"Não me parece que a situação esteja controlada", referiu Fernando Lima, presidente do grupo de comunicação social Mediacoop e um dos jornalistas que acompanha a situação.

Segundo as contas feitas pela Lusa, com base nos relatos noticiados, o número de mortes já deverá rondar as 250.

Desde que a violência começou, têm havido mais ataques, tanto contra civis como contra militares - sendo que alguns parecem ter raízes em extremismo islâmico que já ameaçava a região, mas a maioria tem motivações desconhecidas.

Fernando Lima defende uma "estratégia multidisciplinar" por parte do Governo, que acautele o combate no terreno para o qual as autoridades devem estar mais bem preparadas, por exemplo, ao nível da recolha de informação.

Mas também se deve promover a paz religiosa e a melhoria das condições de vida na região, porque a pobreza pode estar a causar revolta.

"Não basta opor terror ao terror", referiu.

O analista defendeu também maior abertura por parte das autoridades para que passem a informar sobre o que se passa e a trabalhar com académicos que têm experiência neste tipo de cenários.

Tristan Gueret, analista na consultora Risk Advisory, em Londres, disse que os ataques "estão longe de estar controlados": São "mais frequentes este ano que em 2018" e espalharam-se para sul e leste desde o início, em Mocímboa da Praia (vila do primeiro ataque, a 05 de Outubro de 2017), afectando mais distritos de Cabo Delgado.

"O único sucesso é que não tem havido ataques em zonas urbanas", sublinhou, a propósito da resposta militar em curso que, segundo referiu, mostra capacidade limitada em perceber quem são os autores.

Os elementos das forças de defesa e segurança moçambicanas destacados para Cabo Delgado são oriundos de vários pontos do país e muitas vezes nem sequer falam a mesma língua dos residentes, o que dificulta as relações que já não eram as melhores.

Fernando Lima acredita que os mandantes da violência em Cabo Delgado são os donos de rotas de contrabando e tráfico (drogas, pessoas, pedras preciosas), com ligações poderosas a nível económico dentro e fora do país e que usam uma máscara ideológica para recrutar quem proteja os seus corredores.

Só que esses grupos acabam por gerar a sua própria violência, que escapa ao controlo de quem os orquestrou.

Uma das organizações que começou a reivindicar ataques, desde Junho, foi o grupo 'jihadista' Estado Islâmico (EI), mas Tristan Guerret notou que são uma dúzia de anúncios entre cerca de 30 ataques registados desde aquela altura pela sua consultora.

"Mesmo que o EI esteja em contacto com alguém no terreno que partilhe fotografias, isso não quer dizer que todos os ataques estejam ligados" à organização, ou que todos os membros tenham motivações 'jihadistas'", acrescentou Gueret.

Seja como for, "há certamente uma ameaça terrorista", tendo em conta que "já havia pontos de vista radicais" por parte de alguns residentes com "relações degradadas com as autoridades locais", muito antes do primeiro ataque em Mocímboa da Praia.

"A maioria dos ataques não são reivindicados", pelo que é difícil dizer se derivam de uma intenção terrorista ou se são acções de banditismo.

Apesar do cenário, os investimentos da ordem dos 23 mil milhões de dólares para exploração de gás natural a partir de 2024 avançam na região.

"Há uma mão invisível que afasta estes grupos [armados] dos grande investimentos", sublinhou Fernando Lima, realçando que as multinacionais acreditam que não são o alvo da violência e, de qualquer forma, "têm os seus próprios meios securitários e de recolha de informação".

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