Em jeito de homenagem a Ricardo Rangel, o maior fotojornalista moçambicano falecido na noite de quinta-feira, o SAPO MZ reproduz aqui algumas fotografias do seu livro maior intitulado “Pão nosso de cada noite.” Nele, com a sua objectiva e o seu olho clínico, Rangel capta de uma forma magistral o ambiente nocturno da feérica Rua Araújo (hoje Bagamoyo) dos anos 60’ e 70’, que ficou conhecida pela rua do Pecado e da Perdição.

Embora nem todas a fotos destas obra tenham sido obtidas nesta artéria da Baixa da capital – há algumas nos bairros periféricos e outras na cidade da Beira – o ambiente é sempre nocturno com os todos os vícios a ele associados: prazer (prostituição), e vícios (álcool, tabaco). O título, Rangel confessa-o no início, foi roubado ao grande poeta e amigo José Craveirinha.

O desfile de fotos, precedido de comentários de Calane da Silva, José Luís Cabaço, Luís Bernardo Honwana e Nelson Saúte, tem início em 1961 no bairro suburbano do Chamanculo e termina em 1975 em pleno dia já com as tropas da Frelimo a controlarem Lourenço Marques. Nesta derradeira foto, intitulada “último pão”, vê-se uma prostituta, provavelmente regressando a casa após uma noite de trabalho, junto a dois militares do futuro exército de Moçambique.  

Cristóvão Araújo

Cidade de Caniço – Chamanculo (1961)

E a minha deusa negra estava lá do outro lado do caniço, lábios humedecidos pela cerveja em goles de prazer, candeeiro a petróleo iluminando seu corpo de vestido-capulana pronto a desnudar-se ao lúdico de um hóspede da noite. Porém eu, o poeta não pude e nem posso deixar de cantar neste caniço-mágoa-e-prazer meu poema de sexo pago:

Da noite / ficou-me o sabor acre / petróleo queimado / de latrinas infectas / e o tilintar angustiante / de uma moeda convencional. / No pensamento / mantive o resto: / algemas vivas / em punhos siflíticos.        

 

Euforia à chegada à rua Araújo

Era vez uma rua que embarcava marinheiros à beira-noite. Navegantes do lúdico, estes homens queimavam o sal das marés nos beijos a nicotina e álcool na adrenalina do desejo. Os mastros desta feérica embarcação eram corpos de chocolate esculpidos com o cinzel do prazer, falando todas as línguas do mundo para que a bússola dos sentidos fosse como uma vela de seda para o aconchego da noite. O néon traçando fios de luz no convés do asfalto era farol sinalizando com música um porto-mulher, um cais de suave atracagem. Marés visíveis e invisíveis sucediam-se nesta rua-oceano aberta ao mundo.

Minha irmã, minha cúmplice! Bar Mundo (1970)

Na inventada pista de dança do Bar Mundo, nossos corpos são cúmplices para a atracção de um companheiro para a noite.

Neste pequeno-grande mundo de emoções em gestação permanente, também se geram solidariedades e cumplicidades. Porém, no fundo, são jogos de atracção, jogos para despertar a atenção de quem rodeia o bailado destas mulheres, de modo que no ritmo de cada jornada não falte um final feliz.

Afinal é preciso amassar com sal e fermento adequados o Pão Nosso de Cada Noite, é preciso dançar no feminino para que o masculino também baile nos seus braços.

Modelo de olhos tristes nesta rua de folguedos (1962)

Como actriz ou modelo visto-me a rigor para a cena ou para o desfile desta noite. Meus olhos não mentem a tristeza deste meu jeito de alimentar minha família do outro lado da cidade.

A noite está fresca mas apronto-me para o despir do corpo quando a madrugada me aprisionar nos braços de um qualquer marinheiro à procura de um porto-mulher. Meu olhar distancia-se das luzes que me procuram, imagem-ilusão dum universo que inventaram para o meu sustento.

Navegando a noite. Bar Ritz (1970) 

Na letra inconfundível do nosso poeta revoltado também com esta Rua de encontro e perdição, vamos legendar estas próximas fotos de arte-memória de Ricardo Rangel, com a pena eloquentíssima de José Craveirinha, versando:

Mas tu! / Tu minha indigente Albertina de nádegas existencialistas / minha tímida Albertina heróica esposa de uma série / de maridos um por um lar das meninas casadas / e descasadas na mesma noite e tu sem saberes /…

No abraço da noite. Bar Maxim’s (1970)

…Efectivamente, parece que se quer derramar toda uma ternura escondida pelo preconceito que começa a desvanecer-se…Às vezes há uma súbita aflição no olhar e, no vibrar da música, parece pressentir-se uma espécie de último encontro, de uma última dança saudando a madrugada a despontar lá fora.

Porteiro do Cabaré Moulin Rouge na Beira. (1965)

Olhos de pedra aceitam esta máscara de euro-nobre setecentista para o pão amargo da noite.

Com que máscaras se pinta a entrada das noites de prazer? Que porteiros para entrada-vigilância dos sentidos? Na Rua Araújo ou nos cabarés de outras cidades do país, os porteiros, simultaneamente guardas colocados à porta dos clubes nocturnos, variavam de indumentária e fisionomia.

Desde o tipo policial passando por engalanados “militares” até ao de nobres europeus setecentistas, desde figuras simpáticas e finas às vincadamente másculas e musculadas, tudo se fazia para seduzir, honorabilizar e, ao mesmo tempo, advertir os mais conflituosos no acesso àqueles locais para o espectáculo do corpo.

Entre estes recepcionistas da noite, muitos dos quais ficaram famosos pelo seu lado positivo ou negativo, quantas histórias para se contar? 

 

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