Após meses de controvérsias e problemas de comunicação, o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB) atirou a toalha ao chão. A notícia não é surpreendente, mas deixa a DFB à procura de um novo começo há muito esperado.

A DFB anunciou na última terça-feira (02.04), que o presidente Reinhard Grindel havia renunciado com efeito imediato. Os dois primeiros vice-presidentes da DFB, Rainer Koch e Reinhard Rauball, devem liderar a federação interinamente até que um novo presidente seja eleito em congresso, no mês de setembro.

"Através de seu alto nível de compromisso pessoal, Reinhard Grindel alcançou muito para a DFB, não apenas em relação à candidatura para o EURO 2024", disse Koch em uma declaração postada no site da DFB. "Estamos muito gratos a ele e respeitamos muito a sua decisão. Ainda de acordo com o comunicado, Grindel continuará a atuar como membro do Conselho da FIFA e do Comité Executivo da UEFA.

Sem surpresa

No entanto, a decisão de demissão do cargo de presidente da DFB não foi uma surpresa. Quase um ano após a humilhante e histórica campanha da Alemanha no Mundial de futebol na Rússia, a DFB começou a entrar em colapso interno. A decisão de Reinhard Grindel em deixar o cargo é sinal de que poderão haver mudanças na estrutura da federação e essa mudança deve seguir-se pela contratação de um novo técnico para a seleção nacional, em detrimento de Joachim Löw, por uma nova era do futebol alemão.

A notícia chegou apenas um dia depois da abertura do primeiro "hall of fame" (corredor da fama), no museu do futebol em Dortmund, um evento no qual Grindel participou.

"Prendas"

A comunicação social alemã comecou a "fazer a cama" ao agora ex-presidente da DFB. Uma reportagem do jornal "Bild" noticiou que Grindel havia supostamente recebido um relógio de luxo - há um ano e meio - de um oficial do futebol ucraniano.

No seu comunicado de demissão, Grindel pediu desculpas pelo "comportamento menos que exemplar", ao aceitar um relógio no valor de seis mil euros de Grigoriy Surkis. Não obstante, Grindel afirmou que Surkis nunca lhe pediu "qualquer apoio", acresentando ainda que "não houve e não há conflito de interesses".

Para além desta oferenda, uma reportagem da revista de notícias alemã "Spiegel", afirmou que Grindel tinha recebido 78 mil euros em outras receitas entre julho de 2016 e julho de 2017, durante o mandato enquanto presidente da subsidiária de gestão dos media da DFB (uma empresa-irmã da DFB). Prontamente, o departamento de comunicação da DFB disse que Grindel havia declarado corretamente os pagamentos adicionais.

Bola de neve

À luz de uma reportagem da revista "Spiegel" de 2015, que afirmou que a organização do Mundial de Futebol de 2006, organizado pela Alemanha, havia sido "comprada", Grindel, que só foi eleito presidente da DFB alguns meses depois, prometeu que, durante o mandato, a organização tornar-se-ia mais transparente.

As últimas controvérsias sugerem o contrário, já que a DFB continua sem saber lidar com dificuldades, como no caso de Mesut Özil, que abandonou a seleção alemã, dizendo-se vítima de racismo, depois de publicar uma fotografia com o Presidente da Túrquia, Recep Tayyip Erdogan. A publicação foi interpretada como uma mensagem de apoio a um líder político, que na altura, tinha uma relação tensa com chanceler alemã Angela Merkel.

Depois de Özil, foi a vez de Thomas Müller, Mats Hummels e Jerome Boateng abandonarem a seleção, mas por decisão do atual selecionador Joachim Löw. Grindel começou por saudar a decisão e o "timing". No entanto, poucos dias depois, disse que a decisão deveria ter sido anunciada numa conferência de imprensa para agradecer aos jogadores e explicar o porquê do afastamento dos mesmos.

A somar aos casos destes problemas comunicacionais, a incapacidade de Grindel em ouvir o povo alemão enfraqueceu ainda mais posição do ex-presidente da DFB. Esta temporada, na Bundesliga, adeptos tem erguido cartazes com mensagens de desagrado perante a federação.

Ares de mudança

Durante o evento de inauguração do corredor da fama no museu de futebol, em Dortmund, foram várias as personalidades do futebol alemão que se pronunciaram.

O ex-capitão e lenda do futebol alemão, Lothar Matthäus, disse sem rodeios: "Quando estamos numa situação complicada e estas notícias vêm à tona, então deveríamos, pelo menos, ter argumentos para acabar com as suspeitas o mais depressa possível".

Já o ex-presidente da DFL e atual CEO de St. Pauli, Andreas Rettig, foi ainda mais longe e foi direto: "A imagem da DFB precisa de ser melhorada há muito tempo".

Sucessor?

Com o novo presidente a ser eleito no congresso da DFB no final de setembro, começa agora o ciclo de rumores quanto ao nome sucessor de Grindel.

Esta semana, surgiu um nome forte: Philipp Lahm, ex-jogador e capitão da seleção alemã, foi o porta-voz da candidatura alemã, que ganhou a organização do Euro 2024. No entanto, Lahm consfessou que não tem "nenhuma ambição", no que toca a esse cargo.

Outro nome que entrou no círculo de rumores à presidência da DFB é o de Christoph Metzelder. Dirigente desportivo e conhecido pelos bons contatos, quer no futebol profissional, quer no futebol amador, ainda não teceu qualquer comentário sobre o assunto, mas fala-se também da possibilidade de estar na corrida pelo cargo de diretor desportivo do Schalke 04.

Transformação da DFB

Considerando o fato de Grindel ser o terceiro presidente consecutivo da DFB a abandonar o cargo antes do fim de mandato, torna-se inevitável a necessidade da criação de uma estrutura simplificada, com pessoas que tenham o "know-how" para lidar com a crescente complexidade do mundo do futebol, como por exemplo, baixar o preço dos bilhetes dos jogos da Bundesliga, mudança dos horários dos jogos, tendo em conta o público e não as receitas televisivas, apoio financeiro ao futebol amador, e a organização do Europeu 2024, entre outros.

O próximo presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB) terá uma tarefa hercúlea pela frente. Acima de tudo, o candidato selecionado terá de encarnar traços característicos que Reinhard Grindel não encarnou: credibilidade, um registo de conformidade e força na integração, comunicação e gestão de crises. E é claro, ser um homem do futebol.

por:content_author: António Deus, Stefan Nestler, Jonathan Harding

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