No preciso momento em que lê estas linhas, quatro em cada dez pessoas no mundo são directamente afectadas pela escassez de água, aponta a Organização Mundial de Saúde.

Por outro lado, a captação de água doce aumentou, globalmente, um por cento ao ano desde a década de 1980, menciona a Organização das Nações Unidas (ONU), em grande parte para satisfazer a procura nos países desenvolvidos. Na maior parte destas nações, a captação deste líquido vital estabilizou ou declinou ligeiramente. Não é para espantar, tendo em conta que a água doce é um recurso infinito.

Mas esta história, sobre os desafios futuros envolvendo o acesso à água e ao saneamento, têm muito mais que se diga.

“A água é um componente essencial das economias nacionais e locais, sendo precisa para criar e manter empregos por todos os sectores da economia”, começa por esclarecer o relatório Água e Emprego das Nações Unidas, publicado em 2016, o primeiro grande estudo do género a ser feito.

“Metade da força de trabalho global está empregada em oito indústrias dependentes da água e de recursos naturais: agricultura, floresta, pesca, energia, manufactura intensiva dependente de recursos naturais, reciclagem, construção e transporte”, adianta o documento.

A análise feita pela ONU determinou, ainda, que 42% da força de trabalho mundial, ou seja, 1,4 mil milhões de empregos, dependem fortemente da água, a que se junta 36% (1,2 mil milhões de postos de trabalho) que necessitam dela de forma moderada.

Em África, mais especificamente, o sector importante mais dependente da água é a agricultura, a pedra basilar da maior parte das economias dos estados africanos. Em 2010, metade da população do continente estava aí empregada. Estima-se que até 2020 sejam criados mais oito milhões de empregos neste sector.

Seguem-se a pesca e a aquacultura, responsáveis por empregar 12,3 milhões de africanos, em 2014, e por 1,26% do Produto Interno Bruto (PIB) de todos os países africanos.

Falta de água coloca em perigo milhões de empregos em África

O futuro destes postos de trabalho está em perigo

O problema é que as alterações climáticas, à medida que a temperatura média do planeta aumenta, estão a diminuir a existência de fontes de água doce. O próprio Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, sob a égide da ONU, avisa que por cada grau a mais, na temperatura média, haverá 7% da população mundial a ficar exposta a uma diminuição dos recursos renováveis de água, com esse decréscimo a poder ir até aos 20%.

De momento, tudo indica que as actuais regiões áridas e semiáridas do planeta, uma lista negra onde se destacam os estados africanos, serão as mais vulneráveis aos riscos de seca.

No entanto, há outros fenómenos naturais extremos que poderão aumentar em número e exacerbar-se, como as cheias. Neste caso, os danos que causarão aos sistemas de fornecimento de água potável têm de ser levados em conta.

Junte-se a estes fenómenos naturais o aumento da população mundial, que em 2050 deverá chegar aos 9,3 mil milhões, um acréscimo de 33% em relação a 2011, aumentando a necessidade de alimentar toda esta massa humana. Actualmente, 70% da captação de água doce destina-se à agricultura, percentagem que sobe para os 90% nos países menos desenvolvidos.

Entre o mesmo período, de 2011 a 2050, espera-se, igualmente, que o número de pessoas a viver nas áreas urbanas quase que duplique, passando dos 3,6 mil milhões para os 6,3 mil milhões, podendo aumentar os problemas relacionados com a água, desde a sua gestão e fornecimento, ao saneamento.

1,8 mil milhões de pessoas sem água potável

Quando se junta a estes dados os números avançados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o futuro parece pouco auspicioso, a menos que se adoptem medidas eficazes. As duas organizações estimam que 1,8 mil milhões não conseguem aceder a uma fonte de água com qualidade suficiente para consumo humano. Mas também é preciso ter em conta os 663 milhões de homens e mulheres sem acesso a fontes melhoradas de água, assim como os 2,4 mil milhões de humanos que não utilizam estruturas sanitárias melhoradas. Pior: mil milhões de pessoas ainda defecam ao ar livre, havendo um grande risco de estes resíduos contaminarem a água que se vai usar.

Eis outros números a ter em conta:

  • 80% das águas residuais (os esgotos) retornam ao ecossistema natural sem terem sido tratadas ou reutilizadas (UNESCO).
  • 340 mil crianças, com menos de cinco anos, morrem todos os anos devido a doenças diarreicas (OMS).
  • Cerca de dois terços dos rios transfronteiriços do mundo não têm um plano de cooperação, para a gestão comum dos mesmos. Ou seja, os países atravessados por um mesmo rio não cooperam para gerir este recurso, salienta o Instituto Internacional da Água de Estocolmo.
  • 90% de todos os desastres naturais estão relacionado com a água, informa a Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres.

Face a tudo isto, o relatório Água e Emprego alerta que negligenciar os problemas relacionados com a água pode levar a “impactos negativos sérios nas economias, nos modos de vida e nas populações, com resultados potencialmente catastróficos e extremamente dispendiosos”.

Também a “gestão insustentável da água e de outros recursos naturais pode causar sérios danos às economias e à sociedade”, acrescenta, revertendo, deste modo, muitos dos ganhos obtidos na redução da pobreza e na criação de emprego, o que comprometeria o esforço que muitos países fizeram para se desenvolverem economicamente.

Diferença abissal entre os africanos mais ricos e pobres

Cada parte do continente parece enfrentar os seus próprios desafios, relacionados com a crise da água, e a situação está longe de ser a melhor para os cidadãos comuns.

O Norte de África e a região subsariana do continente apresentam cenários muito diferentes. Por exemplo, enquanto o Norte tinha, em 2012, uma cobertura que chegava a mais de 90% da população, cerca de 40% dos subsarianos não tinham acesso a uma fonte melhorada de água, apontam dados das Nações Unidas.

A mesma análise, incidindo sobre um universo de 35 países da África subsariana (o equivalente a 84% da população), dá também conta do enorme fosso entre ricos e pobres, tal como entre áreas urbanas e rurais.

Mais de 90% da camada de população mais rica usa fontes melhoradas de água, com 60% dessa mesma franja de pessoas a ter acesso a água canalizada. Nas áreas rurais, contudo, as famílias mais pobres desconhecem o que é água canalizada, aponta a ONU, sendo que menos de metade da população rural recorre a fontes melhoradas de água.

Um verdadeiro risco para a saúde

Ou seja, as comunidades rurais de África são as mais gravemente afectadas pela falta de água filtrada e potável, obrigando-as a andar vários quilómetros, todos os dias, só para encontrar água. Quando a encontram, está normalmente armazenada com impurezas e poluentes.

Daí que estas populações sejam muitas vezes vítimas de doenças, por não possuírem medidas assépticas (como água limpa e potável) para ajudar as curar as pessoas que ficam doentes.

Tampouco ajuda o facto de muitos não terem acesso a lavabos ou outro tipo de infra-estruturas de saneamento básico, de modo a que as águas residuais não poluam as fontes potáveis. Por exemplo, quando uma pessoa fica doente com diarreia, a doença espalha-se rapidamente a outros na comunidade, como consequência de a água estar contaminada.

Não obstante, muitas áreas urbanas também não têm meios próprios para purificar o abastecimento de água, antes de esta ser utilizada pela população. A falta de canalização ou de alternativas para eliminação de desperdícios fazem com que bactérias, parasitas e outros agentes poluentes proliferem rapidamente, contaminando o abastecimento de água.

Infelizmente, a escassez de água é uma ameaça real para as cidades, à medida que populações urbanas, sempre em crescimento, exigem mais de fontes superficiais de água, as quais estão a diminuir lentamente.

Falta de água coloca em perigo milhões de empregos em África
Water flowing from pipe against blurred mountain background. Shot in Hottentots-Holland Mountains nature reserve, near Somerset West, Cape Town, Western Cape, South Africa. créditos: Kostya Zloschastyev

Urgente cuidar das águas superficiais e das zonas húmidas

A agricultura coloca uma enorme pressão no abastecimento de água, por exigir colossais quantidades, isto enquanto contribui para a própria poluição deste recurso natural.

O sector agrícola depende muito mais da água de superfície do que da água subterrânea, mas esta prática está a contribuir para a secagem de grandes massas de água e de rios, por todo o continente.

Ao mesmo tempo, há que ter em conta as florestas de água doce, os lagos salinos e as enormes planícies aluviais, que constituem as chamadas zonas húmidas de África. Elas estão entre os ecossistemas com maior diversidade biológica do mundo, sendo importantes porque desempenham funções ecológicas essenciais, tais como a filtragem de água e a melhoria da qualidade do ar.

Acontece que a rápida urbanização, a poluição e a drenagem para a agricultura, bem como os desafios impostos pelas alterações climáticas, estão a ameaçar estas zonas.

No “Dia Zero” a água deixa de sair das torneiras

Pela primeira vez, uma grande cidade internacional vai ficar sem água. Falamos da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Na origem desta história está uma seca que dura há já três anos, nesta região africana. O “Dia Zero”, como é chamado, é a data em que o abastecimento de água será cortado a 75% da população da metrópole, afectando quatro milhões de pessoas, numa medida de urgência destinada a fazer face à falta severa de água doce.

O alerta será dado quando o armazenamento de água, para a Cidade do Cabo, descer até aos 13,5% da sua capacidade.

Inicialmente, o corte no fornecimento estava agendado para o dia 16 de Abril, mas os habitantes da cidade, num grande esforço colectivo, conseguiram que a data fosse atrasada por mais dois meses, para 9 de Junho.

Uma das medidas lançadas pelo governo sul-africano foi um contador online, para que os cidadãos saibam quanto gastam de água por semana, além de ter sido imposto um limite diário de 50 litros por dia.

Há soluções que as populações podem usar

Apesar da amplitude dos desafios, há soluções ao alcance da mão. Neste sentido, a inovação, a tecnologia e a formação são partes essenciais da criação de soluções sustentáveis.

Muitas organizações estão a elaborar projectos comunitários sustentáveis, centrados na água, para ajudar a melhorar a gestão deste recurso em África. Em simultâneo, existem comunidades que estão a trabalhar em conjunto para resolver este problema.

Eis algumas medidas que as populações locais podem colocar em marcha:

  • Proteger as nascentes de água doce.
  • Erigir barragens de areia
  • Incentivar práticas de higiene e saneamento.
  • Fazer uma gestão dos aterros sanitários.
  • Tratar as águas residuais.
  • Construir latrinas de gestão comunitária e estruturas de saneamento para as habitações familiares.
  • Criar aquedutos e poços artesanais.
  • Reabilitar os poços existentes.
  • Captar a água da chuva e do nevoeiro para posterior utilização.
  • Desenvolver sistemas de purificação da água que recorram à luz solar.

A inteligente mistura destas soluções pode equilibrar as exigências cada vez maiores deste recurso finito, ajudando a garantir que África é capaz de satisfazer a suas necessidades de água doce, tanto hoje como no futuro.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.