Dados oficiais mostram que, pelo menos até agora, o continente africano escapou aos efeitos da pandemia do novo coronavírus, tal como se fizeram sentir em países como a Itália, a Espanha e os Estados Unidos. De acordo com a União Africana (UA), apenas 70 mil africanos foram infetados com o COVID-19 até maio, um número bastante reduzido tendo em conta o total de 1,2 mil milhões de habitantes do continente.

Apesar do número comparativamente baixo de infeções, a maioria dos países africanos impôs medidas de confinamento, atingindo de forma particularmente dura setores de ponta como os produtos de base e o turismo, e causando profundos défices orçamentais aos estados. O Banco Mundial projeta a primeira recessão no continente africano em 25 anos. A UA teme a perda de cerca de 20 milhões de postos de trabalho no decurso deste ano.

Porém, Christoph Kannegiesser acredita que as consequências para as economias africanas poderão ser "ligeiras" se as restrições que trafam a atividade económica forem levantadas em breve. O diretor executivo da Associação Empresarial Alemanha-África já está de olhos postos na era pós-coronavírus, na qual espera que África assuma um papel maior na produção globalizada.

"A África deverá ganhar maior protagonismo", quando as multinacionais reavaliarem as suas linhas de abastecimento, atualmente gravemente perturbadas pela pandemia global, disse Kannegiesser à Deutsche Welle (DW).

A integração global é "praticamente inexistente"

Segundo a associação alemã de engenharia mecânica, VDMA, cerca de 89% das empresas membros sofreram estrangulamentos no fornecimento e falta de peças em abril, o que atrasou a produção na Alemanha. Friedrich Wagner, especialista em comércio exterior da associação, afirma que muitas empresas alemãs estão num "processo de reposicionamento" nos mercados globalizados de produtos a montante.

"O que poderá acabar por levar a uma deslocalização [da produção] para fora da China e da Índia", afirma Wagner, que admite que, até agora, os fornecedores africanos praticamente não constaram das estratégias dos fabricantes alemães de máquinas e equipamentos.

Agora poderão surgir novas oportunidades "especialmente nos países do Norte de África, que têm uma vantagem geográfica" para as empresas europeias que pretendem encurtar as rotas de abastecimento, disse à o especialista à DW.

Tilmann Altenburg, do Instituto Alemão para a Política de Desenvolvimento (DIE), mostra-se mais cético, embora se congratule com todos os esforços empresariais destinados a integrar mais fortemente a África nas cadeias de produção globais.

Altenburg aponta uma grande desvantagem que dificultar esses esforços: "A maioria dos países africanos praticamente não participa no comércio mundial, com exceção de alguns produtores de bens básicos. Os outros apenas importam bens produzidos noutros locais", disse. O especialista em políticas de desenvolvimento estima que, neste momento, apenas 2% de toda a população ativa africana está a contribuir para as exportações globais.

África do Norte e Oriental entre os "vencedores da pandemia"

Alexander Demissie, da consultoria para empresas AfricaRising, não concorda com a perspetiva desencorajadora de um continente eternamente sempre à margem da evolução económica global. Demissie salienta que em muitos países africanos surgiram zonas económicas especiais, que são já elos importantes nas cadeias de fornecimento, graças a uma melhora substancial das políticas de investimento nos últimos anos.

"As empresas alemãs simplesmente ignoram a África", lamenta, salientando que empresas chinesas, holandesas, francesas e britânicas estão a desenvolver ativamente localizações em países como a Tunísia, Marrocos, Etiópia, Gana, Senegal e Costa do Marfim.

"A África do Norte e Oriental emergiram como os principais vencedores da pandemia", afirma Demissie, uma vez que estão a apenas a uma distância de quatro a seis horas de voo da Europa, o que também seria ideal para as entregas na Alemanha.

Tilman Altenburg, da DIE, admite que há empresas alemãs que incluem a África nas suas estratégias. Altenburg cita o exemplo da indústria têxtil, para a qual a Etiópia se tornou um grande produtor no âmbito dos esforços para "dispersar os riscos da empresas do lado da oferta". Isto apesar de "a produção no Bangladesh continuar a ser muito mais barata", disse à DW.

Esta "lógica de diversificação" já existia antes da pandemia do vírus, acrescenta, e diz: "Mas, até agora, limita-se apenas a algumas indústrias menos complexas, para as quais a produção e a entrega just-in-time não são cruciais".

Os planos pós-coronavírus

A consultoria AfricaRising conta com um reforço da posição de África na produção mundial, na sequência da pandemia de coronavírus. Alexander Demissie vê o Egito a desempenhar um papel mais importante no fabrico de medicamentos genéricos e outros para o mercado africano, prevendo igualmente o reforço dos laços com os distribuidores europeus.

Outro setor que poderia beneficiar da diversificação é a indústria automóvel africana, acrescenta, que já monta automóveis tanto para fabricantes alemães como para os mercados locais. Na África do Sul já há locais de produção estabelecidos. Os construtores de automóveis alemães também mostram um interesse crescente no Ruanda, diz Demissie.

Para já as empresas alemãs com operações em África estão ocupadas a gerir o surto de coronavírus, para limitar os danos causados pelo confinamento, diz Christoph Kannegiesser. Mas isso não deve impedir que os líderes empresariais revejam as estratégias e analisem de perto as oportunidades que se abrem no continente africano.

"As cadeias de valor industriais feitas em África podem ser uma questão completamente nova, propícia a desenvolver uma nova dinâmica nos tempos pós-coronavírus", segundo Kannegiesser.

Autor: Nicolas Martin

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