“Os cálculos do Eurodad baseados nos números do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial para os 76 países mais pobres para os quais há dados disponíveis mostram que devem este ano 19,5 mil milhões de dólares [18 mil milhões de euros] a outros governos e a instituições multilaterais, e mais 6 mil milhões de dólares [5,5 mil milhões de euros] aos credores privados”, lê-se numa nota do Comité para o Jubileu da Dívida.

Na nota, enviada à Lusa, explica-se que os cálculos fazem parte do argumento que mais de 100 organizações não-governamentais (ONG) enviaram a um conjunto de instituições internacionais financeiras e políticas para sustentar a necessidade de perdoar a dívida destes países, que estão já assoberbados com a despesa pública do combate à pandemia da covid-19.

No documento, os signatários defendem que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial “pressionem os credores a aceitar o corte da dívida e que os pagamentos aos credores privados sejam também suspensos”, e argumentam que as principais jurisdições legais, como Nova Iorque e Londres, devem aprovar legislação que impeça qualquer credor de intentar uma ação judicial contra um governo que tenha deixado de pagar a dívida este ano.

Mais de cem ONG lançaram um apelo para que os pagamentos da dívida dos países africanos, cujas finanças estão assoberbadas pelo combate ao novo coronavírus, sejam cancelados, incluindo aos credores privados.

“As organizações pedem o cancelamento imediato dos pagamentos da dívida aos países em desenvolvimento em resposta à crise económica e de saúde”, disse o economista-chefe da ONG britânica Comité para o Jubileu da Dívida, Tim Jones.

O documento, enviado ao FMI, Banco Mundial e governos do G20, defende várias medidas para cancelar o pagamento da dívida dos países em desenvolvimento e defende “a criação de um processo para trazer o peso da dívida para níveis sustentáveis através do cancelamento geral da dívida nos próximos anos”, acrescentou o diretor do departamento de políticas públicas da ONG britânica.

Entre os subscritores do documento está a ONG portuguesa Oikos, a moçambicana Mozambican Debt Group e várias ONG brasileiras, que defendem no texto que “os governos devedores têm o poder de parar de fazer pagamentos da dívida e não devem sofrer quaisquer penalizações se o fizerem”, argumentando que “os credores devem, por isso, concordar com o cancelamento imediato dos pagamentos da dívida este ano, não acumulando juros nem penalizações” pelo incumprimento.

O FMI e o Banco Mundial já defenderam um perdão de dívida relativamente aos pagamentos da dívida pública, mas ainda não é claro se defendem que os países não paguem os empréstimos de outros países ou se esse ‘perdão’ deve ser estendido aos pagamentos dos juros das emissões de dívida soberana, que tem sido o modelo mais usado pelos governos, nomeadamente os africanos, nos últimos anos.

Os ministros africanos, ainda em março, pediram um perdão dos juros da dívida que seriam pagos este ano, mas numa segunda reunião com a diretora executiva da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), Vera Swonge, já este mês, alargaram o pedido para um perdão de dívida total devido aos constrangimentos que o combate à pandemia da covid-19 acarreta para estes países, que enfrentam igualmente um forte desequilíbrio orçamental originado pela descida das matérias-primas e pelo consequente aumento do endividamento.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 1,3 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 73 mil.

Dos casos de infeção, cerca de 250 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

O número de mortes devido à covid-19 em África subiu para 442, com 9.457 casos registados em 52 países, de acordo com a mais recente atualização dos dados da pandemia no continente.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.