“Pluralismo, inclusão e respeito pela diversidade. Precisamos de enfrentar as realidades com coragem, ver as aspirações das pessoas e juntos fecharmos o fosso que existe. E continuar a dar esperança aos que não têm esperança. É possível”, considerou Amina Mohammed, a oradora convidada para a palestra anual organizada pelo Global Centre for Pluralism (Centro Mundial do Pluralismo, GCP na sigla em inglês).

Amina Mohammed traçou um retrato preocupante sobre o estado do mundo, referiu-se aos diversificados ataques que ameaçam as democracias, às grandes migrações, às desigualdades sociais, à degradação da natureza.

“Vivemos tempos turbulentos”, disse, referindo-se também aos progressos globais, para deixar uma mensagem de esperança com acento no pluralismo, o tema da intervenção.

“Mesmo que o argumento teórico do pluralismo esteja resolvido, temos um longo caminho a percorrer para dizer que o nosso mundo está a cumprir essa promessa. Em alguns casos, existe obstáculos históricos e culturais”, assinalou, para se referir ao “fosso que hoje existe” entre as palavras e as ações.

“Gostava de relacionar pluralismo com o trabalho da ONU no terreno pelo mundo, promovendo os direitos humanos, inclusão e respeito pela diversidade, a única forma de enfrentarmos os desafios globais e a paz e prosperidade”, sustentou no encontro organizado pelo GCP, uma organização não lucrativa fundada por Aga Khan em parceria com o Governo do Canadá, e que decorreu esta tarde no Centro Ismaili em Lisboa.

Ao referir-se à Agenda da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, Amina Mohammed destacou o “princípio da inclusão”, recordou que “as sociedades são mais pacíficas porque são mais inclusivas”, mas admitiu que as “ações falharam para refletir isto”.

Ao abordar as ligações entre pluralismo e os esforços globais para a promoção da paz, justiça e desenvolvimento sustentável, a vice-secretária geral da ONU lamentou as “consequências da exclusão, intolerância, falta de respeito, que estão muito enraizadas”, e em muitos dos “sistemas políticos, económicos e sociais”.

Referiu-se ainda a um mundo cada vez mais desigual: “De acordo com análises recentes, em 2030 os 1% dos mais ricos controlam dois terços da riqueza do planeta. O poder económico e, muitas vezes, o político estão concentrados nas mãos de muito poucos. E as minorias continuam desprotegidas, ignoradas”, disse.

A “reordenação” das prioridades, a “reorganização” dos sistemas políticos, económicos e sociais foi outra das mensagens de Amina Mohammed, 57 anos, ex-ministra do Ambiente da Nigéria, que esteve envolvida na concretização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável na função de conselheira especial do ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon.

Os objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com um núcleo central de 17 metas e que sugere uma ação urgente das nações numa parceria global, foram particularmente sublinhados pela oradora.

Terminar com a pobreza, melhorar a saúde e educação, reduzir as desigualdades e estimular o crescimento económico, e uma abordagem às questões climáticas e da preservação na natureza incluem-se entre os seus objetivos prioritários.

Este plano global poderá, também, significar importantes progressos em diversos países, na educação ou na igualdade de género e o lugar as mulheres na sociedade.

“Quando enfrentamos um crescente número de desafios que não respeitam as fronteiras nacionais, precisamos mais que nunca de instituições globais”, defendeu.

No entanto, reconheceu que o multilateralismo “deixou de ser visto como uma prioridade”, mesmo que a generalidade dos países concorde na necessidade de fazer melhor. A Agenda de 2030 foi aprovada por todos os Estados-membros da ONU e numa perspetiva de “globalização da solidariedade”, sustentou.

A reforma do sistema de desenvolvimento, da paz e segurança, a ajuda aos governos nos seus objetivos de transformação estão a ser efetuadas “sob a liderança da ONU” no âmbito de uma “mudança radical” para cumprir os objetivos até 2030 e promover uma mudança “em soluções políticas, baseada em benefícios mútuos, e no respeito mútuo”.

Por fim, uma referência elogiosa a Portugal e ao Canadá, coorganizadores da iniciativa, e que disse encontrarem-se entre os países “mais honestos” do mundo.

“É uma liderança de que hoje precisamos. Portugal forneceu muitas contribuições para a abertura, a diversidade. Um sentido de interdependência e um profundo respeito pelas diferenças culturais”, declarou.

Amina Mohammed concluiu com uma referência ao secretário-geral da ONU, António Guterres, seu “colega e amigo”.

“Um orgulhoso cidadão português que nunca se esquece de lembrar as qualidades especiais e únicas deste vosso país”, acrescentou.

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