“Fomos atacados e fugimos para este regulado de Chissale”, disse à Lusa Sara Paulo, que deixou a aldeia natal em Towa para escapar com a família de 10 membros, fugindo na única direção de onde não vinham balas “acesas como brasas de carvão”.

“Não era um confronto, eram apenas disparos”, precisou a camponesa, que viu de novo transformada em cinzas a casa que reergueu há três anos, quando regressou à aldeia natal após viver três anos na condição de deslocada em Muda-Serração.

Em 2016, a camponesa fugiu por medo de ser confundida com membros da oposição, durante as execuções atribuídas pela Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) aos esquadrões da morte, no auge do conflito político-militar, entre o Governo e a Renamo, cujo cessar-fogo foi declarado em finais de 2016, e que culminou com a assinatura do acordo de paz definitivo, em agosto de 2019.

Desta vez, Sara fugiu para não ser apontada como cúmplice do grupo que, desde agosto de 2019, ataca viaturas na EN1, a principal estrada de Moçambique.

A camponesa é um dos rostos da nova vaga de deslocados que, desde abril, continuam a deixar aldeias do interior de Gondola, fugindo das patrulhas das Forças de Defesa e Segurança (FDS), que perseguem grupos armados que atacam viaturas em estradas do centro de Moçambique. A perseguição iniciou-se após a sequência de ataques a autocarros.

Estatísticas do governo de Manica indicam que 1.772 pessoas (287 famílias) deixaram aldeias do interior de Gondola e se alojaram em três campos de deslocados nas aldeias de Chibuto 2 e Muda Serração, a Sul do posto administrativo de Inchope.

Do total, 215 pessoas (31 famílias) fugiram dos ataques nas aldeias de Mucorodzi, Madziachena e Pindanganga, mais a nordeste do distrito de Gondola, e estão distribuídas em vários abrigos e residências de parentes nas periferias da vila sede distrital e no bairro Cuzuana, no posto administrativo de Cafumpe.

O número não inclui outras centenas de pessoas que procuraram abrigo em residência de parentes e províncias vizinhas de Manica.

Sara Paulo lembra que todas as vezes que autocarros eram atacados na EN1, os rebeldes fugiam para as aldeias do interior de Gondola e as autoridades governamentais acusavam a população de dar abrigo e comida aos atacantes.

Em declarações à Lusa, Golona Eferro, líder comunitário de Macequece, que vive também no campo de deslocados, disse que esta nova vaga, que ele próprio incentivou, começou um dia depois de as Forças de Defesa e Segurança “terem iniciado a perseguição dos atacantes e de os ter encontrado numa zona, conhecida por ‘Carrega Guitarras’, na madrugada do dia 7 de abril, quando a aldeia de Sara Paulo foi atingida”.

Em declarações à Lusa, Mateus Mindu, porta-voz do Comando provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica, defendeu que a nova vaga de deslocados resulta da insegurança provocada por ataques de grupos armados e que as forças de segurança estão a trabalhar para repor a ordem.

“Tem sido notório o movimento populacional a deslocar-se para outros locais devido à insegurança que existe naqueles pontos, mas como referi anteriormente, os nosso meios humanos e materiais estão posicionados para garantir segurança naqueles locais”, precisou Mateus Mindu, que pediu a colaboração da população na denúncia dos atacantes.

Zacarias Ranguisse, um morador da aldeia que acolhe hoje o maior campo de deslocados em Macequece, disse que a vaga de trouxe pressão sobre os parcos recursos da pacata aldeia, nas bermas da EN1.

“Onde buscávamos água quando éramos poucos, agora já não basta porque já enchemos e a água já vem suja, mas como não temos outra opção, continuamos sempre a beber aquela água”, disse à Lusa o jovem camponês de 29 anos, pai de oito filhos.

Os deslocados dependem dum charco, que restou das escavações da empresa chinesa que reabilitou a EN1, para buscar água para consumo e não tem um posto de saúde.

A maioria depende da agricultura, mas a colheita foi perdida nas machambas (quintas) por abandono, e agora vive dependente das doações do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), que segundo eles, “chega a conta gotas”. A aproximação da época chuvosa desespera a todos, devido à precariedade das cabanas.

Enquanto o futuro continua incerto, Sara Paulo amontoa no seu quintal molhos de capim, para cobrir a nova palhota e reconstruir a vida, porque já não quer voltar à aldeia natal, “muito conotada” com a oposição.

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