As questões humanitárias, sociais e de investimento na economia local ocuparam cerca de um quarto da apresentação de Ronan Bescond aos jornalistas.

Em janeiro havia 5.500 moçambicanos a trabalhar nas obras do megaprojeto da Área 1 e prevê-se que esse número se mantenha, sendo que, depois de terminada a construção, em 2024, o consórcio prevê criar 1.500 empregos de longa duração.

"Se tivermos mão-de-obra moçambicana qualificada para o que precisamos, não a vamos trazer de fora", garante Bescond.

Há outras atividades em curso: um fundo ajuda a população a identificar oportunidades de negócio locais, um outro projeto dinamiza o agronegócio e a petrolífera já apoiou uma empresa a tornar-se na maior produtora de ovos (5.000 por dia) na capital provincial.

Além disso, 699 milhões de dólares já foram aplicados em aquisições a empresas moçambicanas até ao segundo trimestre de 2020: "Investimos muito tempo no conteúdo local", garante Bescond.

A cidade do gás, associada ao empreendimento, vai começar a ser construída em 2021 com capacidade para albergar 150.000 pessoas atraídas pelas oportunidades criadas em Afungi.

Na avaliação feita em 2018, meses depois de iniciadas as obras, as organizações da sociedade civil moçambicanas deram nota positiva ao dossiê de reassentamento das populações que viviam na área das obras, apesar das preocupações relativas à deslocalização de comunidades piscatórias e à disponibilização de terras para cultivo.

Em resposta, o consórcio de petrolíferas e o Estado moçambicano garantem dar ouvidos às preocupações e estar abertos ao escrutínio.

Hoje o avião deverá levantar voo bem antes de o sol se pôr e Quitunda fica para trás com a população a passear nas ruas e famílias reunidas nos quintais.

Num deles, Mwanaquela Ramazane, 28 anos, rodeada de crianças, trança fios de coco para fazer uma cesta enquanto ao lado há música alta de jovens que esticaram uma lona sobre estacas e improvisam uma sala de cinema.

Realidades paralelas em contraste numa época de transição no norte de Moçambique.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.