A 06 de agosto de 2019, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, Ossufo Momade, assinaram em Maputo o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional para acabar formalmente com confrontos entre as Forças de Defesa e Segurança (FDS) e o braço armado do principal partido da oposição.

“Tão importante como o desarmamento, desmobilização e reintegração [DDR] para o sucesso do acordo de paz está o desarmamento das mentes dos moçambicanos”, observou Calton Cadeado, especialista em Paz e Conflitos na Universidade Joaquim Chissano, instituição pública moçambicana.

O "desarmamento mental", prosseguiu, passa por as principais forças políticas do país apostarem na solução pacífica de diferendos e na criação de instituições credíveis para a resolução de litígios políticos.

"Tem de ser estudado porque é que o falecido líder da Renamo [Afonso Dhlakama) voltava às matas, depois das eleições, voltava para junto dos guerrilheiros, e optou várias vezes por boicotar as instituições do Estado", frisou Calton Cadeado.

Cadeado referia-se à recusa de Afonso Dhlakama em aceitar a derrota nas eleições e aos conflitos armados entre o braço armado da Renamo e as forças governamentais.

Guilherme Júnior, docente de Direito na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga de Moçambique, defendeu uma "pedagogia da reconciliação" junto das comunidades, para que os guerrilheiros da Renamo sejam inseridos na sociedade.

"As comunidades que sofreram muito com a guerra podem olhar para os guerrilheiros como os autores do mal e isso levar a uma hostilização que possa pôr novamente a paz em causa", alertou Guilherme Júnior.

A reconciliação e aceitação dos guerrilheiros desmobilizados é um processo que impõe um trabalho de mudança de atitude junto das comunidades, acrescentou.

O DDR deve ser capaz de antecipar a reação da população à chegada dos antigos guerrilheiros, em função do sentimento geral sobre o nível de intensidade que o conflito teve numa determinada região, visando anular a tentação de represálias.

"A guerra não tem a mesma intensidade em todas as comunidades, as comunidades que sentem que sofreram mais devem ser mobilizadas para uma postura de perdão e de acarinhamento dos guerrilheiros", frisou Guilherme Júnior.

Por seu turno, Muhamad Yassine, docente de Relações Internacionais na Universidade Joaquim Chissano e antigo deputado da Renamo, também defendeu a eliminação do ódio e do ressentimento, para que os membros das Forças de Defesa e Segurança e os antigos guerrilheiros sejam recebidos de braços abertos.

"Episódios de hostilidade nas comunidades são um entrave a uma reconciliação plena. As lideranças políticas e da sociedade civil devem trabalhar para se extirpar a raiz do ódio", considerou Muhamad Yassine.

No quadro do DDR, mais de 500 guerrilheiros da Renamo entregaram as armas.

Depois de um arranque simbólico no último ano, o DDR esteve paralisado durante vários meses, tendo sido retomado em 04 de junho deste ano, com a ambição de abranger 5.000 membros do braço armado do maior partido da oposição em Moçambique.

O acordo é contestado pela autoproclamada Junta Militar da Renamo, acusada de protagonizar ataques visando forças de segurança e civis em aldeias e nalguns troços de estrada da região centro do país.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.