Em entrevista à agência Lusa em Lisboa, José Mário Vaz afasta assim a hipótese de se candidatar à liderança do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que o apoiou na sua candidatura em 2014, mas com o qual está atualmente em guerra aberta.

O Presidente demitiu em 2015 o Governo chefiado por Domingos Simões Pereira, depois de o PAIGC ter conquistado a maioria absoluta um ano antes, e desde então já recusou duas vezes o nome do líder do partido para o cargo de primeiro-ministro.

“Nunca serei líder de nenhum partido político após a minha saída como Presidente da República, mas tudo o que eu puder fazer para o bem do meu país, para o bem do meu povo, não pouparei forças” diz.

Jomav, como é conhecido, refere que enquanto Presidente está “acima dos partidos políticos”, mas diz que não é ingrato e que nunca vai esquecer que chegou a chefe de Estado “graças ao PAIGC”.

Questionado sobre o isolamento político por também não ter sido apoiado pelo Partido da Renovação Social (PRS) nem pelo Movimento para a Alternância Democrática (Madem G15), José Mário Vaz considera isso não vai comprometer a sua reeleição, argumentando que a sua candidatura “está entregue ao povo” da Guiné-Bissau.

“Não estou preocupado com isso […] Eu tenho confiança no meu povo”, refere, dizendo acreditar que o povo vai reconhecer “a estabilidade” que deu ao país no primeiro mandato e que esse apoio será visível durante a campanha eleitoral.

Em relação aos motivos da sua candidatura, José Mário Vaz reclama que conquistou no primeiro mandato “paz civil, tranquilidade interna e liberdade de expressão, de manifestação e de imprensa”, mas admite que é preciso fazer mais pelo desenvolvimento económico e social do país.

Destacando que foi o primeiro Presidente a terminar o mandato, diz que se orgulha porque “ninguém morreu, ninguém foi espancado”, referindo-se ao histórico de conflitos e golpes de Estado na Guiné-Bissau, e que por isso foi “um Presidente diferente”.

O candidato aponta entre as prioridades a educação, saúde, e infraestruturas, e considera que a agricultura “é um setor nevrálgico” porque “80% da população guineense vive no campo” e esta pode ser uma área de oportunidades para os jovens.

“Podemos tirar os jovens da cadeira para o mundo do trabalho, formá-los e prepará-los para se tornarem empresários agrícolas para o bem importante para nossa terra”, propõe.

Reconhecendo que se trata de matérias do poder executivo, o Presidente refere, contudo, que pode usar a “magistratura de influência” junto do Governo e dos parceiros internacionais.

Questionado sobre se defende uma mudança para o regime presidencialista, José Mário Vaz diz que essa decisão cabe ao povo que “está representado na Assembleia Nacional Popular”.

No entanto, referiu que em África predomina o presidencialismo e que apenas dois países do continente além da Guiné-Bissau – Cabo Verde e São Tomé e Príncipe – têm o semipresidencialismo.

“Olhando para esses países, sentimos que há muitos conflitos institucionais. Esses conflitos podem ajudar os nossos países?”, questiona, acrescentando que o “caberá ao povo decidir” se esse regime não se adequa mais à Europa do que a África.

Sobre se teme, caso não seja reeleito, vir a ser acusado formalmente num processo em que é suspeito do desvio de cerca de 12 milhões de dólares (10,78 milhões de euros) e pelo qual chegou a ser detido em 2013, José Mário Vaz diz que este é um caso “de vingança” e um “cavalo de batalha política”, acrescentando que o valor que consta na acusação é o equivalente “a 600 mil euros”.

“Esse dinheiro nem eu usei, nem o primeiro ministro usou. O dinheiro foi usado nas despesas correntes do país naquele momento”, diz, justificando que a vingança se deve à recusa em voltar a ocupar o cargo de ministro das Finanças e depois de primeiro-ministro após o golpe de Estado de 2012, que depôs o Governo liderado por Carlos Gomes Júnior, que integrava.

José Mário Vaz refere ainda que não fica preocupado se não for eleito Presidente porque tem o seu trabalho.

“Eu antes de ser Presidente da República já era um empresário de sucesso”, diz, referindo que pode “até varrer a estrada”, aludindo ao cargo que ocupou como presidente da Câmara de Bissau.

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