Ocupa dois importantes cargos de direcção na Vodacom e na Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA). Pelo menos são os mais visíveis. Mas, nem por isso deixa de ter amigos de todos os extractos sociais. Aliás, ri com a mesma facilidade com que respira. É contador de anedotas por excelência e possui uma grande dose de humor. Seu lema de vida resume-se a duas palavras, “integridade” e “honestidade”. Mas como exorciza ele o cansaço de toda uma semana de actividades. Foi a primeira pergunta que lhe colocámos.
 
Senhor Salimo Abdula, como é que abana o stress de uma semana de trabalho?
Jogando basquetebol com os meus velhos camaradas de desporto. São os casos de Belmiro Simango, Ernesto Júnior (Madoda), entre outros, às quartas e domingos. Aliás, estes foram meus colegas no Maxaquene. Em 1983, conquistei o título de campeão nacional envergando o jersey tricolor. Mas há outra parte que pouca gente conhece.
Ai é? Desvendemos então o véu.
Também joguei basquetebol no Matchedje. Um dos meus colegas nos militares, e que também tem estado a participar nos jogos de quarta e domingo, é o Custódio Machel… O Sacha. A par disso, temos estado a participar nos torneios da velha guarda com a novidade de que se começa a incluir algumas deslocações a África do Sul. Recentemente fomos jogar a Cape Town.
Amiúde, terminada a partida de basquetebol, entra no carro e vai para onde?
Vou para casa.
Tem seguro automóvel?
Tenho seguro automóvel. Este é o respeito à lei. Tenho o seguro porque não só me protege como também protege a terceiros em caso de acidente.
Qual é o seu carro de coração?
O carro que mais gosto, mais estimo…que é uma viatura que me leva a todo o lado é o Land Crusier. Permite-me, por exemplo, ir a Ponta de Ouro, onde tenho a minha casa de lazer. Dá para ir a Quelimane visitar os meus pais e demais família. Uma vez ao ano faço o trajecto Maputo/Quelimane por estrada. Gosto de conduzir. Agora, por exemplo, vou ter o prazer de atravessar a ponte Armando Emílio Guebuza, que era o grande sonho dos moçambicanos. Estive na inauguração, mas ainda não atravessei com o meu carro. Mas tenho outros carros.
 
SE SEI NADAR?!...
 
Quando vai à praia limita-se a ficar na areia, digamos assim, a rebolar? a gatinhar? Ou.....
... É assim: quando vou à praia gosto de praticar um pouco de desporto; conversar com amigos, sobretudo conversa banal, o que não posso fazer no meu dia-a-dia onde a gente tem que medir tudo o que diz, tudo o que faz… tudo o que mexe. Na praia, tenho a oportunidade de ficar de calções e despir-me um pouco daquela etiqueta de dirigente cujo comportamento pode perigar, inclusive, a imagem da empresa.
Sei que tem outra paixão.
Sim, prático o jet ski com os meus filhos e esposa.
E o que é isso de jet ski?
É uma mota de água. Brincamos nas ondas. A mota puxa as bóias com os miúdos atrás. Mas também gosto de caminhar, correr… para manter alguma performance (risos).
A propósito, sabe nadar?
Se sei nadar?…Sei não ir ao fundo durante uns segundos (e é a gargalhada). Não sou grande nadador.
Nasceu em Quelimane. É lá onde está localizada a bela praia de Zalala. Era razoável que soubesse nadar um pouco mais…
É. Mas… no meu tempo de menino ir à piscina era um bocado complicado. Tinha que se pagar.
Mas na praia não se paga!
Sim, não se paga, mas acontece que íamos à praia muitas poucas vezes. Não tínhamos professores de natação. Mas, como lhe disse há pouco, sei não ir ao fundo por uns segundos.
Correcto. Qual é o seu lema de vida?
Meu lema de vida!...integridade e honestidade. É o que tento transmitir às pessoas que me são próximas. A par disso, há que haver consistência, persistência e auto-estima para conseguirmos atingir os objectivos.
Casado? Filhos?
Muito bem casado com uma maravilhosa esposa que é praticamente o meu braço direito na vida social e no negócio. Tenho uma vida intensa, de responsabilidades sócio-públicas, já fui parlamentar e durante este período todo tive que lançar a minha esposa para segurar as sementes do que já havia lançado. Na essência, ela é quem gere grande parte dos meus negócios. Eu estou ao nível macro, mas na parte executiva ela é uma das administradoras com outros accionistas. Tenho três filhos. Todos rapazes. Penso que Deus não me deu nenhuma menina porque sou muito ciumento (risos).
 
FESTEJO NATAL, IDES E ALGUMAS FESTAS HINDÚS
 
Pode-se saber o nome da sua esposa?
Maria de Assunção Coelho Lebafe Abdula. O nickname dela é São.
Quer dizer, Salimo Abdula muçulmano fisgou Maria de Assunção, católica?
Sim! Na minha família há uma grande mistura de religiões e etnia. A minha costela paterna é oriunda de Angoche. A minha mãe é da província de Inhambane, mas tem origem asiática. Isso dá-me uma folga muito grande porque assim passo tudo o que é festa: festejo os ides, o natal (risos)… e de vez em quando alguns amigos hindus convidam-me para as suas festas. Pela legislação moçambicana tenho direito há mais do que um feriado. (e explode mais uma risada geral)
Se lhe convidarem para uma refeição que pratos é que escolhe?
Volto à minha origem zambeziana. Pego nalguns pratos típicos da província como um caranguejo grelhado com pincel de molho de coco (diz quase soletrando as sílabas). Nunca comeu, pois não?!
Repórter (não, não, nunca comi)
Aquilo é espectacular. Quando eu digo caranguejo grelhado algumas pessoas me questionam como é que faço.
E, já agora, como é que se faz?
Ide a Quelimane e verão como é que é. Gosto de pratos tradicionais como mukhapata, mukuane. Curiosamente quando eu era miúdo me sentia mais tentado a tocossados (água e sal), bacalhau, etc, etc.
Sua esposa é também natural de Quelimane?
Não, é de Sofala.
O senhor é uma autêntica multinacional?
(risos). É. Eu nasci e vivi em Quelimane. Estudei na Ilha de Moçambique (em Nampula), depois fui à Beira e finalmente Maputo.
Para empurrar a refeição o que é que vai?
Como bom muçulmano, sou muito moderado nas bebidas (risos). Mas…gosto de provar um pouco de tudo.
Nasceu na província da Zambézia onde dizem que o palmar é pincel e algodão, tela.
Tem quadros em casa? Aqui no escritório estão bem visíveis, além de serem bonitos.
Tenho. Gosto muito de quadros de artistas nacionais. Procuro sempre adquirir um, pelo menos, de cada artista que vai lançado. Tenho inclusive quadros da Chica Sales.
Quem são os artistas plásticos nacionais cuja arte o encantam sobremaneira?
 Malangatana Valente Nguenha, Naguib… não só por serem excelentes artistas plásticos, mas também porque carregam a bandeira do país. É sempre estimulante receber alguém em casa tendo um quadro de Malangatana como pano de fundo. Enche-nos de satisfação.
Durante a minha pesquisa disseram-me que não é muito dado a literatura? Verdade?
Não, não sou. Não sou porque…Bom, gostei muito de literatura quando tinha muito tempo por queimar. Neste momento, tenho muitos relatórios para ler (risos). Agora a literatura que faço é literatura diária de relatórios das instituições que dirijo. Muitas vezes, quando vou de férias, carrego alguns livros para ler. Alguns começo, outros ficam a meio, mas a maior parte deles ficam nos primeiros capítulos, porque começam a descarregar emails de relatórios o que me ocupa por completo.
Soube que nos convívios familiares, de amigos, sobretudo os mais próximos não dispensa fazer gosto ao pé sempre que se toca uma boa passada. Verdade?
Sim, gosto de uma passada…De um bom merengue. Digamos que, como um bom zambeziano sempre fui um bom vivant.
O Ferroviário fez a dobradinha. Ganhou o campeonato nacional de futebol e a Taça de Moçambique. Como é adepto do Desportivo de Maputo logicamente está triste?
Acho que se enganou. Sou adepto do Costa do Sol (risos)
Era um tiro no escuro. Está triste?
Não estou triste porque o Ferroviário mereceu ganhar. Obviamente que a aposta era no meu clube de coração. Mas, como disse, joguei no Maxaquene, agora recreio-me no Desportivo. Representei também o Palmeiras da Beira. Porém, o meu primeiro clube foi o ex-Benfica de Quelimane (actual Desportivo de Quelimane)
Enquanto basquetista em que posição jogava? Base ou ala?
Playmaker (base), mas não fosse pela minha altura(...). Por vezes jogava a ala.
E só fazia rotação para o lado direito?
Não…ah,ah, ah…sempre joguei com as duas mãos.
Ok. Ganhou.
 
 
 
Quero que a Vodacom continue a prosperar
 
Tocamos, de raspão, na vida profissional de Salimo Abdula, para que a entrevista, ainda que de lazer, ficasse quase, quase completa.
 
No final do seu mandato como PCA da Vodacom onde pretende ver a companhia?
Nestas coisas de empresariado o infinito é o fim. Na essência os meus dois anos de mandato na Vodacom são muito claros. Obviamente não pretendo sentar-me eternamente no lugar, tanto mais que dirijo uma holding.
Então a ideia é...?
A ideia é ajudar a Vodacom a crescer, até porque tem uma boa tecnologia, tem boa capacidade de inserção; está ligada a uma estrutura multinacional, só que não tinha conhecimento suficiente do mercado. O meu objectivo é fazer a Vodacom cada vez melhor, tudo isso em prol da sociedade moçambicana e se possível liderar o mercado da telefonia móvel. Depois, o país tem uma agenda virada para o turismo daí que seja importante fazer sentir a todos que o visitam, que Moçambique tem serviços de primeiro mundo e as telecomunicações são um dos principais pilares.
Qual é o seu maior defeito?
Impaciência de fazer as coisas acontecer. Aliás, não sei se é virtude ou defeito. Sei que a pressão que exerço por vezes cria nos meus colaboradores alguma vertigem, mas depois entendem que o propósito final é puxar o barco em beneficio de todos.
Numa só frase: como têm sido aquelas maratonas entre Patronato, Governo e Trabalhadores (sindicatos) com vista à revisão quase anual do salário mínimo? Desgastantes?
Não creio que sejam desgastantes. Estão, isso sim, a ajudar o crescimento da intelectualidade da sociedade. E mais: cada um está a fazer o exercício para defesa da classe, mas o que prevalece na essência é o horizonte da estabilidade económica e social do país. A médio prazo espero não discutir salário mínimo, mas sim índice de desemprego a um dígito. Este é o meu grande sonho, meu grande objectivo. Criar ambiente económico que propicie a nacionais o usufruto da sua capacidade, da riqueza que Moçambique oferece para despoletar o empreendedorismo.
Mesmo para terminar. Provêm de uma família de classe baixa, média, média alta ou alta?
Média baixa. No período colonial o meu pai vivia de salário, mas após a independência teve oportunidade que muitos moçambicanos tiveram, que foi usufruir da sua capacidade para crescerem. Foi cantineiro. O grande capital que herdei dos meus pais foi a educação cívica e académica.
Jornal Domingo