Difícil acesso às fontes de informação, censura e autocensura são alguns dos principais obstáculos para a cobertura de assuntos relacionados à corrupção em Moçambique, mas essas não são as únicas dificuldades enfrentadas pelos média.

O presidente do Centro de Estudos Interdisciplinares de Comunicação e diretor-executivo do MISA-Moçambique, Ernesto Nhanale, analisou a relação dos média moçambicanos com as denúncias de corrupção no país.

O resultado do trabalho está no livro “A cobertura dos média sobre a corrupção em Moçambique: Um contrapoder abalado?”, que será lançado esta quarta-feira, em Maputo.

O investigador Ernesto Nhanale considera que há abertura legal para o exercício da profissão, mas há “atos de coerção contra as liberdades de imprensa” quando os temas das reportagens se referem à corrupção.

“Infelizmente assistimos a casos de violência contra jornalistas, casos de censura direta e até mecanismos de autocensura”, explica.

A mordaça invisível

Um dos imensos desafios para os jornalistas moçambicanos é a autocensura. O fenómeno é ainda pouco percebido pelo público, mas significa uma das amarras mais difíceis de serem rompidas quando se trata de denunciar casos de corrupção.

Nhanale explica que a autocensura resulta da pouca autonomia dos jornalistas em relação às fontes de informação. O pesquisador observa que pessoas em posições de poder em Moçambique conseguem desencadear mecanismos que repulsem os jornalistas a publicarem certas matérias.

“Quando a profissão não oferece um certo tipo de estabilidade aos profissionais, eles ficam vulneráveis. Outro elemento tem a ver com a segurança”, explica.

Segundo Nhanale, não há uma agenda interna dos média para a realização de reportagens de investigação. Poucos recursos materiais de qualidade, o domínio das fontes sobre as redações e a fragilidade no processo de apuramento da informação seriam obstáculos diários a serem superados pelo jornalismo em Moçambique, segundo o autor.

“A tratar-se desse tipo de matérias, sempre há um fechamento. É importante criar condições para que se monitore o governo.”

Repetidores de denúncias

Ernesto Nhanale admite que grande parte dos casos de corrupção julgados recentemente resulta de denúncias feitas pela imprensa, sobretudo a independente. Por outro lado, ele considera que podia ser feito mais.

O pesquisador acha que que, ao reportarem sobre corrupção, “os média fazem-no não pela sua capacidade de definirem a corrupção como um assunto de interesse e que deve ser investigado, mas como multiplicadores dos espaços de publicitação dos discursos e resultados de investigação realizados por outras entidades”.

Algumas vozes têm defendido a criação de um Ministério de Informação, mas Nhanale prega a completa independência dos veículos de comunicação.

“Cada órgão tem que definir a sua agenda através das regras do profissionalismo e da responsabilidade desses media em relação à sociedade. Ninguém mais tem que entrar e dizer o que um media tem que publicar e deixar de publicar”, defende.

Autor: Leonel Matias (Maputo)

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