Moçambique não consta da lista dos sete países africanos que serão contemplados pela visita da missão sul-africana de alto nível, que irá formalizar os pedidos de desculpas das autoridades de Pretória, em resultado da escalada de ataques xenófobos contra estrangeiros no país.

A missão indicada pelo Presidente, visitará Nigéria, Níger, Gana, Senegal, Tanzânia, República Democrática do Congo e Zâmbia e é composta por altas personalidades do Congresso Nacional Africano (ANC, partido no poder) integra o ex-ministro da energia Jeff Radebe, o embaixador Kingsley Mmabolo e o veterano do partido no poder Khulu Mbatha.

Moçambique, a par do Zimbabué e Malawi, países com um grande número de imigrantes na África do Sul, não fazem parte da lista de países a serem visitados pela delegação sul-africana, algo que criou um certo desconforto no seio da comunidade moçambicana, como por exemplo no seio dos estudantes moçambicanos da Universidade de Joanesburgo, ouvidos pela DW-África, na condição de anonimato.

"Falta de respeito"

"Acho que é uma falta de respeito o Presidente sul-africano não começar pela parte mais próxima, neste caso Moçambique e Zimbabué, os países em redor daqui da SADC (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral), porque são os seus vizinhos e também são os seus aliados mais próximos (...), disse um estudante ouvido pela DW África.

O nosso entrevistado acrescenta que "no meu entender esta decisão de Cyril Ramaphosa ou então do Governo sul-africano significa uma falta de consideração, o que tem sido recorrente, especialmente levando em conta os fortes investimentos que este país possui em Moçambique.”

Hélio Guiliche, académico e analista político moçambicano, também defende a ideia que as autoridades sul-africanas faltaram com respeito a Moçambique, socorrendo-se do fato de muitos moçambicanos trabalharem e viverem na África do Sul e que são o motor de certas atividades, nomeadamente económica, no país.

"Pelos laços históricos que nós já temos, ao nível de partilha de fronteiras, cooperação económica, ao nível do processo de libertação pós-apartheid e de cooperação pós-guerra, acredito que a irmandade destes povos é muito antiga e vale mais”, considera Guiliche.

Possíveis contactos nos bastidores

Egna Sidumo, Pesquisadora junto da Universidade Joaquim Chissano, acredita na existência de contatos entre África do Sul e Moçambique desde a eclosão dos ataques xenófobos.

"É preciso lembrar que Moçambique é aqui ao lado, existem várias comissões e constantes reuniões técnicas entre diplomatas sul-africanos e moçambicanos, e pode ser que nessas reuniões esse assunto tenha sido abordado e não tenha havido necessidade de enviar necessariamente emissários.”

Uma nota da presidência da África do Sul aponta que "os enviados especiais têm a tarefa de tranquilizar os países africanos de que a África do Sul está comprometida com os ideais de unidade e solidariedade pan-africanas”, indica o documento acrescentando que "estes vão também reafirmar o compromisso da África do Sul com a Lei e Ordem", salienta a nota da Presidência da República sul-africana.

Os últimos dados oficiais das autoridades sul-africanas indicam que a recente onda de violência xenófoba contra locais e estrangeiros resultou na morte de 12 pessoas, a maioria sul-africanos, mais de 600 detidos e no repatriamento voluntário de 600 nigerianos e cerca de 140 moçambicanos desde o início.

Necessidade de estudar o fenómeno xenofobia

Hélio Guiliche, defende a realização de estudos profundos visando a erradicação do ódio aos estrangeiros, algo que tem sido recorrente nos últimos anos na África do Sul.

"A barbaridade ou a morfologia do crime usada, temos pessoas a serem catanadas, queimadas vivas, isto mostra um nível que tem que ser estudado antropológica e sociológicamente e por fim temos de entender a psicologia deste sul-africano que faz e comete este tipo de crimes.”

Para Egna Sidumo, todos países da SADC, devem ter um papel preponderante na erradicação deste mal.

"É de lamentar que estes atos xenófobos comecem a ser tão recorrentes em tão pouco espaço de tempo, significando que há uma intervenção que deve ser feita não só pelos países da região que têm números significativos de emigrantes na África do Sul, mas também a nível interno da própria África do Sul.”

Entretanto, as autoridades moçambicanas encerraram esta terça-feira (17.09.) o centro de trânsito de Moamba, a 60 quilómetros de Maputo, que desde a última quinta-feira acolheu 138 vítimas de xenofobia na África do Sul. O centro fica junto à estrada nacional número 04, que liga Maputo à fronteira de Ressano Garcia.

por:content_author: Milton Maluleque (Joanesburgo)

 

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