O jornal alemão Bild diz ter tido acesso a um relatório secreto do Ministério do Exterior alemão intitulado “África como prioridade máximateve acesso a um relatório secreto do Ministério do Exterior alemão intitulado "África como prioridade máxima", que revelaria planos da Rússia de intensificar a cooperação militar com países africanos como parte da sua nova estratégia para o continente. O texto descreve um projeto de instalação de bases militares na República Centro-Africana, Egito, Eritreia, Madagáscar, Moçambique e Sudão.

O professor de estudos de segurança e estudos estratégicos Emílio Zeca mostra-se céptico em relação à instalação de uma base militar estrangeira em Moçambique. "O Estado moçambicano, desde a proclamação da sua independência, em 1975, experimentou várias situações de aliciamento e de pressões para instalação de bases militares [estrangeiras]. Todavia, o Estado moçambicano nunca respondeu nem positiva nem negativamente. Simplesmente abdicou. E nos estudos diplomáticos nós sabemos que uma não resposta é uma resposta negativa", explica o académico.

"O segundo aspeto tem respaldo na Constituição da República. Está no artigo 22 da Constituição que Moçambique segue uma política de paz e preconiza que o Oceano Índico não pode ser transformado numa zona nuclearizada ou numa zona de instalação de bases militares. A questão das bases militares estrangeiras, russas ou de outros Estados, é um ‘não assunto' na nossa diplomacia", nota.

Quais as intenções russas?

Para Pedro Seabra, pesquisador do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, a notícia faz parte de um novo período russo de extrema vontade política para voltar a ser um ator geopolítico em África e competir por influência em todas as dimensões possíveis - inclusive a militar.

Por outro lado, Seabra ressalta três pontos de cautela ao analisar a informação sobre a instalação de bases militares. "A primeira é que o relato apenas menciona a possibilidade de construir bases militares em África, no âmbito da assinatura desses tratados. Portanto, não se confirma a existência ainda", afirma.

"O segundo ponto é que temos que talvez discutir um pouco o próprio conceito de base militar. Atualmente, talvez não se equaciona tão diretamente a uma visão clássica do que seria uma base militar. O mais provável é que estejamos aqui a falar de interpostos ou de postos logísticos até para facilitar uma certa pegada continental russa", pondera o pesquisador.

"E, o último deles, é se, de facto, é uma decorrência normal. É algo que costuma ser previsto neste tipo de acordo de cooperação militar e, portanto, não é, em si mesmo uma novidade - quando comparado com outras potências externas a África, quando tentam estabelecer este mesmo tipo de relações", explica.

Militares russos em Cabo Delgado?

Seabra comenta se pode haver uma presença russa maior do que a já noticiada, sobre grupos armados privados [Grupo Wagner] atuando em Cabo Delgado. O pesquisador lembra que causou bastante surpresa a presença de um grupo militar russo no norte de Moçambique que tem natureza privada, mas vínculos ao Kremlin.

O facto de ter sido noticiado pela imprensa alemã que teriam ocorrido negociações e discussões ao mais alto nível para dar mais cobertura material e logística a este apoio russo, segundo Seabra, permite que "se perceba um pouco mais este tipo de relações" entre os países. Mas ele também apresenta algum ceticismo sobre a instalação de mais efetivo militar russo numa base em Moçambique.

Interesses privados

"Eu diria que é muito mais provável que esta mesma "base" (lato sensu) possa estar mais a proporcionar apoio e cobertura a interesses privados russos do que a propriamente abrir caminho para uma presença militar russa em Moçambique", interpreta Pedro Seabra.

"Esta notícia, na verdade, dá uma corroboração à tendência crescente de internacionalizar um pouco a discussão referente a Cabo Delgado e sobre quem, que países, que organizações podem eventualmente já estar no terreno ou podem vir no futuro a proporcionar apoio face ao que estar a acontecer", analisa o pesquisador.

O relatório divulgado pela reportagem do jornal Bild destaca que desde 2015, a Rússia assinou acordos de cooperação militar com 21 países em África. Na primeira metade da década, tinha apenas quatro acordos de cooperação militar em todo o continente.

por:content_author: Márcio Pessoa

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