“É estranho para nós moçambicanos, sabendo das nossas dificuldades, que as autoridades não aceitem o apoio da judiciária portuguesa”, disse à Lusa a líder da bancada da Renamo, Ivone Soares, momentos após um encontro com a mulher do empresário Américo Sebastião, Salomé Sebastião.

Para a chefe da bancada parlamentar do principal partido de oposição em Moçambique, a recusa das autoridades moçambicanas em receber a ajuda oferecida por Portugal mostra que há falta de vontade política para resolver o caso.

“Se houvesse vontade política, o comportamento das autoridades seria outro. Só se pode justificar esta apatia e este completo desinteresse com o facto de não haver vontade política”, observou Ivone Soares, que lembra que Américo Sebastião desapareceu no “momento mais negro deste país”, em alusão ao período mais conturbado da crise política e militar entre o Governo e a Renamo.

Por sua vez, o porta-voz da bancada parlamentar da Frelimo, Galiza Matos, entende que as autoridades devem tratar deste caso com a responsabilidade exigida, considerando que está em causa a imagem de Moçambique.

“Está em causa também a imagem do país. O que nós entendemos é que Moçambique tem de merecer respeito a nível do mundo”, observou o deputado.

Galiza Matos não comentou sobre a recusa por parte das autoridades moçambicanas em receber ajuda da polícia portuguesa, mas garantiu que a bancada parlamentar do partido no poder em Moçambique vai analisar a nova petição submetida hoje pela esposa de Américo Sebastião.

“Entendemos que está em causa não só a vida de um cidadão, está em causa também uma família”, concluiu o porta-voz da bancada parlamentar da Frelimo.

O empresário português foi raptado numa estação de abastecimento de combustíveis e continua desaparecido desde a manhã de 29 de Julho de 2016, em Nhamapadza, distrito de Maringué, na província de Sofala.

No esforço para encontrar o empresário português, a mulher de Américo Sebastião apresentou um total de três petições na Assembleia da República moçambicana desde maio de 2017, além de ter solicitado, através de uma carta, ao Presidente da República, Filipe Nyusi, uma “intervenção directa”.

Segundo a família, os raptores usaram os cartões de débito e crédito para levantarem “4.000 euros”, não conseguindo mais porque as contas foram bloqueadas logo que foi constatado o desaparecimento de Américo Sebastião.

Nunca mais se soube do paradeiro do empresário desde o rapto, perpetrado por homens fardados, que algemaram o empresário e o colocaram dentro de uma das duas viaturas descaracterizadas com que deixaram o posto de abastecimento de combustíveis.

Portugal ofereceu por várias vezes a cooperação judiciária e judicial acordada entre os dois países para tentarem localizar Américo Sebastião, mas as autoridades recusaram.

Em finais de Outubro, a Procuradoria Provincial da República em Sofala anunciou o arquivamento das investigações ao desaparecimento de Américo Sebastião, alegando que não foram encontrados elementos para o esclarecimento do caso.