O Papa Francisco frisou durante o seu primeiro discurso em Moçambique que "sem igualdade de oportunidades" não há paz duradoura.

"Quando [uma sociedade] abandona na periferia uma parte de si mesma", não há políticas, nem "forças de autoridade ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade", referiu esta quinta-feira (05.09) o líder da Igreja católica, no palácio presidencial da Ponta Vermelha

Francisco reuniu-se esta quinta-feira com o chefe de Estado Filipe Nyusi, com quem passou em revista vários assuntos de interesse nacional. Na reunião, participaram diferentes figuras da política moçambicana e membros de representações diplomáticas em Moçambique.

No final, o Presidente da República disse que o país continuará a fazer esforços para a reconciliação nacional.

"O primeiro a pedir desculpa é o mais valente e o primeiro a perdoar é o mais forte [...] O diálogo que fazemos com todas as forças vivas da sociedade moçambicana visa fazer da diversidade uma riqueza que nos carateriza como um povo", sublinhou Nyusi.

Paz e reconciliacão nacional

O Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO, o maior partido da oposição) assinaram a 6 de agosto um novo acordo de paz, o terceiro do país. Por isso, Filipe Nyusi não perdeu a oportunidade de mostrar ao Papa que o país está a trilhar os caminhos da paz e reconciliacão nacional.

"Estamos aqui com o meu irmão Ossufo Momade [líder da RENAMO], que peço que se levante", assim como "com Daviz Simango", o presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), referiu o chefe de Estado. "Citei estes dois porque são os que representam o nosso Parlamento, mas temos muitas mais [figuras políticas] que estão aqui e no programa seguinte".

Nyusi defendeu que "é na cultura de não violência" que a política "é feita, com a força dos argumentos e não pela força das armas".

Na sua intervenção, o Papa Francisco recordou que todos os esforços de pacificação surgem na esteira do acordo geral de paz de 1992, o primeiro, assinado em Roma, sob mediação da comunidade de Santo Egídio.

"As sementes" ficaram desde então, e agora surgem "rebentos" impedindo que uma "luta fratricida" faça a história. A coragem de construir a paz é "uma coragem de alta qualidade. Não a da força bruta e violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum", sublinhou o Papa.

Moçambique conheceu "luto e dor", mas não deixou "que a vingança e ódio vencessem", disse. A cultura de paz, acrescentou, exige um "processo constante" de diálogo no qual cada nova geração está envolvida. Para Francisco, os jovens têm um papel fundamental: não são apenas a esperança, já são o presente.

"Todos vós sois consultores da obra mais bela a ser realizada", disse o Papa para a plateia, no palácio presidencial, uma obra que consiste "num futuro de paz e reconciliação como garantias para a vida dos vossos filhos".

Foi a deixa de Francisco para o momento que se seguiu no programa do segundo dia de visita a Moçambique: um encontro inter-religioso com jovens no pavilhão desportivo do Maxaquene, na baixa de Maputo.

Solidariedade às vítimas do Idai e Kenneth

Durante a sua primeira intervenção pública em Moçambique, o Papa Francisco manifestou também solidariedade para com as vítimas dos ciclones Idai e Kenneth, que abalaram o país em março e abril deste ano.

"Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre os quais se abateram os ciclones Idai e Kenneth", referiu o sumo pontífice, lamentando não poder "ir pessoalmente até vós, mas quero que saibam que partilho da vossa angústia e sofrimento".

O líder da Igreja católica pediu especial atenção para as zonas onde "ainda não foi possível reconstruir" e faz votos para que "os atores civis e sociais", centrados no apoio à população, "sejam capazes de promover a necessária reconstrução".

O Presidente moçambicano referiu que as palavras do Papa após a catástrofe são importantes para "a mobilização de apoio e conforto moral", expressando "os profundos agredecimentos" em nome do povo mocambicano a Francisco.

O ciclone Idai, que atingiu o centro de Moçambique em março, provocou 604 mortos e afetou cerca de 1,5 milhões de pessoas. Mais de meio milhão de pessoas ainda vivem em locais destruídos ou danificados, enquanto outros 70 mil permanecem em centros de acomodação de emergência, segundo o mais recente relatório da Organização Internacional das Migrações (OIM), redigido em julho e que alerta para a falta de condições para enfrentar a nova época chuvosa, em novembro, dentro de três meses.

por: Agência Lusa, az

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