As palavras, em discurso directo, de Afonso Dhlakama surgem no livro «A Minha Pátria é Moçambique», ´lançado no Verão passado em Portugal, pela jornalista Tânia Alves Reis. Uma colectânea de oito entrevistas a personagens que marcaram o Moçambique pós-independência, do antigo homem forte da Renamo a Joaquim Chissano, da Frelimo, passando por Mia Couto.

Reproduzimos em seguida, sem filtros ou intermediários, um excerto das palavras, ideias e argumentos que Dhlakama deu numa longa entrevista, no distrito de Angónia, em Tete:

Afonso Dhlakama: “Se valeu a pena ter havido um milhão de mortos e 16 anos de guerra? (pausa) Eu penso que sim. Não estou arrependido que tenham morrido pessoas, porque tudo o que é para melhorar a vida da maioria exige sacrifícios. Não há nada no bem-estar de um povo que se consiga sem que este passe por fases delicadas. Quero acreditar que muitos países europeus, se formos investigar, há 100 ou 150 anos terão tido também coisas horríveis. É o ser humano... Mas claro que o mundo se deve civilizar para que as armas não sejam usadas.

As armas devem existir apenas para defender a soberania em caso de invasão de um vizinho. Mas em África as armas continuam a ser usadas entre irmãos e para intimidar as populações. E por isso eu, Afonso Dhlakama, estou a ir pelo mundo e a juntar a mim as pessoas que têm a tese de que as armas devem ficar nas casernas. Esqueçamos a AK 47, tenhamos capacidade de diálogo, apresentemos aquilo que são as nossas razões. Se o mundo pensasse assim não haveria guerras, não haveria golpes de Estado. Se as pessoas aceitassem que o poder essencial reside nos povos do mundo, nas populações, que são elas que devem governar através de eleições livres e transparentes, o mundo teria paz.

Eu não quero ser pessimista, quero ser realista: estes 40 anos valeram a pena, embora o balanço seja mau. Hoje, em Moçambique, o que existe é uma paz doente. O povo moçambicano merece mais do que isto, do que esta paz adaptada. As pessoas merecem dormir à vontade sem ouvir estrondos de armas. Nunca tivemos paz verdadeira. Isto não é paz, não é a paz que gostaríamos de ter quando, no dia 4 de Outubro, assinámos o Acordo de Roma. Nós queríamos a paz verdadeira, mas infelizmente a FRELIMO tem-nos imposto a paz que ela quer para assim se manter no poder.

O Presidente da República de Moçambique, Filipe Jacinto Nyusi, e o antigo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, reuniram-se em Agosto de 2017 para discutirem o processo de paz. O encontro decorreu na Gorongosa. créditos: Lusa

A democracia não significa realizar eleições de cinco em cinco anos. Um partido no poder defendido pela polícia e a meter votos nas urnas, isso não é democracia. Para isso ainda falta muito. Mas nós somos a oposição e antes não havia oposição. Nós resistimos e o facto de estarmos a resistir, de continuarmos a lutar pacificamente, de nos podermos encontrar com jornalistas europeus, portugueses e falar à vontade é melhorar a democracia. Não é ainda a verdadeira democracia, para isso falta muito: o país é partidarizado, as instituições, as forças armadas, a polícia, os tribunais, todos obedecem ao partido FRELIMO.

A esperança que eu tenho é que daqui a 10, 15 anos, Moçambique será um país da África Austral com democracia e com desenvolvimento económico e humano. A minha ambição até hoje... eu continuo ao lado do pé descalço, porque o país é o povo, o país sem povo não é país. Qualquer ambição minha, qualquer aventura, o oferecer-me à morte é porque olho por este povo.

Sinto-me muito servidor deste povo. Sinto que consegui desmontar o comunismo em Moçambique, que consegui convencer os radicais comunistas da FRELIMO, porque pouco a pouco eles também já rezam e também já acreditam nos investidores externos. Eles também já acreditam que os privados podem ter o seu carro, podem ter a sua motorizada, podem pagar os seus impostos. Acredito que sou forte, tenho a força que o meu povo me oferece, e que dentro em breve a RENAMO vai poder governar pacificamente e demonstrar as suas políticas sectoriais.

Eu já tenho 63 anos, tornei-me líder da RENAMO aos 22, dentro em breve, se calhar, estarei na reforma, mas estamos a educar jovens dentro do partido para que continuem a trabalhar em prol da democracia para este povo sofredor. Daqui a 10, 15 anos o futuro de Moçambique será brilhante, porque eu acredito muito na juventude.

Afonso Dhlakama vota nas eleições de 3 de Dezembro de 1999, em Maputo. créditos: YOAV LEMMER / AFP

Sou democrata, o partido está a obrigar-me a ficar, porque pensa que eu sou o mais inteligente, o mais corajoso, o mais determinado. Mas tenho filhos e netos e chegará o tempo em que o partido terá de aceitar e preparar alguém para substituir o Dhlakama, para eu poder conduzir, comprar o meu carro pequeno, beber a minha cerveja e brincar com os meus netos sem chatices de telefonemas, quero ficar na minha aldeia de Mangunde em Chibabava. Sou de Sofala.

Quero agradecer por esta entrevista que irá circular em todo o mundo. Quem sabe se no gabinete do Presidente Obama, do Cavaco Silva, se eles poderão ver na Internet aquilo que o Dhlakama disse. E o que disse não disse como forma de defesa. Não tentei omitir nada. Respondi a todas as perguntas do fundo do coração.”

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*Artigo corrigido às 17h05 de 10 de Maio de 2018. Ao contrário do que foi inicialmente indicado, a entrevista não foi realizada no Gorongosa, mas sim na província da Angónia, no distrito de Tete, enquanto Afonso Dhlakama realizava vários comícios no Norte do país.