O toureiro moçambicano foi um fenómeno que percorreu as arenas de todo o mundo, ovacionado por Pablo Picasso e Salvador Dali, e reconhecido pela sua coragem e destreza diante dos touros, formando com a Amália Rodrigues e Eusébio o triunvirato dos embaixadores de prestígio de Portugal na época.

Para um matador de touros, dizem, o mais importante de tudo é a firmeza da sua mão direita e a argúcia dos seus olhos. Eu tinha a sua mão fechada sobre a minha e o seu olhar terno e caloroso convidava-me a sentar. Aquela mão que matara dezenas de touros na arena, em combates entre a vida e a morte, tantas vezes descritas por jornalistas, escritores e aficionados.

Os olhos nunca falham. Não podem. Têm de medir as distâncias e avaliar o momento certo. A mão de Ricardo Chibanga, que agora apertava a minha, fora a mesma que suspendera, nas bancadas da praça de touros de Las Ventas, em Madrid, e em Sevilha, a respiração de aficionados como Pablo Picasso, Salvador Dali e Orson Welles, antes de uma explosão de júbilo e regozijo, cujo fascínio e olhar poético só os verdadeiros amantes das corridas podem explicar.

No mesmo ano em que o jovem Chibanga desembarcava em Lisboa, 1962, Ernest Hemingway  (que escreveu entre outros, ‘Morte ao Entardecer’, o livro que fez mais pela divulgação das corridas de touros no mundo do que qualquer outro) punha um fim à vida com um tiro de caçadeira na boca, na sua propriedade de Idaho. Amante da festa brava, desde a Feria de San Fermín, nos anos vinte do século passado, Hemigway partiu sem conhecer Ricardo Chibanga. Teria por certo gostado de ver o matador moçambicano na arena e de lhe apertar a mão, no final de uma faena.

Durante meses, o encontro com aquele que é considerado o primeiro matador de touros negro de toda a História foi sendo adiado por questões de agenda e mais tarde por uma inusitada operação às cataratas. Mas eu tinha de conhecer o mestre. Depois de obter luz verde fizemo-nos à estrada. A tempestade e o céu carregado de Lisboa foram dando lugar a uma brisa outonal e ao chegarmos à Golegã, as folhas das árvores da praça central estavam tão mudas como a estátua do toureiro Manuel dos Santos, o grande responsável pela vinda de Ricardo Chibanga para a Metrópole.

O menino da Mafalala

A mão delgada e gentil, o nervosismo antes da entrevista. Muito antes de segurar a capa e a espada, aquela mão franzina ajudara a limpar a antiga praça de touros de Lourenço Marques (uma das quatro existentes em toda a África), nos anos cinquenta, ali a dois passos da sua casa, no bairro da Mafalala, e colara cartazes pela cidade, anunciando a chegada das corridas da Metrópole, que se realizavam nos meses de Dezembro, Abril e nas festas de Junho.

Aos 14 anos, Chibanga apaixonou-se definitivamente pelos touros e por aquela arte tão remota e estranha à sua cultura, que deixava os amigos perplexos. O futebol não era desafio para ele. As suas pernas estavam destinadas a outros palcos, a outros trajes. Filho de uma família muito pobre, não havia dinheiro para as entradas e ajudar na organização dos espectáculos sempre podia garantir-lhe um lugar nas bancadas.

Vacas e bezerros

Vídeo: Entrevista a Ricardo Chibanga, na Golegã

Vacas e bezerros

Em 1962, dois jovens moçambicanos, Ricardo Chibanga e Carlos Mabunga, tiveram talento e coragem suficientes para convencerem o empresário Manuel dos Santos a interferir junto do governador-geral da província para que os enviasse para Portugal, para aprenderem a nobre arte do toureio. Antes, o próprio Eusébio, também ele natural da Mafalala, e numa das suas viagens a Moçambique, disse-lhe que se ele gostava assim tanto de touros o melhor mesmo era mudar-se para Portugal.

Os três meses de estágio souberam a pouco ao jovem Chibanga. E depois de cumprir o serviço militar, em Lisboa, decidiu que ainda era cedo para regressar a Moçambique e rumou à pequena cidade da Golegã, terra de touros e cavalos, situada a 100 quilómetros a norte da capital, disposto a tudo para se tornar num verdadeiro toureiro. Mas à sua espera havia apenas bezerros e vacas e muitas horas de trabalho duro pela frente.

Na região há quem se lembre ainda dos touros corridos e das verdadeiras ‘tareias’ que Chibanga apanhava durante essas ‘vacadas’ iniciais. O moçambicano era destemido, sem dúvida, e para algumas pessoas até um pouco ‘maluco’. No entanto, era inequívoca a habilidade e o talento que ia demonstrando, de ano para ano, nas feiras onde se apresentava. O aprendiz Chibanga não estava disposto a tornar-se apenas numa nota de rodapé na história do toureio nacional.

Por entre a luz e a sombra, os anos foram passando e Chibanga aprendeu a conhecer os touros com os melhores mestres e ganadeiros locais e passou a respirar o pó da arena, como se nada mais do que esse horizonte de encantamento lhe estivesse destinado na vida. (clique para continuar) 

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