Pela primeira vez desde a grande crise financeira de 2008, o Banco Central dos Estados Unidos baixou as taxas de juros em um contexto de desaceleração econômica global e incerteza gerada pela guerra comercial entre EUA e China.

O corte, anunciado na quarta-feira (31), foi de 0,25 ponto-base, levando a taxa americana a uma faixa que varia de 2% a 2,25%.

O Fed, como é chamado o banco, disse que a decisão se devia às “implicações dos eventos globais para as perspectivas econômicas e as fracas pressões inflacionárias”.

Ele também deixou a porta aberta para futuras reduções, dizendo que “agirá adequadamente para manter a expansão”.

A agência, que opera de forma independente da Casa Branca, aumentou as taxas quatro vezes no ano passado, para decepção do presidente Donald Trump, que reagiu com fortes ataques contra o Fed.

Nos últimos dias, o presidente pressionou publicamente os membros do banco a darem mais impulso à economia, diminuindo o custo do dinheiro e incentivando o consumo.

“Uma pequena queda nas taxas não é suficiente”, escreveu Trump no Twitter antes do anúncio do Fed.

Na prática, quando o Fed reduz as taxas, os juros dos empréstimos também diminuem, dando às empresas mais estímulo para investir e aos consumidores, um impulso para gastar.

O que está por trás da decisão?

A decisão do Fed, que reduz o custo do dinheiro para estimular o crescimento, marca o fim de uma era de aumentos graduais nas taxas de juros, depois que elas chegaram a quase zero uma década atrás.

Embora a economia dos EUA continue crescendo (2,1% no segundo trimestre), o mercado financeiro americano registre bons resultados e o desemprego tenha atingido baixas recordes (3,7%), o Fed talvez esteja alertando que as coisas podem ficar complicadas.

Powell
O presidente do Fed, Jerome Powell, vem sendo duramente criticado por Donald Trump créditos: Getty Images

Nem todos os sinais são animadores: o setor manufatureiro começou a declinar, enquanto os salários continuam baixos.

E a inflação (1,6%) está menor do que o Fed gostaria (2%).

Alguns analistas veem o corte como uma “ajuda” para que a economia se mantenha em um bom patamar. Outros criticaram o atual presidente, Jerome Powell, por “ceder à pressão” de Trump, enquanto os mais pessimistas acham que está chegando uma recessão que exigirá novos cortes nas taxas.

Como isso afeta a América Latina?

As taxas de juros dos EUA influenciam todo o sistema financeiro internacional, não apenas o país emissor do dólar.

Como o corte do Fed reduz o custo do dinheiro, ele permite que o resto do mundo tenha acesso a um dólar mais barato.

E se o dólar cai em relação a outras moedas, isso influencia o mercado de câmbio das economias de outros países, que podem obter financiamento na moeda americana a taxas mais baixas.

Por outro lado, o corte poderia incentivar o capital financeiro a buscar melhores retornos nos mercados emergentes, o que favoreceria a América Latina no longo prazo.

“Os investidores procurariam retornos mais altos em outros mercados”, disse à BBC News Mundo Jacobo Rodríguez, diretor de análise financeira da Black Wallstreet Capital (BWC).

Eles poderiam expandir seus investimentos no México ou no Brasil, que pagam uma taxa de juros mais atraente.

“O aumento da entrada de dólares fortalece as moedas locais”, algo que impulsionaria o peso mexicano, por exemplo, para o lado positivo.

Em países como a Argentina, a decisão do Fed é acompanhada com atenção.

Gráfico
O corte do Fed reduz o custo do dinheiro, permitindo que o resto do mundo tenha acesso a um dólar mais barato créditos: Getty Images

O corte, que faz com que o dólar perca força, teria efeito sobre a estabilização da taxa de câmbio.

Se mais recursos chegarem a esse país, dizem especialistas locais, isso fortaleceria o peso argentino de forma relativa (ou melhor, diminuiria sua desvalorização), algo positivo no difícil cenário econômico que a Argentina enfrenta.

Além disso, quando o dólar cai, o preço de recursos como a soja aumenta.

Daniel Marx, diretor executivo da consultoria Quantum Finanzas, ex-diretor do Banco Central da Argentina e ex-secretário de Finanças do Ministério da Economia, afirma que o corte do Fed já foi antecipado pelo mercado financeiro.

“Na Argentina isso é relativamente secundário. O que domina é a expectativa sobre as próximas eleições presidenciais”, comenta em conversa com a BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Com opinião semelhante, Guillermop Lefort, consultor e professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile, afirma que o corte do Fed “não é uma novidade”.

“O interessante é que os Estados Unidos precisam reduzir as taxas, já que as perspectivas de crescimento estão mais fracas”, disse ele à BBC News Mundo.

“Os EUA estão colhendo os efeitos de suas próprias restrições comerciais”, acrescentou ele.


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Escrito por: Redação - BBC News Mundo

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