"O peso da dívida para os governos da África subsaariana está a subir a um ritmo mais rápido e para níveis mais elevados que outros mercados emergentes, evidenciando o risco de mais descidas no 'rating' e incumprimentos financeiros ['defaults', no original em inglês]", lê-se numa análise às economias da região.

No documento, enviado aos investidores e a que a Lusa teve acesso, os analistas da Fitch Ratings, detida pelos mesmos donos da consultora Fitch Solutions, escrevem que "a média do rácio da dívida face ao PIB dos 19 países analisados deverá passar de 57%, no final de 2019, para 71% no final deste ano, mostrando uma subida de 14 pontos percentuais de 2019 para 2020, quando em 2012 estava nos 26%".

Os efeitos da propagação da pandemia de COVID-19 e o choque petrolífero "estão a ter um impacto severo na região", escreve a Fitch, apontando que "o PIB real deve cair 2,1%, em média, este ano, e os défices orçamentais deverão alargar-se de 4,9%, no ano passado, para 7,4% este ano".

A degradação das condições económicas destes países, entre os quais se contam os lusófonos Angola, Cabo Verde e Moçambique, não começou com a pandemia, diz a Fitch Ratings, notando que o agravamento das condições macroeconómicas está em curso há uma década e vai ser difícil de reverter.

"Moçambique e a República do Congo estão em Incumprimento Financeiro desde 2016, e acreditamos que o 'default' de mais países é provável", dizem os analistas, vincando que o alargamento dos défices orçamentais primários (antes de juros) foram os principais responsáveis pela subida do rácio da dívida, que vai continuar a subir a não ser que haja uma consolidação orçamental substancial".

Na análise às economias africanas, a Fitch Ratings diz que o apoio do Fundo Monetário Internacional cobre 13 países com um valor de 8 mil milhões de dólares, e a Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida abarca 15 países, é "útil porque dá financiamento externo", mas salienta que as verbas não chegam.

"As verbas são escassas no tamanho, representando 0,9% e 1,2%, respetivamente, e o fluxo de alívio da DSSI e os novos empréstimos do FMI não estão desenhados para lidar os volumes de dívida e os riscos de médio prazo para a sustentabilidade da dívida", alertam os analistas.

Desde o início de março, a Fitch desceu o 'rating' de sete dos 19 países a que atribui uma opinião sobre a qualidade do crédito soberano, "refletindo quer a severidade do impacto do novo coronavírus, quer a limitada margem de resiliência dos países depois da rápida subida da dívida, e devido a outras vulnerabilidades de crédito".

A tendência, concluem, deverá manter-se: "O aumento do peso da dívida, o impacto do novo coronavírus e o choque petrolífero apontam para mais pressão descendente nos 'ratings' dos países da África subsaariana".

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.