Zacarias Nacute, porta-voz do comando provincial de Nampula, disse hoje à Lusa que foi reforçada a vigilância para evitar que haja pessoas aliciadas a viajar para integrarem aqueles grupos, na sequência de um caso detetado no início de junho.

“Estamos a fazer um controlo minucioso em todas as viaturas que vêm de outras províncias e também daquelas que saem de Nampula” disse Nacute.

A Comunidade Islâmica em Nampula teme a expansão dos ataques da província de Cabo Delgado para outros pontos do país e apela também à vigilância por parte dos que professam a religião muçulmana.

A violência pode ter uma força externa e os jovens moçambicanos estarão a ser usados, disse à Lusa o xeque Juma Kadria, delegado do Conselho Islâmico em Nampula, em linha com a opinião de outros líderes islâmicos ouvidos pela Lusa desde outubro de 2017 – altura em que se iniciaram os ataques com alguns membros de uma mesquita de Mocímboa da Praia.

Juma Kadria acredita que jovens moçambicanos têm sido “instrumentalizados” em nome da religião muçulmana e estão a espalhar terror e medo em Cabo Delgado, em oposição à paz defendida pelo Islão.

“Nampula já registou a presença de seitas religiosas estranhas”, acrescentou, referindo que “os irmãos muçulmanos logo informaram as autoridades governamentais”.

Trata-se de um grupo que, segundo aquele líder, havia surgido nos finais de 2017, que se dizia muçulmano, mas que nas suas mensagens espalhava ódio e a desobediência ao Governo – à semelhança dos relatos de Mocímboa da Praia.

A PRM anunciou a 08 de junho ter impedido a deslocação de cerca de 40 cidadãos devido à suspeita de terem sido recrutados para grupos violentos em Cabo Delgado.

“Não cometeram nenhum crime, mas estavam a ser enganados com ofertas de emprego”, referiu na altura o comandante provincial, Manuel Zandamela.

Povoações remotas da província de Cabo Delgado, 1.500 quilómetros a Norte de Maputo, têm sido saqueadas com violência por desconhecidos nos últimos noves meses.

Os grupos invadem as casas de construção precária com catanas em busca de gado, comida, dinheiro e bens de valor e têm provocado um número indeterminado de mortes, algumas com recurso a metralhadoras – além de incendiarem parte das povoações.

A onda de ataques teve início em Mocímboa da Praia com um grupo armado que integrava alguns elementos de um grupo muçulmano que ocupava uma mesquita da vila e defendia que a lei islâmica devia sobrepor-se ao Estado de direito.

Os grupos que têm atacado as aldeias nunca fizeram nenhuma reivindicação nem deram a conhecer as suas intenções.

Os ataques acontecem numa altura em que avançam os investimentos de companhias petrolíferas em gás natural na região, mas sem que até agora tenham entrado no perímetro reservado aos empreendimentos.

Relatórios de investigadores notam que há redes criminosas internacionais ligadas ao tráfico de heroína, marfim, rubis e madeira que estão presentes há vários anos na província de Cabo Delgado e sugerem que a onda de violência esteja ligada a essas redes.

As autoridades têm anunciado centenas de detenções e referem que os supostos agressores estão fragilizados, mas sem qualquer esclarecimento adicional sobre as razões da onda de violência.

Os ataques têm provocado vagas de centenas de deslocados internos que procuram refúgio nas sedes de distrito mais próximas (Palma, Mocímboa da Praia, Macomia, ilha do Ibo e Quissanga).