"De nada valem ataques a esta ou àquela instituição. Ninguém virá fazer justiça por nós. Os moçambicanos é que devem fortalecer as suas próprias instituições", disse Beatriz Buchili, falando durante a cerimónia de abertura do ano judicial.

Para Buchili, a proclamação de Moçambique como um Estado soberano visou garantir que o país administrasse a sua própria justiça em nome do povo.

"Não podemos abdicar dessa soberania porque a nossa Constituição não permite", acrescentou a procuradora-geral da República, admitindo que existem fraquezas, mas que é necessário encontrar soluções.

O fortalecimento das instituições de justiça, dotando-as de recursos humanos, financeiros e materiais é apontado pela procuradora-geral moçambicana como fundamental.

"O nosso sistema de administração de justiça enfrenta desafios sem precedentes desde a sua implementação", referiu Beatriz Buchuli, destacando a corrupção, o terrorismo, o branqueamento de capital e o crime organizado como principais.

Para enfrentar estes desafios, a procuradora-geral sugere a cooperação entre os órgãos de justiça.

"São necessárias mudanças nas nossas instituições para enfrentar estas novas realidades criminais. Como país, somos chamados a mobilizar capacidade que garanta a realização dos nossos interesses como nação moçambicana", observou aquela responsável, insistindo na necessidade da definição de uma lei para recuperação de activos.

O pronunciamento da procuradora-geral acontece num momento em que o deputado e antigo ministro das Finanças Manuel Chang está detido na África do Sul, à luz de um mandado internacional emitido pela justiça dos Estados Unidos, que pede a sua extradição, no âmbito da investigação às dívidas ocultas.

As autoridades moçambicanas também terão pedido a extradição do antigo ministro das Finanças, acusado, em Moçambique, dos crimes de corrupção passiva para ato ilícito, branqueamento de capitais, burla por defraudação, abuso de cargo ou funções, peculato e violação da legalidade orçamental, tendo o Tribunal Supremo pedido ao parlamento sua prisão preventiva.

Os EUA, por sua vez, acusam Manuel Chang de conspiração para fraude eletrónica, conspiração para fraude com valores mobiliários e lavagem de dinheiro.

Manuel Chang, 63 anos, deputado na Assembleia da República da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder, aguarda pela decisão sobre a libertação sob fiança, que hoje foi adiada para 15 de fevereiro devido a uma falha de energia elétrica no edifício do tribunal de Kempton Park, arredores de Joanesburgo.

Além do ex-ministro das Finanças de Moçambique, três ex-banqueiros do Credit Suisse e um intermediário da empresa naval Privinvest foram detidos em diferentes países desde 29 de dezembro a pedido da justiça norte-americana.

A acusação da justiça norte-americana contém revelações detalhadas sobre o caso das dívidas garantidas pelo Estado, entre 2013 e 2014, a favor das empresas públicas Ematum, Mam e Proindicus, concluindo que terão servido para um esquema de corrupção e branqueamento de capitais com vista ao enriquecimento de vários suspeitos.

Em 2016, a revelação de que o Estado tinha dado um aval escondido a empréstimos de dois mil milhões de dólares para aquelas três empresas de segurança marítima e pescas, levou à suspensão de vários apoios internacionais, contribuindo para a degradação das perspectivas económicas do país.